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Seção Entrevista
10/10/2012 - 14:42:47
Entrevista com Renato Limongi, presidente da Assochery
Por Caio Rinaldi e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP / A. Freire Renato Limongi, presidente e fundador da Assochery.

 

A Chery, líder no mercado chinês de automóveis, desembarcou em terras nacionais em 2009 com planos de garantir seu espaço no competitivo mercado brasileiro. De olho no potencial promissor do Brasil, o país foi o primeiro do mundo a receber um grande investimento da marca fora da China.

A gestão de negócios ao modo "chinês", no entanto, ainda é um desafio para executivos da fábrica, que buscam adaptação às regras do mercado nacional, e empreendedores do segmento de distribuição que apostam no negócio.

O Sincodiv-SP conversou com Renato Cintra Limongi, presidente da Assochery (Associação Brasileira dos Distribuidores Chery), para entender como se dá a relação dos distribuidores com a montadora chinesa. Ele destaca as conquistas obtidas pela união da rede e descreve aspectos de disputas da associação por melhores condições para o concessionário. %u201COs empreendedores do setor de distribuição têm confiança em mim para transmitir as informações entre a fábrica e a rede e isso é positivo para a coletividade, uma vez que saber mediar o relacionamento os interesses entre as partes é a chave para o bom desempenho do grupo no país%u201D, afirma Limongi.

Confira a entrevista completa a seguir:

Sincodiv-SP Online: Conte-nos um pouco sobre sua história no varejo de veículos.

Renato Limongi: Eu comecei no mercado automobilístico há 16 anos, com concessionárias de automóveis e motos Suzuki por um ano e meio, e depois passei para a marca Peugeot. Fui concessionário Peugeot por treze anos. Atualmente, sou concessionário Chery. Deixei a Peugeot para me dedicar integralmente à marca chinesa. Atualmente comando seis concessionárias da marca, e represento, hoje, a maior rede de revenda Chery no país.

Em minha trajetória de vida associativa, fui diretor financeiro, de Gestão e de Pós-Venda da Abracop (Associação Brasileira de Concessionárias Peugeot) durante oito anos. Com esse tempo todo atuando no desenvolvimento de atividades associativas, obtive um conhecimento muito grande sobre o dia a dia de uma organização de classe.

Sincodiv-SP Online: Quando a Assochery foi fundada? A marca está representada em quais regiões do país?

Renato Limongi: Quando começamos a operação da Chery no país, sentimos que era importantíssimo ter uma associação que representasse os interesses dos concessionários junta à marca. Sendo assim, em sete de fevereiro de 2011 foi feita a ata de constituição da Assochery. Hoje, todas as 105 lojas Chery no Brasil participam da associação, ou seja, 100% da rede é afiliada. Estamos em todas as capitais e em várias cidades importantes do país.

Sincodiv-SP Online: E o posicionamento da fábrica quanto a essa organização dos concessionários?

Renato Limongi: Para eles é tudo novidade. A Chery chinesa assumiu a operação do negócio agora em julho de 2012. Antes disso era um importador brasileiro que trazia os veículos e negociava. Com a instalação da fábrica em andamento e o início da gestão chinesa, os executivos da marca estão vivenciando um choque cultural muito grande. Tudo é novidade. Apesar de estar presente em 70 países, nós somos a primeira rede de concessionárias da marca no mundo. A Chery nunca trabalhou desta maneira. Na China é diferente, pois a empresa é estatal, num país %u201Ccomunista%u201D. E lá, por exemplo, não existe uma regulamentação do negócio como a Lei 6.729.

É engraçado, pois tudo que eu aprendi na associação da Peugeot, estou reaprendendo na Chery. Minha proximidade junto aos chineses é muito grande, não tenho apenas mostrado como estamos no Brasil, mas ensinado algumas de nossas práticas a eles.

No mês passado, conversei com o responsável pelo desenvolvimento da indústria automobilística da China, organizador do salão do automóvel de Ghanzoug, Pequim e Xangai. Eles não sabiam como é importante ter um espaço destinado ao revendedor para que haja uma apresentação em primeira mão, mais elaborada daquele produto que será mostrado e comercializado ao público.

É preciso ensinar ao chinês certas práticas que funcionam fora do país de origem da marca. Às vezes eu dou umas %u201Cbroncas%u201D (risos) para explicar o que precisa ser feito, conforme nossa experiência de empreendedores brasileiros.

A Chery é uma empresa 100% estatal, com 12 anos de vida, e o Brasil é a primeira nação com rede e fábrica. A fabricante assumiu as operações em julho e por isso ainda está em processo de adaptação, inclusive para assumir as regras da legislação que regula as relações entre montadora e distribuidor.

A questão do bônus, por exemplo... Se a companhia vai oferecer bônus para um concessionário, deve dar o bônus para outros também. Existe um processo de isonomia no Brasil. Em certa maneira, a Chery não está acostumada com isso.

Sincodiv-SP Online: Explique-nos como é a relação entre a rede e a fábrica.

Renato Limongi: Na última assembleia da Assochery que realizamos, contamos com a presença maciça da rede e a tradução das nossas ideias para os chineses foi muito bem feita. Nós reunimos e decidimos nossa posição. Eu sou o encarregado de fazer a ponte, conversar com os chineses.

A rede está me apoiando muito nesse intermédio. As assembleias para votação do novo presidente, com mandato de dois anos, ainda não ocorreram e eu já estou reeleito por unanimidade para mais um mandato, devido a essa proximidade que eu estabeleci com os chineses.

Os empreendedores do setor de distribuição têm confiança em mim para transmitir as informações entre a fábrica e a rede e isso é positivo para a coletividade, uma vez que saber mediar o relacionamento e interesses entre as partes é a chave para o bom desempenho do grupo no país.

Sincodiv-SP Online: Há concorrência no processo de reeleição para a Assochery?

Renato Limongi: Não tive nenhum concorrente, já que estou envolvido com o projeto desde o início. Essa foi uma decisão tomada antecipadamente e de forma unânime entre os concessionários.

Sincodiv-SP Online: Como se dá a participação de capital na rede? Existe algum investimento chinês?

Renato Limongi: As concessionárias são 100% compostas por investidores e capital brasileiros. Já a fábrica está sendo construída apenas com capital chinês.

Sincodiv-SP Online: No Pós-Venda, houve alguns problemas na reposição de peças no ano de 2011. Isso já foi solucionado?

Renato Limongi: A Chery chegou ao Brasil em setembro de 2009, sob a gestão da Venko Motors. Até julho desse ano, o negócio Chery era tocado pela empresa de importação e distribuição. Houve alguns problemas de reposição de peças porque se tratava apenas um importador. Em nenhum momento havia interferência da Chery - China - aqui. Mas, já havia a intenção, por parte deles, em ter uma fábrica no Brasil. Eles têm fabricas na Venezuela e Uruguai, mas queriam ter uma completa aqui.

A ideia inicial era assumir a operação em dezembro de 2012, mas aconteceu diferente. Agora que a própria Chery está no comando da gestão, desde julho, eles vêm com uma logística completamente diferente, trazem muito mais peças e carros, então posso garantir que esse problema de falta de peças de reposição é passado, não vai mais ocorrer.

Sincodiv-SP Online: Em 2011, a Chery fechou o ano com 0,63% de vendas do mercado de autos. Já em 2012, a participação passou para 0,56% e, no mês de agosto, 0,48%. Qual foi o impacto do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) maior para importados?

Renato Limongi: A condição ficou muito desfavorável em dezembro de 2011, quando foi aumentada a tarifa de IPI para veículos importados, e ainda mais quando houve a redução da alíquota para carros nacionais. Fica inviável o importador continuar trazendo veículos, pois ele não tem como compensar essa diferença de custo.

Logo antes de haver o aumento no IPI dos importados, o importador trouxe 15 mil carros ao Brasil sem a sobretaxa. Nós ainda estamos escoando essa frota, e assim todos os nossos carros ainda têm o preço antigo.

Para os próximos carros que estão chegando, temos 1200 veículos navegando e devem chegar já neste mês, em outubro. Em relação à taxação desses veículos, a Chery foi muito beneficiada pelo novo acordo automotivo, justamente por termos uma fábrica em construção no país. Recuperaremos as diferenças lá na frente, em forma de crédito, quando a fábrica estiver em operação.

Sincodiv-SP Online: Com a fábrica da Chery no Brasil, em Jacareí (interior de SP), a produção deve atingir 150 mil unidades/ano no terceiro ano de operação. Existe alguma projeção ou demanda da fábrica quanto a um aumento agressivo nas vendas?

Renato Limongi: Devemos fechar esse ano próximo dos 19.000 veículos comercializados. O que eles esperam para 2013 é uma projeção de 35.000 carros. Para o próximo ano, está em vias de aprovação um budget maior para investir em mídia para aumentar a visibilidade da marca junto ao público. Ainda em outubro, no Salão do Automóvel, lançaremos um produto novo, o Celer.

Sincodiv-SP Online: A associação participa das decisões estratégicas do negócio junto à fábrica?

Renato Limongi: Temos 100% de participação nos estudos e projeções para os próximos anos.

Sincodiv-SP Online: E o Consórcio Chery, é uma iniciativa da associação ou da fábrica? Qual a participação da Assochery nesse novo negócio?

Renato Limongi: A fábrica chinesa não conhece essa modalidade de venda, então a Assochery desenvolveu, junto a uma grande empresa do ramo, a Multimarcas, o consórcio da marca Chery. Nele, o concessionário tem uma participação nos lucros no final do ano.

Associação também tem uma participação, já que nós percebemos a possibilidade de uma nova fonte de receita e, assim, com um bom volume de vendas, gerir a associação apenas com essa renda, sem ter que aumentar a contribuição do concessionário.

Sincodiv-SP Online: Como você descreveria a percepção da rede para esse momento adverso dos importados no país?

Renato Limongi: A rede está esperançosa e ao mesmo tempo espera muito da Chery. Imagine como é difícil conseguir verba de uma empresa 100% estatal. É dinheiro do governo, portanto não é fácil.

A associação tem batido o pé forte para os chineses entendam que vão ter que gastar dinheiro, investir em mídia no Brasil. Na última reunião, formulamos uma carta, já enviada ao vice-presidente da Chery na China, sobre os problemas que vêm sendo enfrentados, do tipo de suporte que precisamos, da confiança que a marca precisa despertar no consumidor.

Hoje, se a marca não aparecesse na mídia, alguns clientes ficam em dúvida se a marca vai continuar no Brasil ou vai embora como outras já fizeram.

Nós estamos tentando mostrar e provar para eles que a mídia é uma parte muito importante do negócio no Brasil. Eles acham que apenas vender carro barato já garante o sucesso do negócio, mas aqui a velocidade do mercado é muito maior. O consumidor é abastecido de informações antes da compra.

Temos mostrado nas reuniões que nosso estoque está velho, é de 2011. Nós, concessionários, precisamos de bônus, devemos equalizar os estoques, são conceitos desconhecidos para os chineses. Todo esse processo, no entanto, é positivo e faz parte da consolidação do negócio no país.

Nossa rede não pode viver com os níveis de venda de hoje, estamos focamos em melhorar as condições junto à fábrica para impulsionar o negócio. A Chery quer ocupar um espaço, no Brasil, parecido com o ocupado pela Hyundai, da Coreia.

Acho que dentro de dois meses já teremos essa conquista de melhores condições para o negócio. A velocidade deles, eventualmente, é aquém da nossa.

Sincodiv-SP Online: Os chineses estão preparados para dar um suporte enquanto a fabrica não inicia a operação?

Renato Limongi: Eles já estão percebendo que o suporte deles é muito importante. Estamos mostrando que não há como vender carro no Brasil sem um suporte de mídia cooperada, bônus, pagamento da garantia antecipado, capital de giro. Ainda não está acontecendo, mas nosso trabalho em cima disso é para que as condições do negócio melhorem, ou existe o risco de haver uma rede fraca no lançamento da fábrica. Então agora ou vai ou racha. E eu aposto que vai!

Como o investimento na fábrica é 100% garantido, vai gerar resultado em pouco tempo. O momento, então, é de fortalecer o canal de distribuição, ter uma rede capitalizada e preparada para receber da melhor forma a produção. Estamos articulando isso.

A direção da Chery pretende criar um banco no Brasil, e também estamos auxiliando nesse projeto, sempre pensando na adaptação das expectativas deles à nossa realidade e nossas necessidades.

Sincodiv-SP Online: Qual é o seu recado para o concessionário Chery?

Renato Limongi: Ao nosso concessionário, gostaria de dizer: acredite no negócio Chery, na marca.

A direção da associação acredita muito que eles, os chineses, vão entender o mercado brasileiro. É um aprendizado muito grande. Todos nós estamos aqui aprendendo e rapidamente veremos uma resposta do nosso parceiro.

Com certeza a Chery tem tudo para crescer e se posicionar de maneira sólida no mercado brasileiro.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação