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Seção Entrevista
13/03/2014 - 13:14:22
Bate-papo com Regina Madalozzo, economista especializada em Economia do Gênero - PARTE II
Por Juliana de Moraes e Leonardo Oliveira
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire "A principal dificuldade para a evolução da mulher em cargo de liderança consiste no intervalo de manobra para o erro, que é muito menor para ela. Está comprovado que uma ação feita por uma mulher tem diferentes efeitos do que a mesma ação feita por um ho

 

Sincodiv Online: Em contraposição à pergunta anterior, as mulheres estão à frente de 52% das novas empresas – com menos de 3,5 anos – no Brasil, segundo uma Pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor. Na sua visão, quais são as principais razões para o crescimento de mulheres empreendedoras no país?

Regina Madalozzo: Uma mulher é bem qualificada, porém sua ascensão profissional na organização não acontece da forma que ela deseja. Portanto, qual é a alternativa? Abrir a própria empresa.

A disponibilidade também ajuda, pois você é o dono do negócio. É melhor para a mulher investir toda sua dedicação na própria empresa do que se dedicar para algo que ela não sabe se será bem sucedida ou que tem consciência da maior dificuldade de ascender do que seus colegas homens. Muitas vezes ela á mais valorizada no mercado pelo fato de ter aberto o próprio negócio.

As mulheres também têm a capacidade de enxergar boas oportunidades de mercado. Por exemplo, uma mãe de um filho pequeno percebe que faltam escolas de boa qualidade em tempo integral. Está aí uma oportunidade.

Os negócios que as mulheres abrem estão muito relacionados com o dia a dia delas.  Elas conhecem o produto que querem vender.

Sincodiv Online: Você acredita que é possível termos uma igualdade entre os sexos no mundo corporativo, ou algo próximo a isso?

Regina Madalozzo: Acho que é possível. Só não sei quando acontecerá.

Acredito que a igualdade entre gêneros deveria ser um objetivo primordial das empresas e da sociedade em geral. As pessoas precisam ser tratadas de forma semelhante e com respeito independente de gênero, cor, opção sexual, etc.

Sincodiv Online: Quais são benefícios que a interação entre homens e mulheres traz para as organizações?

Regina Madalozzo: Homens e mulheres são expostos a experiências e cobranças diferentes desde a infância e com isso construíram habilidades diferentes, como disse anteriormente. A interação entre os gêneros traz maior lucratividade e resultados mais inovadores para as organizações por conta de suas características complementares.

Sincodiv Online: Como professora universitária você está em contato com jovens da geração Y diariamente. Como eles enxergam a questão da desigualdade/igualdade entre os sexos?

Regina Madalozzo: A maioria acha que não existe (uma desigualdade), embora os jovens se tratem de maneira diferente. Faz 12 anos que sou professora do Insper e não percebo evolução no tratamento de igualdade entre homens e mulheres.

O que está mais acentuado é o fato de que os atuais universitários acreditam que não existe nenhum tipo de desigualdade. Para eles – ou a grande maioria deles -, o mercado de trabalho já está totalmente igualitário.

A geração mais jovem realmente pensa que as pessoas são tratadas todas da mesma maneira. Sabemos que não existe, muitas vezes, a intenção de tratar homens e mulheres de uma maneira diferente, mas inconscientemente tratamos.

Sincodiv Online: Quais são as principais reivindicações e demandas das jovens universitárias em relação ao tema?

Regina Madalozzo: Vejo algumas (jovens) que percebem que podem ter problemas no futuro com relação ao fato delas serem mulheres. Percebo alguns homens preocupados também.

No semestre passado, ministrei um curso extracurricular sobre gênero e os homens que estavam lá queriam saber como se comportar diante de uma líder mulher. É uma dúvida sadia e importante. No entanto, a maior parte não percebeu que existe um problema na própria questão: por que seria diferente ter uma líder mulher?

As universitárias que perceberam buscam jeitos de não se masculinizarem, mas ao mesmo tempo não colocarem em primeiro lugar sua característica de ser “mulher”, pois isso poderia ser um problema. Algumas se preocupam com a forma  como a sociedade enxerga mulher e já percebem a sutileza do que enfrentarão mais adiante em suas carreiras.

Sincodiv Online: Em sua opinião, a forma como os CEOs brasileiros lidam com a paridade de gêneros precisa ser atualizada?

Regina Madalozzo: Existem mais CEOs de empresas multinacionais preocupados com o tema do que os CEOs de organizações com sede no Brasil. É como se a mentalidade de que não existe um problema fosse mais arrigada em nosso país.

Fora do Brasil, o tema está mais quente e as empresas estão preocupadas há mais tempo. A pessoa mais importante para tornar a empresa justa com relação ao tratamento entre os gêneros é o presidente. Ele é o único dentro da organização que tem poder para isso.

Sincodiv Online: De acordo com um estudo da Fundação Oppenheimer, ligada à educação, só 16% das mulheres norte-americanas praticam esportes competitivos, mas no universo de executivas bem-sucedidas esse percentual sobe para 55%. Você saberia dizer quais são os fatores que explicam esses números? Qual é a importância do esporte para o desenvolvimento profissional?

Regina Madalozzo: Esse fator está muito relacionado com competição. Alguns estudos mostram que mulheres com o mesmo nível de capacidade intelectual do que homens se comportam de maneira diferente quando estão em competição.

Quando você coloca uma mulher para competir, ela geralmente piora o rendimento anterior dela (sem competição) e com os homens acontece exatamente ao contrário! Competição ainda é um problema para boa parte das mulheres, portanto, aquelas que praticam esportes desde cedo conseguem se portar melhor diante de um ambiente extremamente competitivo.

Mulheres bem-sucedidas em suas carreiras geralmente tiveram comportamentos que exigiram mais competição.

Sincodiv Online: Na sua visão, os homens estão mais preocupados em se dedicar mais a atividades relacionadas à família?

Regina Madalozzo: Os homens de hoje em dia querem aproveitar mais os filhos e a família do que as gerações anteriores. Os jovens olham para os pais deles e dizem “poxa, ele não aproveitou nada comigo”.

Vejo os homens com uma preocupação maior com relação ao seu lugar na família, mas ainda é complicado identificarmos, com precisão, qual é o papel do homem dentro da família. O que é esperado deles?

Ainda não entendemos muito bem. Estamos vivendo uma era de muita insegurança também para os homens. Acho difícil encontrarmos um pai não deseja passar mais tempo com o filho pequeno... Os homens de hoje em dia têm uma preocupação muito grande em dividir melhor o tempo, daí um motivo a mais para que as pessoas – de maneira geral – repensem a importância de uma igualdade maior do tratamento na sociedade.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação