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Seção Entrevista
26/04/2011 - 14:41:58
Bate-papo com o desenhista, cartunista e escritor, Ziraldo
Por Thieny Moltini e Renan De Simone
Foto: Ismar Ingber Para fazer um país justo, bom para os filhos e os filhos dos filhos, um povo tem que saber escolher, e só se aprende isto através da palavra escrita. Fora do livro, não há salvação!

Ilustre personagem da cultura brasileira, Ziraldo dispensa qualquer apresentação. Seja com o “Pasquim”, nos “anos de chumbo da ditadura militar”, seja com o livro “O Menino Maluquinho”, uma das melhores ilustrações de como crianças criadas com amor e felicidade tornam-se, no futuro, adultos completos e realizados; muitos de nós já se identificaram com o autor em algum momento da vida.
 

Apesar de desacreditado no início de sua carreira, Ziraldo foi em frente e é exemplo de que a fé em si mesmo pode nos levar longe. Em uma entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, o desenhista, cartunista e escritor nos conta um pouco da sua trajetória, suas lições de vida e a importância da educação e do incentivo à leitura, começando pela nossa casa, para um mundo melhor e mais feliz.
 

Sincodiv-SP Online: Quando você decidiu ser desenhista, cartunista, escritor...?
 

Ziraldo: Em 1948 (meu Deus, como sou antigo!) deixei Caratinga, minha cidade mineira, para virar desenhista de história em quadrinhos no Rio de Janeiro. Ao chegar ali descobri que esta profissão praticamente não existia no Brasil. Eu não queria ser pintor, embora todo mundo, na minha infância, achasse que este seria o meu futuro.
 

Resolvi, então, virar ilustrador de imprensa, chargista, cartunista, mas não havia vagas! Além disso, o chargista do pequeno jornal, onde fui oferecer meus préstimos de jovem artista, chegou bêbado na redação pedindo um vale. E o editor me disse: “Olha aí, o teu futuro.” Grande estímulo!
 

Um dia, um tio meu me levou a um restaurante famoso e apareceu na mesa um pobre artista se oferecendo para fazer a minha caricatura. Aí, meu tio me disse: “Olha aí, trate de estudar, caso contrário, este vai ser o futuro.” Só eu sabia que não ia ser assim, tinha certeza de que não, mas não sabia como é que ia ser.
 

Já na redação de um jornal onde outro editor me desanimava, o famoso fotógrafo Jader Neves – mais tarde, da Manchete – me olhou, penalizado, e disse: “Meu filho, o negócio é publicidade”. Eu não tinha ideia do que ele estava falando, mas, ele tinha um irmão chamado Jubal de Oliveira – gente boa, os dois! – que trabalhava na McCann Erickson. Me mandou para lá. Ali, fiz a minha Universidade. Aprendi tudo. (Preciso ir atrás do Jubal e do Jader para dizer a eles que nunca os esqueci.)
 

Sincodiv-SP Online: A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que quem mais influencia o leitor no gosto pelos livros é a mãe, segundo 49% das pessoas. Em seguida, vem a professora, com 33%, e o pai, com 30%.  Qual foi a importância e a influência dos seus pais e da sua escola para a sua carreira?
 

Ziraldo: Minha mãe lia histórias para mim. Na escola, descobri Monteiro Lobato. A professora começou a ler as Reinações de Narizinho para nós, mas não nos explicou o que era reinação e, certamente, ela também não sabia. A escola brasileira nunca se lembrou de ensinar para as crianças o significado das palavras que falávamos.
 

Só fui descobrir, por exemplo, que fração era pedaço quando já tinha desistido de aprender aritmética. Aí, já estava certo de que as frações ordinárias eram da pior qualidade, frações que não prestavam; como mulheres da vida.
 

Nunca me ensinaram o que era lábaro ou florão (palavras utilizadas no nosso Hino Nacional). Eu pensava que florão fosse um beque do América Futebol Clube. Só descobri que era o florão (em sentido figurado, de acordo com o Houaiss: bem ou qualidade de grande valor; preciosidade) da América – do Sul, eu presumo – depois de muitos anos.
 

Li, também, livros de autores católicos que meu pai trazia pra casa. Li todos os resumos dos contos infantis dos Irmãos Grimm, do Andersen, do Perrault aparecidos no Tesouro da Juventude, uma coleção de livros encadernados feitos para a infância que minha mãe sonhava em ter, um dia, dinheiro para comprar para mim, seu filho que gostava de ler. Li-os emprestados por uma professora chamada Dona Didi. Mamãe nunca conseguiu me comprar a coleção e lembrar disto me parte o coração.
 

Agora, o que li mesmo, desbragadamente, foram meus gibis, minhas revistas de histórias em quadrinhos que, quando atrasavam sua chegada ao jornaleiro de minha cidade, eu tinha insônia, pesadelos em que o trem descarrilava e as revistas não chegavam à estação de Caratinga.
 

Sincodiv-SP Online: Você foi um personagem importante durante a repressão, no Brasil, como essa fase mexeu com você? Quanto do Ziraldo atual é resultado dessa fase?
 

Ziraldo: A proposta do “Pasquim” era a de informar com muito humor. Foi uma época das mais férteis para mim. Criei o Pererê, o Jeremias, a Supermãe, as charges do JB e também, meu primeiro livro dedicado às crianças, o Flicts.
 

Fazer o “Pasquim”, para mim, foi um privilégio. Não posso imaginar de que maneira eu poderia ter atravessado os anos de ditadura sem poder manipular minha indignação. Foi uma sorte ter vivido nas páginas do “Pasquim” os anos de chumbo da ditadura militar brasileira. É bom poder contar para os meus netos que eu não fiquei assistindo de braços cruzados o triste espetáculo do desastre que foi este tempo para o Brasil e para o nosso futuro como nação.
 

Sincodiv-SP Online: Hoje, seus trabalhos são objetos de estudo em sala de aula. Como você se sente ao ser um personagem da história do nosso país?
 

Ziraldo: Duas palavras para definir: feliz e recompensado.
 

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Ziraldo, clique aqui

 

 

 

Produção e edição:

Moraes & Mahlmeister Comunicação