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Seção Entrevista
26/01/2011 - 14:39:24
Bate-papo com o desenhista, escritor e empresário Mauricio de Sousa
Por Mauricio de Souza
Divulgação MSP Mauricio de Sousa, desenhista criador da 'Turma da Mônica'

Para começar o ano, o Sincodiv Online traz um bate-papo com o desenhista e escritor Mauricio de Sousa, um ícone empreendedor brasileiro da Criação. Das atividades profissionais como jornalista investigativo até seu papel de fomentador da alfabetização de mais de 180 milhões de crianças chinesas, o desenhista, autor de uma das mais famosas Histórias em Quadrinhos do Brasil, divide sua história e carreira.

Há algum tempo Mauricio não é só o desenhista e escritor da infância de muitos, mas também responsável por uma marca sólida no mercado: a Mauricio de Sousa Produções Ltda. Com o personagem Ronaldinho Gaúcho, despontou a internacionalização da marca, que hoje está presente em mais de 50 países.

Apesar disso, Mauricio diz não se considerar um empresário, mas sim um administrador, que cuida da sua atividade com o conhecimento que possui sobre ela. Recentemente, um tema, prioritário para o Sincodiv-SP, passou fazer parte do planejamento dos negócios de Mauricio: a sucessão familiar. E é também sobre esse assunto que o empresário comenta, com a objetividade que é sua marca.

A seguir, conheça um pouco da história e das aventuras vividas por Maurício de Souza, o “pai da Mônica, do Cebolinha...”:

Sincodiv Online: Seus pais foram poetas. Eles tiveram influência para sua formação como contador de histórias?

Mauricio: Meus pais tiveram influência direta para minha formação como escritor e desenhista. Além de serem poetas, escritores, compositores, presenteavam - me com livros e gibis. Acompanhavam e cobravam desenvolvimento. E isso foi essencial para minha escolha de atividade, profissão.

Sincodiv Online: Sabemos que teve experiência no rádio e, até mesmo, como repórter policial no jornal Folha da Manhã. O que o levou até os quadrinhos?

Mauricio: Como meu pai trabalhava em rádio, eu sempre frequentei seus locais de trabalho. Quando criança já cantava, depois fui locutor, discotecário, apresentador (quando jovem) e quando me decidi pelo desenho, tentei uma vaga no jornal Folha de São Paulo. Como não consegui na ocasião, inscrevi-me como repórter policial. Passei no teste e fui repórter por uns cinco anos. Só em seguida é que pude me dedicar ao desenho.

Sincodiv Online: Em 1959, você começou com os quadrinhos no jornal Folha da Manhã. Como foi essa transição e quais foram as inspirações para a criação dos primeiros personagens (Bidu e Franjinha)?

Mauricio: Comecei com tirinhas, no jornal. E ia buscar na família, nas minhas experiências de vida (de criança) inspiração para as primeiras histórias. O Franjinha era um sobrinho. O Bidu, mais ou menos o que eu me lembrava de um cachorrinho da infância. Depois vieram Cebolinha (baseado num garoto de Mogi das Cruzes), o Cascão (idem), Mônica, Magali, Maria Cebolinha (filhas)... e assim por diante.

Sincodiv Online: No ano de 1970 surgiu a Turma da Mônica. O que mudou nas características dos quadrinhos e de suas personagens, tendo em vista que as pessoas que liam gibis na década de 70 viviam momentos bem diferentes dos vividos nos anos 90 e agora em 2000?

Mauricio: Mudam as ferramentas. Não mudam as necessidades. Ou seja, as mesmas histórias de antigamente, com uma nova linguagem, funcionam do mesmo jeito. Principalmente no caso da nossa produção, que privilegia histórias onde as emoções básicas são o mais importante. Basta que você fale (pelos personagens) com a linguagem do dia, da hora, e estaremos em consonância com o tempo.

Sincodiv Online: Por que depois de tantos anos você lançou a Turma da Mônica Jovem?

Mauricio: Era uma ideia antiga nossa que acabou acontecendo em 2008 quando vi que muitos leitores de 13, 14, 15 anos estavam trocando a leitura de meus personagens pelos personagens do mangá (quadrinho ao estilo japonês). Percebi que havia essa tendência e preparei a Turma da Mônica para crescer, com 15 anos em média. Funcionou tão bem que a tiragem do primeiro número foi quintuplicada no primeiro mês.

Sincodiv Online: A Magali e a Mônica são bem diferentes nas suas atitudes; a Mônica é nervosa e agressiva, já a Magali está sempre feliz. Existe algum motivo especial para personalidades tão distintas? Havia algum propósito para apresentar ‘meninas’ com essas posturas?

Mauricio: Claro que havia – minhas filhas. A Mônica tinha pavio curto e caminhava com aquele coelho pela casa. A Magali come de tudo até hoje e não engorda. Para uma mulher, isso é a felicidade.

Sincodiv Online: Existem duas histórias do Chico Bento que são muito particulares, “Uma estrelinha chamada Mariana” e “O presente de uma estrelinha” que abordam os temas morte e ressurreição. Por que decidiu tratar desses assuntos?

Mauricio: Toda criança vive num mundo onde a vida e a morte sempre estarão muito próximas. O cuidado que devemos ter, nas narrativas, é com a forma. Com a maneira de contarmos a história. Que deve ser respeitosa, calma e, de preferência, com mensagens positivas.

Sincodiv Online: Na década de 80 aconteceu a chegada dos desenhos animados japoneses no Brasil. O fato fez com que acrescentasse algo nas suas criações?

Mauricio: Na parte de publicações, não houve perda de leitores. Na área de animação eu tinha problemas de custos e nunca consegui uma grande produção. Só recentemente consegui montar um esquema de maior produtividade. Isso não só ajudou a termos constância no CartoonNetwork, como na empreitada de um programa semanal na TV Globo. Também é ponto básico para que consigamos mais espaço no mercado internacional.

Sincodiv Online: Partindo para outra vertente, quais os desafios que encontrou ao passar para a posição de empresário?

Mauricio: Não me considero um empresário tradicional. Eu diria que administro minha atividade com o conhecimento que tenho dela.

Sincodiv Online: Em entrevista ao “O Estado de S.Paulo” (28 de junho de 2010) você contou que quer acelerar a internacionalização da marca. O que está sendo feito para que esses objetivos sejam atingidos?

Mauricio: Como disse, a produção de animações, para ganhar espaço nas TVs do mundo todo é essencial para enfrentar a concorrência. Hoje, estamos em cerca de 50 países, publicando nossos personagens ou com animações na TV.

Nosso personagem de maior sucesso internacional tem sido o Ronaldinho Gaúcho por tratar de futebol, que é um diferencial importante diante dos outros. Aí entramos em seguida com a Turma da Mônica. O Chico Bento também tem uma aceitação grande em diversos países. Assim vamos ampliando nossas publicações em livros e revistas passo a passo.

Sincodiv Online: De 1º de maio a 31 de outubro de 2010 aconteceu o Expo Xangai e no seu Twitter havia fotos e comentários positivos sobre o evento e sua participação nele tem sido constante. O que o evento representou para você?

Mauricio: Essas exposições são bastante produtivas para prospecção e mercado. Em nosso caso foi ainda mais importante, pois temos grandes projetos com a China em andamento e que precisam de apoio também de autoridades brasileiras para irem adiante.

A Turma da Mônica foi escolhida pelo governo chinês para um projeto de alfabetização de mais de 180 milhões de crianças daquele país, algo inusitado em termos de mercado mundial para o Brasil.

Sincodiv Online: O público leitor do nosso portal é formado por muitos empreendedores que estão à frente de empresas familiares. Sendo assim, nos conte como tem sido a sua experiência.

Mauricio: Recentemente, contratei uma empresa especializada para cuidar do projeto de sucessão. Principalmente porque tenho muitos filhos e parentes trabalhando no estúdio. Naturalmente, a empresa deve ter uma meta a longo prazo que não deve ser prejudicada pela falta de um ou outro "sócio fundador".

Pelas características do nosso negócio, penso que teremos sucesso na perpetuação das nossas marcas. Temos dispendido muito esforço para isso. Com bons resultados até agora. Afinal, não é muito comum encontrarmos empresas saudáveis e em crescimento após mais de meio século de atividade.

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação
Thieny Moltini e Juliana de Moraes