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Seção Entrevista
28/06/2011 - 10:47:06
Bate-papo com Lakhi Daswani, indiano radicado no Brasil e proprietário do tradicional restaurante Tandoor, em SP
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Foto: A. Freire Lakhi Daswani comanda o restaurante indiano Tandoor há 18 anos.

 

Empresário, dono do restaurante Tandoor, que existe há 18 anos, e da agência Laxmi Viagens, ambos na capital paulista, Lakhi Daswani é um ícone “paulistano” da cultura indiana e um exemplo de empreendedor. Nascido na Índia, na cidade de Mumbai, descente de uma família de tradição comerciante, Lakhi veio para o Brasil em 1973, quando iniciou seus primeiros negócios no país.

 

De acordo com ele, o Brasil não era seu objetivo quando saiu de Mumbai, mas a terra o cativou tanto que permaneceu por aqui. Especialista na culinária indiana, Lakhi contou ao Sincodiv-SP Online algumas curiosidades sobre sua cultura e fez um paralelo com sua vivência no Brasil, falando de economia, costumes e, é claro, gastronomia. Acompanhe!

 

Sincodiv-SP Online: Por que decidiu sair de seu país e se arriscar em terras “tupiniquins”?

 

Lakhi Daswani: Quem olha para a Índia atualmente tem dificuldades de entender qual era a situação do país décadas atrás. No final dos anos 60, quando sai de lá, a Índia tinha um governo socialista e era obsoleta em praticamente tudo. Sai de lá procurando novas oportunidades de negócios, mas o Brasil não era meu objetivo.

 

Antes de me instalar por aqui, passei por outros países da Europa e cheguei a morar na Guinea Equatorial (país da África Ocidental, vizinho de Camarões), mas era um local muito perigoso. Na década de 60, aquele se tornara um governo independente e o ditador que assumiu o poder estabeleceu uma política com terror, matando milhares de opositores. Eu tinha pouco mais de 19 anos na época e não podia conviver com aquilo.

 

Sincodiv-SP Online: Você se estabeleceu diretamente em São Paulo?

 

Lakhi Daswani: Não! Fui para Manaus, pois já tinha ouvido falar da Zona Franca e, por ser de uma família de tradição comerciante, aquele era um lugar atrativo. Adorei o local pelo clima tropical, pelo calor humano que encontrei e também pelas oportunidades de negócios.

 

Foi ali que introduzi a cultura indiana no país - e foi um boom! Toda segunda-feira chegava um avião jumbo de Paris (França), no qual eu tinha sempre uma tonelada de produtos comprados. Mesmo em grande quantidade, os materiais acabavam antes do final da semana. Assim comecei meus negócios por aqui e só depois vim para São Paulo.

 

Sincodiv-SP Online: O senhor já veio da Índia casado?

 

Lakhi Daswani: Apesar de ter me casado na Índia, eu já morava no Brasil quando Mansha se tornou minha esposa. Numa viagem em visita ao meu país natal, em 1977, meus pais, que eram muito amigos dos pais de minha mulher, sugeriram nosso casamento e eu aceitei. Entre o dia em que conheci Mansha e nosso casamento não se passaram mais do que 15 dias...

 

Sincodiv-SP Online: Para você, que conhece nossa cultura, se compararmos os dois tipos de casamentos, quais são as principais dificuldades e as facilidades?

 

Lakhi Daswani: Eu diria que os primeiros anos são os piores e os melhores. Foi muito difícil aprender a conviver com outra pessoa diariamente sem conhecê-la profundamente, mas o fato de termos nos conhecido há pouco tempo era também combustível para nos esforçarmos.

 

Aqui, eu vejo casais que namoram por anos, depois se casam e se separam antes do segundo ano de matrimônio. O início de um relacionamento se dá quando os parceiros estão mais propensos a agradar um ao outro e na cultura indiana se sabe disso. Existem dificuldades no início, mas são superadas. Nas famílias que possuem este tipo de tradição na Índia (a maioria delas), o índice de divórcio é baixíssimo.

 

Sincodiv-SP Online: A que o senhor atribui fenômenos como esse (do menor índice de separações entre casais)?

 

Lakhi Daswani: Atribuo a uma cultura de sacrifício. Lá o nome da família é mais forte que o da pessoa. Isso faz com que coisas pequenas não abalem os relacionamentos. Além disso, os idosos são muito respeitados. A maioria dos jovens não toma nenhuma atitude sem ter a bênção dos mais velhos.

 

Sincodiv-SP Online: Essa cultura de sacrifício faz parte da economia do país também?

 

Lakhi Daswani: Sim. No ocidente nós descartamos facilmente tudo, pessoas e coisas. Lá não! Usando um exemplo simples, se algo quebra na Índia, mandamos consertar ao invés de comprarmos outro, não importa quão barato seja o objeto. Eu vejo como uma oposição entre ter x ser. Lá as pessoas valem mais em alguns sentidos.

 

Sincodiv-SP Online: A falta dessa visão prejudica o Brasil?

 

Lakhi Daswani: Às vezes eu brinco que Deus deve ser mesmo brasileiro porque, caso contrário, o país já teria falido (risos). Digo isso porque existe muito desperdício nessa cultura. Vocês têm uma natureza que provê muita coisa, tem bastante espaço etc., por isso não estão acostumados a se sacrificar como os indianos. Por questões geográficas, fomos obrigados a aprender a fazer muitas coisas com poucos recursos, investir em ideias e pessoas, e isso é essencial para o crescimento de uma nação.

 

Sincodiv-SP Online: Hoje, fala-se muito do grupo dos novos países emergentes, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Já falamos das diferenças, mas quais seriam as semelhanças entre Brasil e Índia pensando também na economia?

 

Lakhi Daswani: Os países são muito parecidos em diversos aspectos, e por isso se conversam tão bem atualmente. Ambos são amigáveis, com povos calorosos, estão crescendo economicamente e necessitam de investimentos em infraestrutura e modernização. A Índia necessita mais de algumas coisas, enquanto o Brasil demanda outras.

 

Estes dois gigantes já se entenderam. Não são concorrentes e sim parceiros, passaram a ter objetivos comuns. Hoje existe simpatia entre os dois países.

 

Sincodiv-SP Online: Existem mulheres empreendedoras na Índia? Quando se negocia com elas, o que seria bom ou mau tom fazer, pela ótica da cultura brasileira?

 

Lakhi Daswani: Sim, as mulheres têm grande espaço na cultura indiana. A Índia é um dos países mais democráticos do mundo, até mesmo na questão religiosa a mulher é valorizada lá. Pela ótica corporativa, não vejo grandes diferenças e problemas no trato, tanto porque há nesse meio uma certa padronização de profissionalismo no mundo todo. O que posso dizer é que, em relação às vestimentas, por exemplo, as indianas são mais discretas e se expõem menos que as brasileiras.

 

Sincodiv-SP Online: Como dono do restaurante “mais indiano da cidade”, como você o chama, o que poderia nos dizer a respeito da culinária de seu país?

 

Lakhi Daswani: A comida indiana é considerada uma das mais ricas do mundo. Sua mistura de especiarias, temperos e ervas produzem um sabor que desperta a sensibilidade de todas as papilas gustativas da língua, é uma sensação única e vicia, porque faz bem ao corpo.

 

Sincodiv-SP Online: Como assim?

 

Lakhi Daswani: Lá em meados de 1500 a Índia foi invadida pelos imperadores Moghul, conquistadores que dominaram durante muito tempo o país. Entre outras coisas, os imperadores queriam ter uma vida longa e saudável e exigiram que seus súditos encontrassem meios para isso. A solução trazida e aprovada foi uma alimentação balanceada, com diferentes ervas e temperos, com preparo especial que garantiria tal saúde.

 

Dessa forma, a culinária indiana não só é saborosa e desperta sensações, como também “vicia” porque faz bem ao corpo. Cada ingrediente é pensado e tem função específica - desde o alho, que pode ter características antibióticas, até cúrcuma, que aumenta a imunidade do corpo. Cada tempero tem medida certa.

 

Para conseguir extrair todas as propriedades de cada item, é necessário que os produtos estejam frescos e sejam preparados pouco antes de serem consumidos. É dessa forma que são preservados os aromas e torna-se possível imprimir e multiplicar, através da culinária, um pouco da cultura indiana e da filosofia que formam a rica sociedade do meu país.

 

 

 

Produção e revisão:

Moraes & Mahlmeister Comunicação