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Seção Entrevista
31/08/2010 - 17:09:27
Bate-papo com Raul Gorayeb, coordenador da Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp
Por Raul Gorayeb
Foto: A. Freire 'Contribuir para o desenvolvimento saudável de crianças tem valor de prevenção a doenças'.

Neste mês, o Bate-papo do portal do Sincodiv-SP traz Raul Gorayeb, psiquiatra e psicanalista que aborda as dificuldades enfrentadas pelos pais para educar seus filhos atualmente. Gorayeb trata de temas polêmicos, como medicamentos psicotrópicos administrados em crianças, e comenta sobre o fenômeno da exposição excessiva de adolescentes por meio de algumas ferramentas da internet.

 

Para ele, os jovens não têm sido educados com compromisso em relação aos seus atos e a responsabilidade recai sobre os pais, seja pela falta de exemplos durante a formação da nova geração ou, muitas vezes, por serem condescendentes com atitudes irresponsáveis.

 

Especialista em crianças e adolescentes, Gorayeb é um dos coordenadores do CRIA (Centro de Referência da Infância e Adolescência) do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e organizador do Setor de Psiquiatria da Infância e Adolescência dentro do Departamento de Psiquiatria da instituição.

 

Confira, a seguir, a entrevista completa.

 

Sincodiv Online: Pode nos contar um pouco sobre sua história profissional? O que o motivou a se especializar no público de crianças, adolescentes (e pais)?

 

Raul Gorayeb: Sou de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e me mudei para a capital para estudar Medicina na USP (Universidade de São Paulo). Em 1976, ainda no período de formação básica em Psiquiatria, ingressei na Unifesp e desde então desenvolvo minhas atividades na instituição. Também estudei Psicanálise e me filiei à Sociedade Brasileira de Psicanálise.

 

Há oito anos, a Secretaria Estadual de Saúde firmou um convênio com a Universidade, propiciando uma verba para o estabelecimento do CRIA, que abriga uma equipe multidisciplinar para o atendimento de crianças e jovens com transtornos mentais.

 

Meu interesse por crianças e adolescentes começou pela opção inicial pela área de Pediatria. Quando defini o que queria fazer, fui movido pelo ideal de atuar em um campo em que pudesse ter o maior efeito possível, com mais valor de prevenção do que de tratar problemas já estabelecidos. Neste sentido, a Pediatria possibilitava maior alcance e abrangência.

 

Depois, ao me dedicar à saúde mental, percebi que esse ponto de partida era ainda mais importante. Na medida em que eu pudesse fazer algo para contribuir com o desenvolvimento saudável de uma criança, teoricamente, estaria contribuindo para evitar que crianças, e também adultos, viessem a ter problemas.

 

Isso já implicava na ideia de acreditar que os problemas não vinham apenas de transtornos biológicos, do corpo, mas das influências educacionais, ambientais e de relacionamentos.

 

Infelizmente, essa é a uma vertente que perdeu força nos últimos anos, especialmente no âmbito da Psiquiatria. Dou uma interpretação até um pouco maldosa para isso. Acho que há uma influência maléfica, pelo interesse econômico mesmo.

 

A Indústria Farmacêutica se tornou muito poderosa nos últimos anos e cuidou de se infiltrar na vida das universidades, exercendo um poder negativo pelo financiamento de pesquisas voltadas exclusivamente para o desenvolvimento de medicamentos para o tratamento da saúde mental, como se esta fosse a única alternativa.

 

Sincodiv Online: Já que tocou neste assunto, qual sua visão sobre o uso de medicamentos para o tratamento de crianças e adolescentes?

 

Raul Gorayeb: O que as crianças estão sendo “drogadas”, com drogas oficiais prescritas por médicos, não está escrito no gibi! Hoje em dia, a quantidade de drogas psicotrópicas que é prescrita para crianças é alarmante.

 

É como se o acesso aos medicamentos fosse uma grande benesse! E, não há a preocupação de se questionar se o uso facultativo de psicotrópicos em crianças é algo de fato bom ou não. Ninguém parece querer discutir isso.

 

Alguns médicos usam os pais apenas como informantes para catalogar o comportamento das crianças e fazer um diagnóstico para prescrever remédio, no caso, uma substância psicotrópica. Não querem saber da história das crianças, do ambiente familiar em que vivem e são educadas.

 

Exemplo claro e explicito é a droga usada para o déficit de atenção. Na maioria das crianças e jovens que recebo no CRIA ou em meu consultório com o diagnóstico, percebo que a avaliação foi feita de forma leviana e que não tem sentido a prescrição de medicamento...

 

O remédio que se usa para esses casos é uma anfetamina, um estimulante do sistema nervoso. Em crianças, o efeito do medicamento se dá ao contrário, causa o chamado efeito paradoxal, ou seja, acalma.

 

Em minha opinião, a ideia do uso de medicamentos para problemas de conduta é baseada numa premissa falsa de supor que o comportamento é como um produto do corpo, uma consequência do funcionamento biológico. A conduta se constrói a partir da vivência, da relação, embora eu dependa de algumas bases biológicas (pernas, braços, músculos, neurônios). Apesar disso, o comportamento é algo muito variável dependendo das circunstâncias em que ocorre.

 

Entendo que o uso de medicamentos para eliminar comportamentos indesejados ou tidos como inadequados é um equívoco. Agora, isto não quer dizer que sendo eu conhecedor de substâncias, drogas psicotrópicas que podem interferir no sistema nervoso, modificando os comportamentos de alguma maneira, não possa me valer disso de forma benéfica para favorecer as pessoas em situação de dificuldade. Mas, seu eu fizer isso, tenho que reconhecer que o uso do remédio não é a questão fundamental na minha ajuda para as pessoas, é apenas um acessório.

 

A distorção que se criou hoje em dia foi a de inverter a situação, colocando o uso de medicamentos em primeiro lugar. Esse é o grande pecado da Psiquiatria Moderna a meu ver. Falo isso juntamente com um número pequeno de pessoas da área e somos vistos como equivocados, ultrapassados, como se fôssemos mal informados...

 

Não quero dizer que eu condeno o uso de psicotrópicos, mas o uso inadequado e inconveniente é maléfico; e não entender a essência dos problemas de comportamento – principalmente em crianças eles vêm de uma falha de educação – cria equívocos, fazendo com que se esteja prescrevendo “bolinha” para um número enorme de crianças nos dias de hoje.

 

Sincodiv Online: Com a experiência que possui, é possível traçar o “mapa” dos problemas que mais envolvem crianças e adolescentes atualmente?

 

Raul Gorayeb: Os principais problemas são os relacionados à educação, à construção de valores e a algo que não é um problema clínico, de doença, trata-se de um problema social, que é a falta do cultivo dos valores do coletivo. Nossa sociedade despreza o que a gente chama tradicionalmente de bem comum.

 

Por exemplo, os políticos, quando ocupam cargos, não estão preocupados em fazer algo em prol da comunidade para depois serem reconhecidos como alguém que favoreceu o bem comum. Eles estão preocupados em saber qual é a vantagem pessoal que vão obter.

 

Os bens comuns como, por exemplo, o passeio público, as praças, as estradas, orelhões, ruas e calçadas são áreas que as pessoas destroem, não entendem que pertencem a elas.

 

Essa postura é ruim para todos, causa um ciclo negativo, especialmente na convivência entre as pessoas, e nada mais é do que um problema de educação.

 

Sincodiv Online: Dos tantos desafios dos pais para educar, pode citar e explicar um dos que considera mais importante?

 

Raul Gorayeb: A criança que tem um ano e meio precisa da presença e do carinho dos pais para que aprenda a dar sentido às coisas elementares, como falar, se locomover. A educação básica de um bebê não é igual à de uma criança de quatro anos e que também difere da necessária para uma de 10 e da que deve ser oferecida a um adolescente.

 

A coisa mais difícil de os pais perceberem é que eles têm de mudar conforme crescem os filhos. Você vê pais que querem que os filhos, aos 20 anos, tenham comportamento igual ao que tinham aos dois anos.

 

Em meu consultório, outro dia, um rapaz de 24 anos relatou que o pai quis bater nele. A reação do rapaz foi dar um “chega para lá” no pai, que ficou indignado, apontando como absurdo o fato do filho ter segurado sua mão e o impedido.

 

Enfim, como é que um pai vai querer exercer sua autoridade por meio da força com um filho dessa idade?

 

É compreensível que os pais exijam respeito dos filhos, obediência às regras da casa, especialmente quando os filhos adultos ainda moram com eles e são sustentados. Mas, é preciso que tenham coragem de dizer para os filhos que se eles não estiverem dispostos a levar a opinião dos pais em conta e respeitar as normas da casa, já têm idade e condições suficientes para buscar seus sustentos e, assim, viver de acordo com as próprias regras.

 

Acontece que muitos pais de hoje não são capazes... e sabe por quê? Sentem culpa por uma série de coisas e acham que passando a mão na cabeça dos filhos, tratando-os como crianças, compensarão a falta que possam ter feito a eles.

 

Sincodiv Online: No contexto do uso da tecnologia de informação pelos jovens, qual o papel dos pais e quais são as formas de conseguirem melhor compreender a relação que os filhos têm com esses recursos?

 

Raul Gorayeb: O pavor de muitos pais hoje em dia é a sensação de que estão sempre no prejuízo, superados pelas gerações mais novas, mas isso não é verdade. No essencial do ser humano, que é o desenvolvimento e formação da pessoa, as coisas ainda são muito parecidas às de 2.500 anos atrás.

 

Se você tem um filho, tem que observar como ele está construindo a relação dele consigo mesmo e dele com outras pessoas. Se ele a está fazendo em bases sólidas e verdadeiras ou se está se deixando fascinar pelas ilusões.

 

Isso vale tanto para o uso de uma ferramenta de mídia, como para uma experiência pessoal, de se apaixonar, por exemplo.

 

É verdade que o apaixonado pode “emburrecer”, mas também pode se tornar uma pessoa muito melhor. Da mesma maneira, ao se abrir para mundo através da internet, não é a internet que devo julgar, mas a forma como se faz isso. Como é feito o uso da ferramenta.

 

Se você percebe que seu filho está “namorando” mais o computador do que as pessoas, ou seja, passa mais tempo diante da tela do que com as pessoas, há algo muito errado com ele. Não é com o computador que há algo de errado.

 

Os pais têm que permitir que seus filhos vivam as experiências e aprendam com elas. Ou seja, ninguém pode impedir que os filhos se apaixonem ou vivam suas experiências na web. O papel dos pais é ajudar a agregar valor existencial às vivências dos filhos. É oferecer a base fundamental para que os jovens tenham condições de refletir sobre as escolhas que fazem para si mesmos.

 

Sincodiv Online: Recentemente, reportagens publicadas em jornais e portais de notícias alertaram para a exposição excessiva dos jovens por meio de câmeras de computadores em redes sociais da web. Como avalia este fenômeno?

 

Raul Gorayeb: A tecnologia de comunicação é apenas ferramenta, não é a essência do ser humano. E, quando temos num fenômeno como o que mencionou e nos voltamos, hipocritamente, para analisar os instrumentos, já perdemos de vista o essencial.

 

Para mim, quando as perguntas são: o que está acontecendo hoje nos meios de comunicação (?), por que os jovens estão se expondo (?), Digo o seguinte:

 

A questão da instrumentalização começou lá atrás, quando um macaco pegou um osso e o transformou em um porrete... O mesmo pode ser dito sobre o dia em que o homem desenvolveu a escrita. Naquele momento estava dada a primeira ferramenta e com ela vieram todas as consequências pelo bom ou mau uso dela...

 

Pouco importa se você está com um lápis de carvão na mão ou com uma ferramenta complexa, como a de um aparelho eletrônico. Precisamos evitar sermos enganados pelas aparências. Não são os meios de comunicação que têm algo de bom ou de ruim. Os meios são apenas instrumentos e só posso analisar as pessoas pelo uso que elas fazem dessas ferramentas e não pelas ferramentas que elas usam.

 

O que acontece hoje em dia (quanto à exposição dos jovens nas redes sociais da internet) não é pela tecnologia que existe, mas por conta de uma falha no processo formativo das pessoas, na educação básica e na formação de valores. É nisso que a sociedade peca, principalmente a brasileira.

 

Porque gosto de nossa sociedade, me sinto na obrigação de falar muito mal, no sentido de querer corrigir, não de maldizer. Nossa cultura tem muitos defeitos, e um deles é o de misturar e confundir os valores.

 

Os jovens não estão sendo educados de forma a ter consciência sobre o valor básico das relações humanas, do respeito às regras de convívio coletivo, do compromisso ético de não prejudicar o outro, do reconhecimento de que não estamos aqui para fazer o que dá na telha, mas que a vontade de cada um encontra limites na conveniência ou inconveniência do coletivo... Enfim, as pessoas não têm compromisso em relação aos seus atos.

 

Se os jovens fossem educados dentro dessas premissas e os adultos fossem modelos (nos quais incluo nossos políticos, educadores...), eles pensariam um pouco mais na forma de utilização das ferramentas de tecnologia, por exemplo.Antes de condená-los (os jovens), temos que avaliar que eles são frutos de uma educação que não lhes deu base para compreender a armadilha em que estavam caindo. Quer dizer, os jovens têm livre acesso às ferramentas, mas sem ter sido dado a eles a ferramenta (condição) de reflexão para avaliar e entender os limites, os riscos e os benefícios que o tal instrumento de comunicação pode oferecer.

 

É como você dar um canivete para seu filho, sem proporcionar valores educacionais para ele entender que aquilo é potencialmente uma arma assassina.

 

Eu diria que você comprou sarna para se coçar...

 

Sincodiv Online: Ainda em relação ao uso da internet, como os pais devem orientar os seus filhos em relação às informações disponibilizadas nos canais para publicação de perfis, a exemplo de Orkut, Facebook?

 

Raul Gorayeb: Qual é o limite da diferença entre orientar um filho sobre como postar conteúdo e imagens no Facebook/Orkut e como deve acariciar a namorada?

 

A questão é: como é que eu posso educar e ao mesmo tempo respeitar a privacidade do meu filho? Os filhos mais controlados pelos pais são aqueles mais irresponsáveis. E, muitos pais não percebem isso...

 

Não é através da página do Facebook que observarei se meu filho é ou não responsável na utilização do meio. É na observação direta da relação que vou entender se meu filho é ou não responsável. Eu não terei dúvidas, nem vou desconfiar se eu me relacionar verdadeiramente com ele.

 

O que quero dizer é que a página Facebook é uma extensão da personalidade da pessoa. Se eu sou “torto”, a página vai ser “torta”, assim como o uso que eu farei da mídia. Se sou um sujeito centrado e consciente, minha página vai ser coerente.

 

Se um pai precisa consultar o perfil do Facebook para ter certeza de como anda a formação de seu filho, está passando a seguinte mensagem:

 

- Filho, eu que vivo com você e que quero estar próximo, estou fazendo o uso de uma falsa ferramenta para entender como você pensa ou se vê. Reconheço que não confio em você, que não sou capaz de extrair da nossa relação as coisas fundamentais que se pode obter das relações com seres humanos.

 

A gente não se dá conta de como ferramentas virtuais são uma boçalidade para este tipo de finalidade. É uma incoerência... afinal, o que é que posso saber de essencial sobre meu filho por esses canais, se tenho uma relação direta com ele para obter informações.

 

Pode parecer radical, mas no que diz respeito às questões essenciais dos vínculos humanos, é preciso reconhecer o papel e o limite das ferramentas de comunicação.

 

Sincodiv Online: Apesar da antiguidade do tema, desafio sempre presente na vida dos pais é a questão das drogas. Em sua opinião, como os pais devem se portar diante dos filhos e falar sobre o assunto?

 

Raul Gorayeb: Em primeiro lugar, é preciso dizer: não existe droga ruim ou droga boa. Remédio é tão droga quanto a “droga”. Em todas as culturas sempre houve o uso de drogas. Portanto, não adianta dizer aos filhos: afastem-se das drogas, pois são ruins e fazem mal... Essa postura só aguça a curiosidade deles em relação ao assunto!

 

Você tem que mostrar o valor essencial no que diz respeito ao uso de drogas de maneira geral, indicando que se a substância pode trazer uma sensação momentânea de prazer, ao mesmo tempo ela ilude, encanta e faz com que se perca o senso sobre quando é ou não adequado se fazer uso dela.

 

Se apenas disser a um jovem que a droga é ruim, estará mentindo. O “amiguinho” de seu filho vai dizer que é gostoso e ele passará a desacreditar das coisas que você diz.

 

Os pais devem mostrar os prós e os contras e cobrar dos filhos o que se pode cobrar em todas as circunstâncias:

 

- Você é responsável por você!

 

Sincodiv Online: Então o maior desafio é ensinar os jovens a ter responsabilidade?

 

Raul Gorayeb: O papel dos pais é dar liberdade e cobrar responsabilidade. Todo jovem quer liberdade, não é? Pois então que a tenha e leve com ela o ônus da responsabilidade!

 

Muitos pais, hoje, querem oferecer aos filhos os benefícios do que o dinheiro pode dar (bens materiais, recursos) e confundem as coisas, acham que não se deve cobrar nada dos jovens em termos de responsabilidades.

 

É a tal história do aluno que diz ao professor que não vai fazer o que ele pede porque é ele (o pai dele) quem está pagando (a escola e o professor)...

 

Faltou a educação (orientação) para o jovem entender porque, de fato, o pai está pagando a escola e o professor. E, mais, faltou ensinar como o jovem deve conviver em sociedade e respeitar as regras coletivas sob pena de ter que arcar com as consequências da falta do compromisso em relação aos próprios atos.

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação
Juliana de Moraes e Renan De Simone