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Seção Entrevista
30/01/2014 - 11:29:30
Bate-papo com Marilda Lipp, Ph.D em Psicologia e especialista no estudo do stress
Por Pricilla Kury e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire Pós-Doutorada em Stress Social pelo National Institute of Health (EUA), Marilda Lipp é presidente da Associação Brasileira de Stress.

 

Marilda Lipp é psicóloga, diretora e fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress.

Ph.D em Psicologia pela George Washington University e Pós-Doutorada em Stress Social pelo National Institute of Health (EUA), é membro Consultivo da ABQV (Associação Brasileira de Qualidade de Vida) e presidente da ABS (Associação Brasileira de Stress). Pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas (SP), dirige o Laboratório de Estudos Psicofisiológicos do Stress.

Nesta entrevista, a autora de 22 livros no Brasil e criadora de testes reconhecidos para medição do stress, fala sobre a sua trajetória de pesquisadora e explica como o problema enfraquece a saúde de crianças, jovens e adultos das grandes e pequenas cidades.

Sincodiv-SP Online: Conte-nos um pouco sobre sua carreia. Como surgiu o interesse pela Psicologia, mais especificamente pelo tema stress?

Marilda Lipp: Fiz o colegial e o clássico no Imperial Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro.Fui para o exterior em 1965 e lá fiz todo o meu percurso acadêmico universitário, tendo feito graduação na American University. Essa universidade é extremamente orientada para pesquisa. Na época, recebi um prêmio de “jovem pesquisador” outorgado pela Sociedade de Ciências dos EUA.

O mestrado e o PhD, fiz pela George Washington University. Nada, no entanto, comparou-se com a satisfação de ter feito pós-doutorado em stress social no National Institute of Health, com vários cientistas dos EUA, Inglaterra e Rússia, sob a orientação do Dr. David Anderson.

Na American University,tive a sorte de estudar com luminares como Skinner, Charles Ferster e Stanley Weiss. Pesquisadores esses que satisfizeram o meu interesse pelas leis do comportamento, no behaviorismo e nos esquemas de reforço que determinam o aprendizado do normal e do patológico. Na George Washington University, aperfeiçoei meu conhecimento em Psicologia Clínica, mas meu interesse principal sempre foi pesquisa. O interesse pelo trabalho clínico foi um prolongamento da pesquisa.

O que é mais reforçador para mim é estudar os fenômenos psicológicos do ponto de vista experimental. A mente humana me fascina.Desde a época do mestrado, já entendia que, para ter boa atuação clínica, precisaria aprender a fazer pesquisas.

Eu precisava mais do que simplesmente ser uma usuária dos conhecimentos, precisava entender as leis do comportamento do ponto de vista experimental. Tanto que não utilizo, ainda hoje, nenhum procedimento em clínica que não tenha sido cientificamente testado. Gosto de descobrir, criar e testar os métodos e princípios que possam ajudar o ser humano na gama fantástica dos problemas do viver.

Minha motivação pelo stress ocorreu de modo peculiar. Eu trabalhava em uma instituição – Great Oaks Center — com pessoas com deficiência mental de nível profundo. Observava o desespero dos pais e familiares frente às dificuldades decorrentes desse nível de comprometimento. Via o stress em suas vidas, só que não sabia que se tratava do stress. Na mesma época, fiz um curso com Charles Spielberger, autor dos testes de Ansiedade e de Raiva, que me indicou o caminho para o estudo do stress emocional.

Nos livros sobre este tema de autoria do Dr. Spielberger, reconheci que o que aqueles pais de crianças e jovens apresentavam era em grande parte stress. Foi aí que comecei a estudar esse fenômeno. Hoje, tenho 22 livros e dezenas de artigos científicos publicados ou organizados sobre o stress e este passou a ser o principal foco de minhas pesquisas e atuação clínica.

Sincodiv-SP Online: Você é uma das fundadoras do Centro Psicológico de Controle do Stress. Nos fale um pouco sobre este trabalho.

Marilda Lipp: Quando retornei ao Brasil, em 1981, notei que aqui não se conhecia quase nada sobre stress. Muitos desconheciam a palavra e até afirmavam “não temos isso aqui, não!” Porém, eu via claramente que o número de brasileiros com stress era muito alto. Sofriam de stress e davam outro nome ao que sentiam, como “nervosismo”, “piripaque” ou “ataque de nervos”. Por conseguinte, não eram tratados corretamente.

A partir desta percepção, comecei, então, a pensar que havia necessidade urgente de fundar uma organização que esclarecesse ao público e ajudasse as pessoas a identificarem os sintomas de stress a fim de poder preveni-lo ou tratá-lo adequadamente. Passei a dar entrevistas em rádios e TVs, esclarecendo o que era stress.

Em 1985, fundei o Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS), cuja matriz é Campinas (SP), e já possui hoje oito unidades em várias regiões do país, além da matriz. O CPCS já atendeu a mais de 15 mil pessoas desde então, e mais de mil empresas.

Sincodiv-SP Online: Nós costumamos a achar que qualquer preocupação é stress. O que realmente é o stress? Como podemos defini-lo? É uma doença?

Marilda Lipp: Stress não é uma doença. Stress é definido como uma reação do organismo, com componentes físicos e/ou psicológicos, causada pelas alterações que ocorrem quando a pessoa se confronta com uma situação que, de um modo ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo que a faça imensamente feliz.

É importante conceituar o stress como sendo um processo e não uma reação única, pois no momento em que a pessoa é sujeita a uma fonte de stress, um longo processo bioquímico se instala, cujo início se manifesta de modo bastante semelhante com o aparecimento de taquicardia, sudorese excessiva, tensão muscular, boca seca e a sensação de estar de alerta.

Mais adiante, no desenvolvimento do processo do stress, diferenças se manifestam de acordo com as predisposições genéticas dos indivíduos e potencializadas pelo enfraquecimento desenvolvido no decorrer da vida devido a acidentes ou doenças.

Sincodiv-SP Online: Quais são os principais fatores, atualmente, que influenciam no desenvolvimento do stress nas pessoas?

Marilda Lipp: O que estressa o ser humano se divide em dois tipos de fatores: os internos e os externos. Chamo de estressor interno aquele que está ligado ao próprio modo da pessoa ser, o seu modo de interpretar o mundo ao seu redor, e seu comportamento. Deste modo, as pressões que as pessoas se colocam, seu negativismo, perfeccionismo, pressa constante, autoexigências, tudo isto pode criar um nível considerável de stress!

Já os estressores externos, são aqueles que não dependem tanto da própria maneira de ser de cada um. Podem ser de natureza financeira, ocupacional ou ligados aos relacionamentos interpessoais. Entre os estressores externos se enquadram demissões, perda de pessoas queridas, doenças, entre outros.

Sincodiv-SP Online: Existe um perfil mais suscetível ao desenvolvimento dos sintomas? Idade, por exemplo? Há diferenciação entre mulheres e homens, ou a proporção é equilibrada?

Marilda Lipp: Todos, independentemente de idade, sexo ou profissão, estão sujeitos ao stress. Porém, há algumas pessoas que são mais vulneráveis. Isto pode ocorrer ou por questões genéticas ou devido ao modo como foram criadas.

Geneticamente, há pessoas que são mais sensíveis a mudanças, que sentem mais raiva, que são mais ansiosas e, por isso, se estressam com maior facilidade. Há ainda pessoas que não tem um fator genético envolvido, mas que aprenderam durante sua vida a serem mais ansiosas, apressadas ou negativistas. Essas são mais vulneráveis ao stress.

Quanto à questão de gênero, nossas pesquisas indicam que o sexo feminino é, de fato, mais sujeito ao stress. A proporção é de dois para um, o que quer dizer que ser mulher é fator de risco pra o stress.

Sincodiv-SP Online: É possível quantificarmos qual a porcentagem da população brasileira que sofre de stress?

Marilda Lipp: Sim, existem testes psicológicos que permitem o diagnóstico do stress. As pesquisas do CPCS indicam que 35% dos brasileiros têm stress. Fato este confirmado pela aplicação de testes em 2010. Já em 2013, a pesquisa do CPCS pela internet revelou que 51% dos 2.500 respondentes diziam ter stress.

Sincodiv-SP Online: De alguma forma, o meio ambiente em que vivemos influencia no desenvolvimento dos sintomas?

Marilda Lipp: Sim! A sociedade da qual a pessoa faz parte determina, em grande percentagem, o nível de stress do povo pelas exigências, valores de expectativas que mantêm. Do mesmo modo que a família ou a empresa onde se trabalha podem também influenciar muito o nível de stress do ser humano.

Sincodiv-SP Online: É possível afirmarmos que pessoas que trabalham e moram em grandes centros, como São Paulo, por exemplo, têm predisposição maior para o desenvolvimento do stress?

Marilda Lipp: Sem dúvida, uma cidade grande oferece maiores conflitos e estressores. Mas, nossas pesquisas indicam que mesmo em cidades pequenas o stress pode ser muito pronunciado. O que muda é o que gera stress.

Na cidade grande, por exemplo, pode ser o trânsito, enquanto que na área rural pode ser a falta de chuva.

 

 

Leia a segunda e última parte do Bate-papo com Marilda Lipp, Ph.D em Psicologia e especialista no estudo do stress

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação