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Seção Entrevista
26/04/2011 - 14:52:24
Bate-papo com o desenhista, cartunista e escritor, Ziraldo - 2ª parte
Por Thieny Moltini e Renan De Simone
Foto: Ismar Ingber

Sincodiv-SP Online: Em 1999, você começou as revistas “Bundas” e “A Palavra”. Quais eram os objetivos de ambas e por que essas publicações acabaram?
 

Ziraldo: Acho que não houve apoio. Eu dizia para as agências paulistas: “Vocês não precisam anunciar na “Palavra”, na “Bundas” ou “Pasquim”para vender seu produto. Vocês precisam anunciar nestas publicações para que elas existam e assim contribuam para ajudar a melhorar o país onde vocês vivem, onde querem ganhar mais dinheiro e serem mais felizes; um país com uma gente melhor, mais bem informada, mais atenta para o mundo.” Meu recado não colou. Quebrei! Três vezes.
 

Sincodiv-SP Online: E quanto ao “OPasquim21”? Como funcionaram seus conteúdos e colaboradores? Qual era o seu objetivo?
 

Ziraldo: No dicionário, “Pasquim” significa panfleto difamatório, jornal vagabundo. Mas no inconsciente coletivo o significado de “Pasquim” mudou. Por isso é que eu usei o título para fazer o meu “OPasquim21”.
 

O pessoal jovem nunca viu o “Pasquim” na vida, mas sabe que é um jornal de briga, que lutou. Portanto, “OPasquim21”foi um jornal que nadava contra a maré. Nele constavam críticas a globalização, ao neoliberalismo, ao pensamento único, entre outras bandeiras. Por coincidência, a nossa motivação era a mesma do II Fórum Social Mundial, na qual “um outro mundo é possível.” Um mundo mais justo, onde não haja corrupção, gente excluída, traição pobre, sacanagem. “OPasquim21” foi o resultado de nossa indignação política e social. Somos contra tudo isso que está aí, no que diz respeito a comportamento.
 

O jornal se propunha a falar para pessoas mais inteligentes deste país, para formadores de opinião, para pessoas que não querem comprar feito, mas querem criar, decidir, escolher, pensar e refletir... “OPasquim21” juntou no mesmo espaço o que há de melhor no universo dos cartunistas e dos jornalistas (e escritores) brasileiros. Lamentamos apenas que as agências de publicidade não nos tenham descoberto. Uma pena!
 

Sincodiv-SP Online: Como eram as suas colaborações para as publicações internacionais, como a “Plexus” e “Mad”?
 

Ziraldo: Com o sucesso do “Pasquim”, recebi convites para criar desenhos e charges para revistas internacionais. Contribui algumas vezes. “Plexus”, “Mad” e “Graphics” foram algumas delas. Fiquei honrado.
 

Sincodiv-SP Online: Como foi o processo do livro Menino Maluquinho? E como foi transformá-lo em filme, texto para web, teatro, seriado televisivo e, até mesmo, ópera? Você participou ativamente de todos esses processos?

Ziraldo: Dá para dar a minha versão. Foi assim: o Menino Maluquinho nasceu na época das palestras. A turma do “Pasquim” vivia dando palestras sobre tudo, pois todo mundo queria saber o que estava acontecendo no país da ditadura. O que havia de cursos de Atualização da Mulher na praça era uma grandeza! E a gente dava palestras de graça sem saber que os organizadores das palestras estavam ganhando uma baba!
 

Um dia, fui falar para mães e mestres da Ilha do Governador, não sei se na universidade, no auditório da igreja ou se num colégio. Eu era o especialista de assuntos gerais. Acabei falando sobre crianças, sobre filhos, sobre publicidade infantil. E disse que era contra preparar a criança para o futuro: criança tem que ser feliz hoje, para ser um adulto feliz no futuro. Às vezes, pode não dar certo, mas é mais provável que dê. Foi aí que me sugeriram que eu escrevesse um livro com essa tese. Pensei: “Tá maluco? Não entendo nada de nada, sou espectador da alma humana”. No caminho de volta, novamente me ocorreu que a tese podia dar um livro infantil. Daí para o Menino Maluquinho foi um pulo.
 

Com o sucesso do livro e do personagem, logo surgiram novas ideias que se concretizaram: gibis, dois filmes (o terceiro está sendo preparado), série na TV, ópera... Acho que não vai parar, não. Fico muito feliz e orgulhoso, mas não participo, ativamente, desses processos. As pessoas me procuram com suas ideias e eu embarco nelas.
 

Sincodiv-SP Online: Nessa mania dos tablets, você vem se adaptando a ela? Existem projetos de livros para essas novas mídias?
 

Ziraldo: Eu gosto de acompanhar as novidades tecnológicas. Comigo não tem aquele negócio de dizer que no meu tempo era melhor. Isso não quer dizer que eu sei mexer em computador. Mas tem várias pessoas que colaboram para que eu esteja na internet. Vocês já leram meu blog hoje (http://ziraldo.blogtv.uol.com.br/)?
 

Quanto aos tablets, vamos começar lançando uma história em quadrinhos do Menino Maluquinho feita sob medida para o iPad, com interatividade e tudo. Sai em breve, pela Editora Globo.
 

Sincodiv-SP Online: Em meados dos anos 60 você escreveu o seu primeiro livro infantil, o Flicts. Como surgiu a ideia de contar a história de uma cor? Como ele chegou até Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua.
 

Ziraldo: Em 1963, comecei a colaborar com o JB no Caderno B, inventei os Zeróis, uma crítica aos heróis de histórias em quadrinhos e criei vários personagens, Vovó Maricota, que era uma velhinha viciada em loteria esportiva; a Supermãe e Jeremias, o Bom. Em 1969, no mesmo ano em que lançarmos o “Pasquim”, eu continuava no JB, mas decidi acabar com a vida semanal do Jeremias e eternizá-lo num livro. Levei o livro para a Editora Expressão e Cultura e o editor, Fernando Ferro, um português sofisticadíssimo, topou fazer o Jeremias, mas me perguntou: “Você não tem um livro infantil?” Eu disse: “Claro que tenho um livro na gaveta.” “Traz amanhã” ele falou. E eu tinha? Tinha nada. Tive que inventar um livro em uma semana. Um livro sem ilustrações, é claro. Foi assim que nasceu o Flicts. Este livro foi publicado em plena ditadura, 1969, ano em que começou seu recrutamento.
 

Uma das razões do êxito do livro é que ele era bastante subversivo para quem queria que ele fosse. Veja as falas das cores do arco-íris. Era a linguagem dos valores morais da ditadura. O personagem viajava pelo mundo inteiro e nem mencionava o Brasil que, naquele momento era, para todos nós, um país triste. Por isso, não usei a bandeira do Brasil na edição original. Intencionalmente.
 

O Brasil é um país de tais contrastes, no entanto, mesmo assim, o Ministro das Relações Exteriores, que era o Magalhães Pinto (mineiro como eu) decidiu dar o livro de presente aos astronautas que vieram aqui explicar a viagem. A embaixada norte-americana, que vivia namorando os artistas brasileiros numa técnica de cooptar-nos – ao contrário do que fazia a ditadura – cuidou de fazer a tradução do texto em inglês do livro. Foi um camarada Mawinkel, diretor da Usis, que vivia metido entre nós, na praia de Ipanema (diziam que ele era da Cia) que me levou ao Neil Armstrong.
 

Sincodiv-SP Online: É notável a sua preocupação com o incentivo à leitura e a educação.  De acordo com um levantamento inédito do Movimento Todos Pela Educação, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2010, cerca de 39% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias em casa. Como você enxerga esses dados?
 

Ziraldo: Poderia ser bem melhor. Os pais e educadores precisam, antes de mais nada, compreender como é importante a presença do que se pode chamar de literatura na vida de seus filhos e alunos. Para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela. Gibis, livros de histórias, livros que contam casos, que despertem a curiosidade das crianças para o mundo.
 

Na época em que não havia televisão, cinema e rádio, histórias para crianças eram chamadas (pelo menos na Inglaterra, um país de leitores) de bedtime stories. Eram os pais que liam os livros que estimularam, por exemplo, as Irmãs Brönte a se transformarem em grandes escritoras.
 

Para fazer um país justo e feliz, bom para os filhos e os filhos dos filhos, um povo tem que saber escolher. E só se aprende isto através da palavra escrita. O homem só chegou à lua porque, depois de Guttenberg, todo mundo teve acesso ao livro e ao conteúdo que eles preservam. Fora do livro, não há salvação.
 

Sincodiv-SP Online: Para você, ter livros em casa é sinônimo de maior aprendizado e cultura? Tê-los significa “consumi-los”?
 

Ziraldo: Comprar livros com o intuito de preencher sua bela estante é quase uma ofensa. Como disse na resposta anterior, cabe aos pais e mestres ensinar aos seus filhos e alunos o prazer que a leitura proporciona. É preciso ler como se respira.
 

Sincodiv-SP Online: Você tem trabalhado em algum projeto social recente? Quais são eles e como funcionam?


Ziraldo: Minha contribuição social é feita em forma de cartilhas educativas. O que já criei de cartilhas não tá no gibi! De todos os tipos: higiene, saúde, educação, trânsito, segurança na internet, combate às drogas e ao fumo, preservação do planeta, água limpa, etc. Uma cartilha bem elaborada ajuda a conscientizar a população, a fazer o que é certo para melhorar o seu país. Acredito que já sou especializado nesse tipo de produção visual informativa.


Sincodiv-SP Online: O que você acredita ser necessário para uma mudança na educação e no acesso à leitura na nossa sociedade?


Ziraldo: É o seguinte: o homem sobrevive porque tem os cinco sentidos. Mas, se não acrescentarmos aos seus cinco sentidos o sentido que ele próprio cria para si, o verdadeiro sexto sentido, ele não vai sobreviver em sociedade. Pelo menos, não dignamente. E este sexto sentido é a capacidade de ler e escrever.
 

Atenção: não é só ser alfabetizado, não! Um cara apenas alfabetizado adquire o novo sentido, porém continua meio deficiente, como um sujeito gago, ou meio surdo, ou sem mãos para usar o tato na pele da mulher amada, como astigmatismo, miopia ou tracoma e sem dentes pra traçar um churrasco.
 

O sexto sentido fundamental para o homem é conseguir entender o que lê e expressar-se pela leitura. Isto é mais necessário do que a visão, por exemplo. Conheço um monte de cegos bem sucedidos na vida, conferencistas, professores, altos funcionários, vereadores, deputados. Não conheço sequer um analfabeto que os supere.
 

Sincodiv-SP Online: O que você espera dessa nova geração?


Ziraldo: Minha geração fez sua parte. Plantou a semente, fez crescer a planta. Cabe à nova geração regá-la com sabedoria e colher ótimos frutos.


Sincodiv-SP Online: Por fim, o que você diria aos que aspiram ser cartunistas e/ou escritores?


Ziraldo: É preciso perseverar. O caminho é longo e tortuoso. Mas, muitas vezes, traz alegrias.

 

 

 

Produção e edição:

Moraes & Mahlmeister Comunicação