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Seção Entrevista
07/12/2010 - 17:07:26
Bate-papo com o piloto de aviões, Lelis Fachini, comandante de aeronaves de grande porte
Por Lelis Fachini
Foto: A. Freire Lelis Fachini, comandante de aeronaves comerciais é piloto desde os 18 anos.

Dentre os muitos sonhos que as crianças alimentam e têm sobre suas futuras profissões, uma das vitoriosas é a de piloto de avião. Não se pode negar que é atrativa a ideia de voar e poder olhar tudo lá do alto e ter liberdade de ir a qualquer lugar. Ao crescer, vemos que essa realidade pode não ser tão boa, principalmente depois de enfrentar um tumulto num aeroporto, mas essa é a imagem que temos como passageiros. Afinal de contas, como é a profissão e vida de um piloto de aviões?

 

Para falar sobre isso nada melhor que alguém que vive essa realidade e o Sincodiv Online traz para o Bate-papo deste mês Lelis Fachini. Piloto há mais de 38 anos, Fachini é comandante de aeronaves comerciais de grande porte, mas tem uma carreira peculiar. Ao contrário da maioria de seus colegas, ele iniciou seu trabalho numa ONG (Organização Não Governamental), a Asas de Socorro, em 1973, ao invés de adentrar numa companhia aérea.

 

De acordo com ele, a decisão foi tomada porque queria dedicar sua vida e suas habilidades para ajudar outras pessoas, mas não descartou também a carreira de piloto comercial. Profissional experiente, Fachini morou até mesmo na Malásia, onde atuou alguns anos e se confrontou com uma cultura peculiar que lhe rendeu boas histórias. De volta ao cenário nacional desde a metade da década de 90, o comandante comentou sobre a situação da aviação brasileira, suas experiências e curiosidades durante os voos. Acompanhe a entrevista na íntegra a seguir.

 

Sincodiv Online: Com que idade decidiu que seria piloto?

 

Lelis Fachini: É difícil estabelecer quando tomei essa decisão. Na verdade, não me lembro nem da primeira vez em que entrei num avião, pois meu pai era piloto.

 

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro ofereceu cursos gratuitos de pilotagem de aeronaves com a preocupação de que, se outro conflito mundial estourasse, teria pessoas capacitadas para entrar em combate e meu pai fez esse curso.

Meu pai não seguiu essa carreira e voava apenas por lazer, e sempre me levava junto. Cresci nesse meio e era natural saber que eu seria piloto.

Sincodiv Online: Ao contrário da maioria de seus colegas, no entanto, você não entrou para nenhuma companhia aérea…

Lelis Fachini: Na época, o caminho natural seria servir à Aeronáutica e fazer carreira até uma companhia comercial, mas, aos 11 anos, tive uma espécie de experiência espiritual muito forte em que percebi que deveria dedicar minha vida a ajudar pessoas e isso redefiniu meu rumo na aviação.

 

Certo dia, a igreja evangélica que eu frequentava recebeu a visita de uma missionária que trabalhava com comunidades indígenas isoladas e, durante sua apresentação, vi, numa foto, um avião que dava apoio a esse trabalho. Foi então que decidi que era aquilo que eu gostaria de fazer.

 

Sincodiv Online: Como o senhor começou a atuar como piloto, então?

 

Lelis Fachini: Comecei o curso de formação de piloto privado no Aeroclube de Limeira (SP) no mesmo ano em que iniciei na faculdade de biologia, curso que abandonei mais tarde para seguir carreira na aviação. Formei-me como piloto privado em 1971, aos 18 anos.

 

Cerca de dois anos mais tarde, conheci o trabalho da Asas de Socorro, e aquela minha decisão de ajudar pessoas começou a se tornar realidade.

 

Sincodiv Online: O que é a Asas de Socorro?

 

Lelis Fachini: É uma ONG humanitária que fornece apoio logístico – por meio de transporte aéreo – e programas assistenciais à comunidades de populações isoladas por todo o Brasil. O trabalho da Asas de Socorro é fornecer apoio e levar profissionais voluntários das áreas de Educação, Saúde e Cultura para locais afastados, onde seus serviços são necessários.

 

Sincodiv Online: Como conheceu a entidade?

 

Lelis Fachini: Quem me apresentou para a Asas foi o piloto Verner Grinberg, também fundador da cidade de Monte Verde (MG) e colaborador da entidade.

 

Grinberg nunca pilotou comercialmente, tinha seu próprio avião e o pilotou até seus 87 anos, aliás essa é uma história curiosa. Depois de seu aniversário de 87 anos, ele contratou um piloto particular e numa ocasião, durante um voo, o piloto perguntou a ele se não gostaria de assumir o controle da aeronave para matar a saudade. Grinberg respondeu que não, pois naquela idade começou a perceber que estava ficando velho.

 

Desde então essa virou minha meta: começar a perceber que estou ficando velho só depois dos 87 anos. Estou hoje com 57 e espero ter 30 anos pela frente antes de perceber minha idade (risos).

 

Sincodiv Online: Quanto tempo atuou ali? Como era o trabalho na Asas?

 

Lelis Fachini: Trabalhei por 13 anos e nesse período tive a oportunidade de morar em diversas partes do Brasil, como Goiás, Roraima, Pará, e realizar trabalhos variados com populações isoladas. Até a minha chegada, em 73, todos os pilotos eram estrangeiros, fui o primeiro brasileiro a integrar o grupo.

 

A Asas começou no Brasil dando apoio para missionários religiosos, mas depois intensificou sua atividade e passou a dar a assistência e apoio logístico a outras entidades e voluntários que trabalhavam com as populações ribeirinhas, quilombolas, etc.

 

Por meio da entidade fiz voos para áreas tão isoladas que tinha a sensação de estar em outro país, outro mundo. Nossos voos consistiam especialmente em levar e trazer pessoas voluntárias (médicos, dentistas, enfermeiros, educadores) para ajudar tais populações.

 

Sincodiv Online: Qual o maior desafio que o senhor enfrentou ao ingressar na Asas?

 

Lelis Fachini: Foi começar. Digo isso porque o trabalho lá não era tão simples. Nós tínhamos de voar para áreas remotas, com aeronaves pequenas e, naquela época, sem instrumentos tão sofisticados como os de hoje. Não havia GPS (Sistema de Posicionamento Global, na sigla em inglês), por exemplo, então tínhamos de achar locais muito escondidos nos guiando apenas pelas bússolas.

 

As pistas em que geralmente decolávamos e pousávamos também eram curtas, o que exigia uma concentração e habilidade extras para o trabalho.

 

Entretanto, iniciar ali foi o maior desafio porque a entidade exigia que cada piloto fosse o próprio mecânico de sua aeronave e minha primeira tarefa foi fazer um curso de dois anos em mecânica e manutenção de aeronaves. Atividade na qual até hoje sou certificado.

 

Sincodiv Online: O trabalho era arriscado, então?

 

Lelis Fachini: Sim e não. Apesar de todas as dificuldades, tudo era feito com muita segurança. A filosofia, por exemplo, de que o piloto do avião deveria ser o próprio mecânico faz parte disso. Além de conhecer melhor a aeronave, seus limites, em caso de quebra ou necessidade de manutenção enquanto estiver em locais isolados, o próprio piloto pode executar o trabalho.

 

É interessante que, em 55 anos de atuação no Brasil, a Asas de Socorro nunca registrou um acidente fatal.

 

Sincodiv Online: O senhor executou algum outro trabalho ali dentro?

 

Lelis Fachini: Depois de um tempo passei a ministrar cursos aos novos pilotos que adentravam a entidade e, atualmente, sou coordenador do Núcleo de Desenvolvimento Logístico, ou seja, não voo mais pela Asas, mas ajudo no trabalho administrativo.

 

Sincodiv Online: Depois da Asas de Socorro, qual foi o próximo passo na carreira?

 

Lelis Fachini: Em 1986 eu queria dar novos rumos à minha carreira e, recebendo um convite da Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica), fui dar aulas para outros pilotos. Aulas em sala e não práticas.

 

Logo no mesmo ano, porém, a Vasp (Viação Aérea São Paulo) abriu concurso, e entrei na empresa para atuar como piloto comercial. Foi uma carreira um tanto divergente da dos meus colegas, devo dizer, pois a maioria dos pilotos recém-formados tenta a aviação comercial em primeiro lugar, mas só fui adentrar esse ramo aos 33 anos de idade.

 

Sincodiv Online: O senhor já iniciou na empresa como comandante?

 

Lelis Fachini? Não. Quando você entra em uma empresa de aviação comercial você inicia como co-piloto. Esse profissional passa por todo o treinamento que o comandante passa, inclusive os de emergência, e também é capacitado a pilotar a aeronave, mas, hierarquicamente, está abaixo do comandante.

 

A carreira da aviação comercial segue duas regras para que alguém se torne comandante: uma experiência mínima exigida por cada companhia, como co-piloto; e a disponibilidade de vaga. Ou seja, se a companhia cresce a um ritmo acelerado, os co-pilotos tornam-se comandantes rapidamente, caso contrário, os profissionais torcem para os colegas se aposentarem ou falecerem (risos).

 

Sincodiv Online: Quanto tempo o senhor permaneceu no cargo, então?

 

Lelis Fachini: Fiquei muito pouco tempo, não porque fui promovido, mas porque fiz outros planos.

 

Casei-me muito cedo, de modo que a essa altura já tinha filhos adolescentes. E sempre surgiu o assunto de morar no exterior a fim de que os filhos pudessem ter uma experiência diferenciada, especialmente com a língua inglesa.

 

Assim, no final de 1988, veio para o Brasil um pessoal da Malaysia Airlines, companhia aérea da Malásia, para procurar novos funcionários de aviação, pois os países asiáticos estavam num ritmo de crescimento acelerado e não conseguiam suprir essa demanda. Participei de uma entrevista de seleção e, algum tempo depois, ainda sem a facilidade do e-mail, recebi um telegrama me convocando para trabalhar naquele país e me mudei com a família para lá.

 

Sincodiv Online: Não se pode dizer que a Malásia seja o destino mais comum quando se pensa numa experiência internacional. Por que aceitou o trabalho?

 

Lelis Fachini: A Malásia foi colonizada pelos ingleses, de forma que, na época, essa era a língua mais usada, e eu já teria trabalho garantido ali.

 

Sincodiv Online: Quais foram as principais dificuldades que encontrou por lá?

 

Lelis Fachini: Tive algumas dificuldades porque saí do Brasil, com a família, para ir morar na Malásia sem nunca antes nem ter viajado para a Ásia. Uma aventura e tanto.

 

Eu diria que as duas primeiras semanas ali foram as mais estressantes da minha vida. Tínhamos de procurar um local definitivo para morar, arranjar escola para os filhos e, nesse meio tempo, eu ainda tinha de estudar todos os regulamentos de tráfego aéreo do país, fazer o simulador de voo para adaptação aos padrões da companhia, e iniciar os voos propriamente ditos, ou seja, foi um desafio e tanto.

 

Sincodiv Online: Foi uma época terrível, então?

 

Lelis Fachini: Pelo contrário, adorei a experiência. Uma das coisas que me ajudou muito durante o período foi um aprendizado que tive quando estava ainda na Asas de Socorro. Certa vez fui convidado para assistir a um seminário de Relações Transculturais e uma frase dita ali me marcou: Não existe cultura certa, ou cultura errada, as culturas são apenas diferentes. Isso me permitiu viajar com uma cabeça extremamente aberta e positiva.

 

Sincodiv Online: Algum aspecto o marcou de maneira mais intensa nesse choque de culturas?

 

Lelis Fachini: Acho que o que mais chamou minha atenção foi a quantidade de coisas que tive de aprender “de novo” por ali (inclusive dirigir um carro novamente, porque os lados das ruas e o volante dos carros estavam invertidos, pela Malásia ter sido colônia inglesa). Até mesmo uma coisa simples, como abrir uma conta, se tornava curiosa.

 

O que eu poderia mencionar da Malásia é que aquele é um país mulçumano e cerca de 50% da população nativa dali não tem liberdade religiosa, inclusive existe polícia religiosa para regular as vestimentas e os rituais.

 

O restante da população, a grosso modo, é constituído de 40% de chineses e 10% de indianos, e foram pessoas trazidas pelos colonizadores para desenvolver o comércio ali, pois o pessoal nativo era mais dado à agricultura.

 

Algo que me impressionou, no entanto, foi a receptividade do povo. Eles eram muito acolhedores, amáveis, focados na família. Apesar da mania que temos de associar o islamismo ao terrorismo, posso dizer que aquele povo é muito diferente do que a imagem que fazemos deles.

 

Sincodiv Online: Qual era a sensação de viver ali, o cotidiano?

 

Lelis Fachini: Era fantástico. Nós voávamos na época pelo sudeste asiático e conheci uma grande diversidade de locais. Viajei para Indonésia, Tailândia, China e até mesmo para Camboja e Vietnã. A Malyasia Airlines foi a primeira companhia a entrar nesses países, logo depois do fim da Guerra Fria, então a sensação era de estar fazendo parte da história.

 

A primeira vez que pousei no Vietnã, em Saigon (hoje Ho Chi Minh), tive a impressão de que a guerra havia acabado há uma semana, quando já iam praticamente 15 anos do conflito e ainda era visível as marcas de balas nas paredes. A pobreza era muito grande, o aeroporto não tinha recebido nem mesmo uma pintura e não existiam as famosas lojas do free shop, mas sim uma espécie de feira livre onde os produtos eram vendidos em tecidos estendidos no chão mesmo.

 

No Camboja a situação foi bem semelhante e fomos recebidos pelo pessoal da ONU (Organização das Nações Unidas) na chegada. O curioso ali foi que na partida, a pista estava lotada de pessoas. Achei até esquisito que logo nos primeiros voos de abertura àquele país tantos passageiros já utilizarem o serviço, mas a verdade era que o aeroporto não tinha cerca, e os familiares estavam acompanhando os passageiros que iriam embarcar. A despedida foi feita literalmente na porta do avião.

 

Em um espaço de um ano depois de começar a voar para tais destinos, os aeroportos dessas regiões já estavam muito melhor estruturados, bonitos, organizados e funcionando como num país avançado. Essa diversidade foi muito marcante.

 

Sincodiv Online: O que o trouxe de volta ao Brasil?

 

Lelis Fachini: A família novamente. Meus filhos já tinham terminado a grade escolar e queriam entrar na faculdade. Nesse meio tempo, a Malásia intensificou seu aspecto nacionalista e destituiu o inglês como língua primária e substituiu pela língua nativa, assim, não se poderia cursar uma universidade em inglês, o que nos fez retornar. Desde a metade da década de 90, então, estou por aqui, ainda trabalhando como piloto comercial.

 

Sincodiv Online: Como um profissional que atua há décadas no cenário nacional e internacional, como o senhor vê a situação das pistas e aeroportos brasileiros, especialmente em São Paulo?

 

Lelis Fachini: A aviação brasileira é contraditória. Por um lado, as questões de segurança, aeronaves, treinamento da tripulação de bordo etc., são muito boas, inclusive a manutenção das pistas, que são fiscalizadas por rígidas normas internacionais. Por outro lado, os terminais de embarque e desembarque, em especial os de São Paulo, estão muito abarrotados, sem a capacidade necessária para atender a demanda existente.

 

Sincodiv Online: Quais os principais problemas dos nossos terminais?

 

Lelis Fachini: Não temos espaço suficiente. As salas de espera, espaços de desembarque ou mesmo o espaço para pessoas que estão em trânsito (que chegaram de um voo e estão aguardando o próximo) já não comportam o tráfego de pessoas.

 

Os estacionamentos também são caóticos e as rotas de acesso aos aeroportos estão sempre congestionadas pelo intenso tráfego de carros. A verdade é que as instalações não atendem a demanda dos horários de pico desses locais.

Sincodiv Online: E quanto ao tráfego aéreo brasileiro?

 

Lelis Fachini: O que precisamos nesse ponto é, principalmente, de modernização de leis. Hoje, por exemplo, a distância que o controle de tráfego aéreo exige entre uma aeronave e outra é muito maior do que a maioria dos outros controles internacionais, ou seja, lá fora, eles conseguem acomodar um número muito maior de aviões no mesmo espaço aéreo, podendo manter um fluxo contínuo de voos, evitando atrasos.

 

Sincodiv Online: Como poderíamos resolver tais questões, então?

 

Lelis Fachini: Precisamos ampliar os espaços de terminais nos aeroportos que já existem, bem como suas áreas de estacionamento. Deveríamos também ter pistas com um afastamento lateral suficiente para que pudessem ser feitas operações simultâneas (decolagens e pousos). E é determinante que haja ligação metroviária para os aeroportos, desafogando o trânsito de carros. Além de uma modernização nas legislações de controle de tráfego aéreo.

 

Sincodiv Online: E quanto às qualidades da aviação brasileira?

 

Lelis Fachini: O serviço prestado a bordo das aeronaves é de muita qualidade quando comparado com o de muitas empresas aéreas no exterior. O atendimento do passageiro a bordo é muito bom, especialmente depois de todo o transtorno e estresse que ele passa nos terminais.

 

Quanto ao treinamento de pilotos e tripulação de bordo, manutenção das aeronaves e etc. são quesitos tão regulamentados que não fogem dos padrões internacionais e garantem uma qualidade muito alta.

 

Sincodiv Online: Como fica a relação com a família na dinâmica vida de um piloto?

 

Lelis Fachini: Tem de haver uma adaptação e muita compreensão por conta da família. Se contabilizarmos as folgas de um piloto (mínimo de oito mensais), veríamos que seu tempo de trabalho mensal é menor do que alguém que trabalhe no escritório de uma empresa, por exemplo. No entanto, apesar de uma folga maior, por assim dizer, os dias em que elas ocorrem nem sempre condizem com os dias dos outros familiares. Por isso há uma regra de que, uma vez por mês, são necessárias duas folgas seguidas e que uma caia ou no sábado ou no domingo, para preservar a relação do piloto com outras pessoas de seu convívio social.

 

Sincodiv Online: No entanto, o senhor parece ter conseguido conduzir bem a questão, inclusive tomando decisões difíceis pensando na família…

 

Lelis Fachini: Isso é verdade em partes, visto que este é meu terceiro casamento (risos).

 

De uma forma geral, o número de divórcios dentro da aviação é muito alto, até maior do que a média geral das pessoas, acredito, justamente por conflitos de rotinas. Entretanto, para as crianças, a aviação proporciona uma coisa fantástica, que é a possibilidade delas acompanharem os pais no trabalho. Geralmente as companhias fornecem passagens gratuitas ou com preços reduzidos para esses casos.

 

Sincodiv Online: Já aconteceu alguma situação curiosa durante um voo?

 

Lelis Fachini: Várias, mas me lembro de um caso em especial. Um casal estava sentado na classe executiva de um voo vindo de Paris e os dois estavam “afoitos”, por assim dizer. Por ser um ambiente público, a comissária de bordo conversou com eles e pediu diversas vezes para que acalmassem os ânimos, mas eles estavam inconformados com a situação e a comissária então pediu minha intervenção.

 

Quando cheguei até o casal o rapaz se virou e disse, “comandante, eu não sei o que há de errado com a sua tripulação, eu só quero fazer sexo com a minha mulher e eles não deixam, essa daqui é por acaso a companhia aérea do Vaticano?” (risos). Enfim, eu conversei com o casal e eles decidiram se acalmar até que chegassem ao destino.

 

Sincodiv Online: Passando para a parte mais técnica, o que é realmente uma turbulência e qual o perigo?

 

Lelis Fachini: A turbulência nada mais é que uma instabilidade na atmosfera. Corresponderia para um carro, andar numa estrada cheia de buracos ou a um barco navegar em um mar revolto.

 

Ela pode ser causada por uma mudança na direção do vento (turbulência de céu claro), ou ser provocada associada a temporais de chuva. Nuvens de temporal (cumulus nimbus) chegam a grandes altitudes, maiores até do que a capacidade máxima das aeronaves de voo comerciais e a atividade dentro delas é muito intensa, não só pela chuva, nas partes mais baixas, mas nas partes mais altas onde a água está congelada.

 

A turbulência de tempestade pode apresentar perigo para o voo, mas as aeronaves são equipadas com radares atmosféricos que identificam essas formações. Já as de céu limpo, não são perigosas, desde que os pilotos tomem cuidados como redução de velocidade e etc.

 

Sincodiv Online: Como evitar uma turbulência?

 

Lelis Fachini: As associadas a tempestades podem ser detectadas pelo radar e o procedimento padrão é desviar-se delas (pelas laterais e não por cima). Já a turbulência de céu claro não é identificada pelos radares, mas também é mais branda.

 

Sincodiv Online: De acordo com a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) de 2006 a 2008 houve um significativo aumento nos acidentes de avião (77 em 2006; 100 em 2007 e 109 em 2008 – 70 deles (65%) com passageiros) – assim como parece ter ocorrido nos últimos anos. A que o senhor atribui esse aumento?

 

Lelis Fachini: Eu costumo dizer que não existem falhas técnicas, todo acidente é causado por erro humano. Se não foi do piloto nem do co-piloto foi de alguém da manutenção, o engenheiro que projetou o modelo e assim por diante.

 

Em comparação com décadas passadas, a aviação tem evoluído muito e, embora os números absolutos de acidentes possam ter aumentado, a porcentagem de acidentes caiu muito. Dois avanços em especial são responsáveis por essa melhora: a introdução dos simuladores de voo para o treinamento dos pilotos e a introdução dos motores à jato, que falham bem menos e apresentam melhor desempenho.

 

O aumento relativo de acidentes se deve porque atualmente se voa bem mais que antes, uma questão estatística, e a porcentagem de acidentes diminuiu muito, bem como os acidentes com vítimas fatais. A aviação, a cada dia que passa, se torna mais segura.

 

Sincodiv Online: Que mensagem o senhor deixaria aos aspirantes a piloto?

 

Lelis Fachini: Recomendo a profissão altamente. Na maioria das vezes não há nenhum estresse, é um trabalho gostoso e, depois de pousar o avião e entregar a aeronave para o pessoal da manutenção, não preciso me preocupar com mais nada. Além disso, é um mercado em franco crescimento e que necessita sempre de bons profissionais.

 

Sincodiv Online: E qual o recado aos concessionários e distribuidores de veículos do estado de São Paulo?

 

Lelis Fachini: Que continuem voando! (risos). O meu apelo, de verdade, é para que todas empresas prestem atenção e dediquem seu tempo à questão da responsabilidade social, que é de extrema importância. Se alguém, inclusive, tiver interesse em desenvolver este tipo de trabalho, eu terei o maior prazer em apresentar a Asas de Socorro para a empresa e me coloco à disposição para ajudar nessa peregrinação, por assim dizer.

 

Só temos uma vida para viver e, quando estivermos velhos e olharmos para trás, vamos gostar de ver plantadas coisas boas, as coisas que contam de fato, e esse tipo de trabalho/dedicação é muito recompensador.

 

Serviço:

Para conhecer mais sobre Asas de Socorro acesse www.asasdesocorro.org.br

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação
Juliana de Moraes e Renan De Simone