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Seção Entrevista
27/04/2010 - 17:13:45
Entrevista com David Uip, médico infectologista diretor do Instituto Emílio Ribas
Por David Uip
Foto: A. Freire 'Aqui no Brasil, a gripe pelo vírus H1N1 deve ter uma boa linha de corte em relação a 2009, principa

David Everson Uip, um dos nomes mais conhecidos e importantes do país quando o assunto são as doenças infectocontagiosas, é médico pela Faculdade de Medicina da Fundação Universitária do ABC, fez mestrado e doutorado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela USP (Universidade de São Paulo).

 

Atual diretor Técnico de Departamento de Saúde do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Uip tem a importante missão de transformar o hospital referência nacional no atendimento de doenças infectocontagiosas, com 130 anos de história, no maior centro mundial para o diagnóstico, tratamento e a prevenção de doenças infectocontagiosas.

 

Em entrevista exclusiva ao Sincodiv Online (www.sincodiv.org.br), o doutor fala sobre este grande desafio, além de gripe suína (a influenza A, pelo vírus H1N1), Dengue e Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, na sigla em inglês), enfatizando que a prevenção, seja por meio de vacinas, seja por mudanças de hábitos, ainda é o melhor “remédio” para todos os males.

 

Sincodiv Online: Em 2010, pouco se viu na imprensa sobre a “temporada de inverno” da gripe suína, do vírus H1N1, nos países do hemisfério norte. Aqui, estamos em plena campanha de vacinação. Qual sua expectativa em relação ao desenvolvimento da doença com a proximidade da estação de frio?

 

David Uip: Nos Estados Unidos, o número de internados pela doença neste inverno foi 30% maior do que na mesma época do ano anterior e o número de mortos pela gripe já ultrapassou de 13.000 pessoas. Portanto, trata-se de uma doença mórbida e que tem letalidade.

 

Aqui no Brasil, a gripe pelo vírus H1N1 deve ter uma boa linha de corte em relação ao ano passado, principalmente se a campanha de vacinação for bem entendida, compreendida e utilizada pela população.

 

O segundo ponto é que a estação de inverno do ano passado nos pegou em cheio, então muita gente teve contato com o vírus e produziu anticorpos. Esse número “n” que não sabemos qual é, equivale a um número de indivíduos que não desenvolverá a doença. Então, se você somar a população imunizada por vacina e a imunização natural, de quem já teve contato com o vírus, nós teremos um grupo relevante de pessoas protegidas.

 

Assim, espera-se que neste ano o impacto da gripe seja menor, embora não se possa estimar, em número, o quão minorado deve ser o total de infectados e de óbitos, que chegaram a 1.500 no país em 2009.

 

Sincodiv Online: Porque a doença atingiu tantos jovens, que, em princípio, não fazem parte dos grupos de maior risco?

 

David Uip: Esse é um equívoco conceitual. Esta lógica se refere a epidemias, doenças de caráter transitório que atacam simultaneamente um grande número de indivíduos em uma determinada localidade. Quando se há pandemias (enfermidades epidêmicas amplamente disseminadas), que envolvem o contágio por vírus novos, não há diferenciação entre os grupos de populações. Ninguém conta com um sistema de defesa que identifica o vírus e, portanto, todos ficamos vulneráveis. O que ocorre: quem mais será atingido é quem mais está exposto. Quem sai mais é o jovem, quem viaja mais é jovem, por isso esse grupo foi mais atingido e contaminado pelo vírus da gripe H1N1.

 

Sincodiv Online: Na área de Infectologia surgiu, há relativamente pouco tempo, uma nova modalidade de estudo, que é a da Medicina do Viajante. Pode explicar do que se trata essa área e sua importância para a sociedade globalizada?

 

David Uip: É uma especialidade muito interessante dentro da área de doenças infecciosas, que atende a uma mudança no comportamento humano, quanto à velocidade de deslocamento das pessoas. Antes, a maioria das pessoas demorava cerca de 30 dias para vir da Europa à América. Hoje, isso ocorre em cerca de 12 horas.

 

A Medicina do Viajante se transformou em uma disciplina da Medicina há cerca de 10 anos. Os estudos já existem há muito tempo, mas apenas mais recentemente se sistematizou as informações.

 

Ela atua de duas formas. A primeira é voltada para o indivíduo. Se você, por exemplo, for viajar para a África, recebe orientações do médico sobre o que deve fazer para evitar doenças, quais cuidados, quais vacinas.

 

Bom, não precisa nem ir para a África, basta precisar viajar para o interior do Brasil e esse tipo de suporte já se faz necessário.

 

A outra forma de aplicação do conhecimento é muito mais corporativa. No caso de uma empresa que vai se instalar em outro país, o profissional da Medicina do Viajante vai orientar sobre como a corporação deve instalar seus profissionais, o que fazer com seus executivos, com os familiares dos executivos. A Medicina do Viajante aponta qual o melhor lugar para a instalação das pessoas. Essa especialidade tem a competência de orientar. E, mais, ela constitui uma rede mundial de troca de informações.

 

Sincodiv Online: Entre os grupos de populações o sistema imunológico das pessoas é diferente? Por exemplo, em regiões do hemisfério norte e tropicais existem respostas diferentes das populações aos vírus?

 

David Uip: Isso é muito particularizado e envolve o conhecimento do sistema imunológico das pessoas. Se você entra em contato com uma população indígena que tem pouco contato social, ela vai ter características muito diferentes dos grupos que tem uma vida metropolitana.

 

A vida urbana é diferente da rural e você pode ter fatores ambientais e étnicos que diferem as populações. Não necessariamente é preciso comparar as pessoas do Brasil com as dos Estados Unidos. Se você comparar a população de Nova Iorque com a de São Paulo, provavelmente não há diferenças porque são grupos que vivem em grandes aglomerados, habituados ao contato com muitas pessoas (e vírus).

 

Sincodiv Online: As diferenças entre os sistemas imunológicos das pessoas podem traçar um caminho para a cura de algumas doenças?

 

David Uip: O “truque” é o sistema imune. Você sempre passa por ele. O agente causal (agressor) tem uma participação pontual. A integração “agente agressor e hospedeiro” é uma das coisas que mais se estuda em doenças infecciosas para que se alcance a solução para doenças.

 

Sincodiv Online: Vacinas e antivirais. Quais os mitos e verdades sobre esses medicamentos preventivos e de combate aos vírus?

 

David Uip: Esses medicamentos oferecem os mesmos riscos previstos pelo uso de outros, mas que são perfeitamente controláveis por quem tem experiência. De qualquer forma, a administração de vacinas e antivirais deve ser feita por médicos.

 

No ultimo ano, o governo proibiu a comercialização do antiviral para o tratamento da gripe pelo vírus H1N1 nas farmácias, para evitar que o uso do medicamento fosse desmedido e descontrolado. Portanto, não existem mitos, mas cuidados que devem ser tomados na administração desses produtos, como de quaisquer outros medicamentos. Eles têm efeitos adversos, mas certamente menos importantes do que as doenças.

 

Sincodiv Online: Em relação à Dengue, como estão caminhando os estudos para o desenvolvimento de uma vacina e medicações para amenizar o impacto da doença? Há anos são feitas campanhas para a prevenção da doença. Acredita que outras medidas de conscientização seriam necessárias?

 

David Uip: Toda prevenção e tratamento de doença que envolve, efetivamente, a participação da comunidade, você tem dificuldades para lidar. Ela envolve o planejamento de políticas públicas muito bem elaboradas, mudanças de atitude e é preciso contar com a população. Então, toda decisão acaba por ficar muito terceirizada, dependente de vários fatores.

 

Isso é complicado, pois se as pessoas não cuidam de suas instalações, como verificar se a caixa d’água está tampada e, ao mesmo tempo, não permitem que os agentes sanitários entrem nas suas casas para verificar se há problemas, fica difícil controlar a doença. É por isso que se tem um número cada vez maior de casos de dengue no Brasil.

 

A vacina está sendo estudada e é muito esperada. Como no caso de outras doenças, é o único caminho para sanar o problema, mas ainda não tem prazo para ser liberada. Os números divulgados recentemente na imprensa, sobre prazo médio de três anos para que a vacina contra a dengue seja lançada, são pouco precisos. Não podemos contar com isso.

 

Por enquanto: conscientizar, conscientizar e conscientizar sobre a prevenção é a solução.

 

Sincodiv Online: A respeito dos projetos profissionais que coordena, pode nos falar um pouco sobre o trabalho que está desenvolvendo atualmente em Angola, na África?

 

David Uip: Eu coordeno um grupo que assessora o governo de Angola na luta contra a Aids e endemias (doenças infecciosas que ocorrem habitualmente e com incidência significativa em dada população e/ou região).

 

Já alcançamos resultados interessantes. Trabalhamos muito forte na área de HIV (Aids), Biossegurança e agora estamos entrando em hepatites, sexo seguro e tuberculose. Hoje há mais de 30 pessoas, entre médicos, biomédicos e enfermeiros que trabalham comigo neste projeto, que é extremamente adequado, oportuno e que já completou oito anos.

 

Na Angola, o problema da infecção por Aids é bem menor do que em outros países da África por conta da guerra, que restringiu muito o vai-e-vem de pessoas. Agora que acabaram os conflitos de guerra e as fronteiras estão abertas, há uma enorme preocupação de pessoas que visitam outros países e venham a trazer doenças.

 

A principal vitória que alcançamos neste trabalho desenvolvido junto ao governo angolano foi a redução da transmissão da Aids de mãe para filho (manterno-fetal). Na média, a transmissão, nestes casos, gira em torno de 30% a 50% no continente africano. E, nos seis hospitais em que estamos atuando muito fortemente esse número gira em torno de 1,3%. É algo espetacular!

 

Sincodiv Online: Em 2009, quando assumiu a diretoria do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a Secretaria da Saúde de SP fechou uma parceria com a USP para transformar o hospital no maior centro de diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças infectocontagiosas do mundo. O que foi feito neste sentido até agora? Quais os principais desafios?

 

David Uip: Na verdade, fui para lá com esse foco. O primeiro passo foi a assinatura do convênio com o Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina e Fundação Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Tratava-se de algo desejado há mais de 40 anos. Isso, nós conseguimos.

 

A segunda missão que tenho me foi passada pelo secretário de estado na área da Saúde e é a de transformar o Emílio Ribas em um hospital centro de referência, modelo para o Brasil e para o mundo. Coincidentemente, neste mês eu estive em uma reunião com o secretário e ele aprovou todos os investimentos que eu preciso para começar a fazer as coisas andarem. Então, temos um planejamento estratégico muito bem definido e, agora, com a liberação dos recursos, o projeto vai caminhar rapidamente.

 

Dentre os focos das mudanças previstas estão: a transformação do Emílio Ribas em um hospital terciário de doenças infecciosas, que tenha competência para tratar as pessoas com doenças complexas, relacionadas a doenças infecciosas. O segundo é, como se quer que aconteça em qualquer lugar, a promoção de uma assistência bem feita à população. E, finalmente, integrar o ensino e a pesquisa. São os três pilares que tenho em minha gestão.

 

O hospital tem 130 anos. Minha administração começou há apenas um. Mas, sou rápido. O Emílio Ribas é muito interessante. Inspirador. Apesar disso, precisa de mudanças, tanto em Recursos Humanos, como na gestão como um todo. Estamos caminhando rapidamente para isso seja conseguido.

 

Dentro de um ano não sei se o Emílio Ribas será o maior centro para tratamento de doenças infectocontagiosas, mas já estará muito diferente do que é hoje.

 

Sincodiv Online: Um ano é um prazo ambicioso.

 

David Uip: Eu durmo pouco (risos). O convênio com a faculdade, unindo o conhecimento acadêmico com a prática, é muito oportuno para o desenvolvimento de pesquisas, seja para o tratamento de doenças, como para as vacinas. O Emílio Ribas é um hospital universitário. E, como tal ele deve e vai se “comportar”.

 

Sincodiv Online: Modelo para a OMS (Organização Mundial da Saúde), o programa paulista de combate à Aids do Emílio Ribas reúne números importantes. O desenvolvimento da doença no país estacionou? Quais os grupos populacionais em que mais há registro da infecção atualmente?

 

David Uip: O Brasil tem um programa de distribuição de medicamentos que é invejável. É muito bom. Do ponto de vista de prevenção, acho que o mundo, não só o Brasil, ainda pena para descobrir como fazer. Você mexe em uma coisa dramática, que é o comportamento individual. É difícil. De qualquer forma, é uma doença, que, hoje, está sendo muito bem conduzida, embora vejamos que o obstáculo maior é interferir no comportamento das pessoas.

 

Os grupos mais atingidos são os mesmos: mulheres (pela relação sexual com homens), homens que têm relações com homens, a contaminação materno-fetal e também pelo uso de drogas intravenosas. O número de pessoas contaminadas é impossível saber precisamente porque só há o registro daqueles que têm o diagnóstico confirmado ou estão em tratamento, mas estimo que mais de um milhão de pessoas no Brasil devem ser portadoras do vírus HIV.

 

Sincodiv Online: E quanto às divulgações recentes, em rede nacional, enfocando a questão da contaminação pela doença entre pessoas com mais de 60 anos?

 

David Uip:A recente campanha, que discute a doença entre os idosos é pontual e para alertar sobre um grupo antes menos vulnerável, mas que passou a ficar mais exposto à contaminação pelo vírus devido a mudanças de hábitos.

 

Percebeu-se que com as drogas que resolvem a disfunção erétil, os mais velhos permanecem com a vida sexual ativa por muito mais tempo, só que sem o hábito do uso de preservativos, porque nunca fez parte do contexto deste grupo.

 

Sincodiv Online: Ainda sobre a Aids, é verdade que existem indivíduos resistentes ao vírus HIV? Qual a característica que diferencia essas pessoas do restante da população?

 

David Uip: Têm indivíduos que se infectam e desenvolvem a doença rapidamente, há os que se infectam e levam até 15 anos para começar a desenvolver os primeiros sintomas e também existem aqueles que ficam expostos e não se contaminam.

 

Neste último grupo, são duas as populações bem conhecidas que contam com a característica. A de prostitutas de Nairóbi, capital do Quênia, na África, e outra população de caucasianos (na região oriental da Europa) quem têm uma diferença genética que faz com que não se infectem. No caso deles, o vírus HIV não consegue entrar nas células e, por isso, essas pessoas estão imunes à doença.

 

Sincodiv Online: Como estão caminhando os estudos para o desenvolvimento de uma vacina para a Aids?

 

David Uip: Estudar esses grupos imunes ao vírus HIV é uma forma de conhecimento e pode ser um dos caminhos para se encontrar a vacina. Você tem, no exemplo deles, uma característica que deu certo no combate ao vírus, então a partir disso se procura desenvolver um medicamento que reproduza a ação ou possibilite algo ainda melhor, mas não é simples.

 

Existem vários grupos de vírus e é preciso que eles todos estejam no composto da vacina, por isso ela é muito difícil de ser produzida. Ainda assim, será preciso testar em milhares de pessoas soronegativas e soropositivas para o vírus HIV.

 

Há uma série de convicções que precisam ser afirmadas antes de se lançar o medicamento no mercado. No momento, não há perspectiva de vacina preventiva ou terapêutica para a Aids no médio prazo.

 

Em menos de cinco anos, não se pode esperar nada, por isso, os cuidados para a prevenção desta doença ainda são o único e melhor “remédio”!

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação
Juliana de Moraes e Renan De Simone