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Seção Entrevista
14/11/2012 - 11:13:49
Entrevista com Paulo Solti, presidente da Volvo Cars no Brasil e América Latina
Por Juliana de Moraes e Bruna Madeira
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire "A Lei Renato Ferrari, que regula a relação montadora-distribuidor é um bom exemplo do que funciona. Representa uma regra clara".

Apesar do cenário crítico pelo qual passa o segmento de importadores de automóveis no Brasil, as perspectivas de médio e longo prazo são positivas. O potencial de crescimento do setor premium no país – veículos com valor superior à oitenta mil reais - é de 150 mil unidades por ano até 2016 dentre as cinco principais marcas (Audi, BMW, Land Rover, Mercedes e Volvo Cars), de acordo com Paulo Solti, presidente da Volvo Cars no país.

Hoje, no entanto, o mercado vive situação bastante adversa. No final do ano passado, a previsão era ampliar as vendas de importados premium de 45 mil unidades em 2011 para 60 mil em 2012. Mas, tudo mudou com o lançamento da medida de aumento de 30% da tributação de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre os veículos importados.

“A primeira reação do segmento foi prever estagnação das vendas em 40 mil ou 45 mil unidades, entretanto o passar dos meses nos indica que em 2012 o segmento premium de automóveis vai acumular uma forte retração, com apenas 30 mil unidades vendidas”, apontou o executivo.

Para ele, apesar dos obstáculos do momento atual, o país não deixou de figurar entre os top 20 da marca que representa, a Volvo Cars. “Considerando que o Brasil está ganhando maturidade na regulação para a indústria automotiva, e é crescente o público que passará a fazer parte da classe A brasileira nos próximos quatro ou cinco anos, o potencial para ampliação de vendas é real”, defende ele.

Por fim, Solti explica que como está acontecendo com todas as marcas, a direção da Volvo também discute a possibilidade de instalar uma fábrica no país, “mas não há um posicionamento definido ainda. O que temos é o plano de fechar 2012 com 26 pontos de venda da Volvo e ampliar o número de revendas para até 45 nos próximos três anos”, aponta, otimista.

A seguir, confira a entrevista completa:

Sincodiv-SP Online: Em sua experiência profissional já atuou no Brasil e também no exterior. O que observou de diferente?

Paulo Solti: Estabelecendo uma comparação entre ambientes de negócios, os países europeus têm uma estrutura mais organizada, então as regras são mais estáveis.

Por exemplo, a lei que regula o setor automotivo na comunidade europeia é uma lei que é revisada a cada 10 anos. Ela regula como funciona a importação e a exportação de carros, quais são as regras, a partir de qual momento se considera um mercado aberto ou um mercado fechado; como é a relação entre a montadora e o concessionário.

Devido ao seu detalhamento, as regras são claras tanto para a distribuição de carros, quanto para a distribuição de peças, serviços, etc. Uma vez fechada a revisão da legislação do setor em Bruxelas (Bélgica), são 10 anos de estabilidade, e não mais se discute.

Essa postura equivale a de um mercado maduro, e o Brasil vai chegar nisso um dia. O Mercosul é uma grande incógnita. Não se sabe se em algum momento terá a mesma organização de países desenvolvidos, a mesma liberalidade de comércio que existe entre os países da união europeia... É uma grande questão.

Mas, eu acredito que o Brasil é um país que, hoje, está entrando numa fase próspera, em que as coisas começam a ser mais estruturadas pelo número de grupos que são profissionais no mercado automotivo.

Atualmente, vivemos a construção de regras, que são um misto entre barreiras, proteção do mercado interno e regulamentação. Precisa-se dividir o que é proteção da indústria nacional e o que é uma regulamentação do segmento.

A Lei Renato Ferrari, que regula a relação montadora-distribuidor é um bom exemplo do que funciona bem. Todo mundo conhece a legislação e a respeita, então representa uma regra clara, que funciona.

Sincodiv-SP Online: Você acredita que as medidas de proteção tomadas pelo governo brasileiro no mercado automotivo podem ter sido exageradas?

Paulo Solti: Acho que o Brasil ainda é, em termos econômicos, um adolescente. E isso reflete um pouco na maneira como o Brasil faz política.

Faz parte do governo regular, mas não intervir. O governo tem que cuidar para que todos os segmentos, não só automotivo, mas também de Construção e outros, tenham uma regulamentação, evitando a formação de cartéis e de monopólios. Isso, sim, é papel do governo.

Sincodiv-SP Online: Foi recebida com surpresa a série de ações do governo no último ano para proteger a indústria local?

Paulo Solti: Levamos cerca de 90 dias para nos adaptarmos, e estabelecermos um novo patamar de desenvolvimento dos negócios. Esperávamos que o primeiro trimestre de 2012 fosse tumultuado, mas que, depois, as coisas fossem se acomodar. Mas, a realidade foi muito diferente.

Em 20 anos dentro do setor automotivo eu já vi muitos acontecimentos, mas esse ano de 2012 tem sido o de maior aprendizado para mim. Trata-se de uma “grande aventura” para as marcas importadas.

No setor de importados, todas as marcas estão sofrendo muito. Houve um duplo efeito pelo aumento de IPI. O consumidor – que é informado – entendeu que, ou ele compraria um carro antes do aumento da taxa, ou ele compraria só em 2013, quando o IPI elevado teoricamente não existira mais. Logo, só compra o carro aquele que realmente gosta dele, os outros não.

Hoje, no nosso mercado (de importados de luxo), a única forma de se observar realmente um crescimento de vendas é por meio dos modelos novos. Quando há lançamento bem aceito, o volume de vendas chega a ser surpreendente às vezes.

Sincodiv-SP Online: De maneira geral, qual a percepção de gestores de importadoras de veículos, caso da Volvo Cars, sobre as medidas e este novo contexto para o mercado?

Paulo Solti: Nas primeiras estimativas que fizemos, imaginamos que o mercado ficaria estável em relação a 2011. “Vai ter uma queda?”, nos perguntamos. E, a resposta foi: “vai, pois estamos em uma situação, em que a evolução natural do mercado seria um aumento de 15 mil carros ao ano, o que não vai existir”. Ao final, o mercado deve encerrar o ano com 15 mil unidades menor, com um total de 30 veículos cmercializados em 2012, frente aos 45 mil do ano passado.

Sincodiv-SP Online: Como o setor vem respondendo à retração nas vendas?

Paulo Solti: Quando estamos em uma situação como esta, procuramos trabalhar em conjunto com os concessionários, fazendo reuniões regulares, discutindo o que aconteceu nesse mercado, exatamente para tentar equacionar. Mas, é muito difícil tanto para eles quanto para nós. É complicado para um empresário que investe em uma concessionária.

As montadoras e importadoras novas estão tendo muito mais dificuldades porque não têm “parque”, não contam com trabalho de pós-venda mais estruturado. A Volvo já tem um parque antigo.

No momento de tempestade, você deve ficar quieto, esperando as coisas clarearem um pouco. Não é hora de fazer movimentos de risco, é uma bobagem, e neste sentido nós estamos bem alinhados com o mercado.

Para ler a segunda e última parte da entrevista com Paulo Solti, presidente da Volvo Cars No Brasil e América Latina, clique aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação