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Seção Entrevista
13/03/2014 - 13:03:19
Bate-papo com Regina Madalozzo, economista especializada em Economia do Gênero
Por Juliana de Moraes e Leonardo Oliveira
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire Regina Madalozzo é Ph.D. em Economia pela University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA). Como professora associada do Insper, dedica-se a pesquisas sobre economia do trabalho (diferença e compensação salarial) e da família.

 

Para marcar a importância do Dia Internacional da Mulher (08/03) para toda a sociedade – e, em especial para o setor de concessionárias de veículos do estado de São Paulo, o Sincodiv-SP Online conversou com a professora do Insper e economista especializada em Economia do Gênero, Regina Madalozzo. 

Nesta entrevista exclusiva, Regina falou sobre a evolução, desafios, a situação atual das profissionais e suas contribuições ao mercado de trabalho brasileiro. Segundo ela, a sociedade ainda apresenta dificuldade em aceitar com naturalidade uma liderança feminina, portanto a oportunidade para evoluirmos está diante de todos nós.

Confira, abaixo, a íntegra desta conversa:

Sincodiv Online: Conte-nos um pouco sobre sua carreia. Como surgiu seu interesse pela Economia do Gênero?

Regina Madalozzo: Sou formada em Economia pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), fiz mestrado na área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e sou Ph.D. em Economia pela University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA).

Sempre tive um pouco de dificuldade para saber exatamente qual seria minha especialização na área. Por afinidade com alguns professores, comecei a estudar temas ligados a microdados e passei a ter acesso a muitos números relacionados à família. Com isso, percebi que havia uma diferença persistente entre os salários de homens e mulheres. Esse foi gancho para eu me aprofundar nos aspectos relacionados à posição e atuação da mulher no mercado de trabalho.

Sincodiv Online: Segundo pesquisa da consultoria Bain and Company, das 250 maiores empresas do Brasil, apenas 4% têm uma mulher no comando. Na sua visão, quais são os fatores que levam a esse número?

Regina Madalozzo: O primeiro fator está relacionado com o ambiente social, pois ainda é bastante complicado as pessoas aceitarem com naturalidade uma liderança feminina. Por mais que as mulheres sejam muito competentes e estudem, em média, mais do que os homens, parece existir um teto na ascensão profissional delas.

A taxa de promoção de mulheres que estão na Gerência Sênior para a Diretoria Júnior é muito mais baixa que a de homens na mesma situação na maior parte das empresas. Além disso, ainda existe nas organizações um desconhecimento da melhor maneira de lidar com a mulher que está em um cargo de liderança.

O que se espera de uma executiva como líder é a personificação de mulher que a sociedade tem como ideal. Porém, se ela se comportar dessa forma, ela não consegue subir, pois a carreira dessa profissional exige que ela seja, por exemplo, mais agressiva. Mas, ao mesmo tempo, se ela se mostrar demasiadamente agressiva vai causar um estranhamento, pois isso não está contido no “ideal” feminino. Portanto, a mulher causa um “desconforto” ao se comportar das duas formas.

Não fomos socialmente educados para ver uma mulher em um cargo de liderança. Além disso, o fato da responsabilidade familiar ainda é ser muito grande para mulher também atrapalha na ascensão profissional.

Sincodiv Online: Outro estudo realizado pela Accenture revelou que 70% dos entrevistados acredita que o número de mulheres no comando e na alta cúpula das empresas aumentará até 2020. Você concorda com essa perspectiva otimista?

Regina Madalozzo: É esperado um aumento, pois as empresas estão discutindo a questão.  É natural que as organizações tomem ações e medidas que aumentem a participação de mulheres em cargos de destaque. No entanto, é muito difícil estimar o quanto vai aumentar, pois isso depende de diversos fatores. Um deles é o estabelecimento de condições mais propícias para a promoção de mulheres a níveis de liderança.

Sincodiv Online: Ana Paula Chagas, sócia da empresa de recrutamento da 2Get Executive Search, afirmou, em entrevista no portal Terra, que as mulheres estão sendo cada vez mais procuradas para exercer cargos de liderança, porém (segundo ela) muitas hesitam em assumir cargos de destaque. Na sua visão, por que isso acontece?

Regina Madalozzo: A maneira que o trabalho da liderança está formatado hoje em dia exige uma dedicação de 24 horas por dia, sete dias por semana. Não parece ser possível você conciliar diversas facetas de uma vida (pessoal, profissional, etc) com essas condições.  Assumir uma posição que demande todo esse tempo é muito mais fácil para um homem sem família ou para um homem que tenha o suporte de outra pessoa para lidar com todas as outras partes de sua vida que não sejam diretamente ligadas ao trabalho.

Fatores como eficiência e produtividade não estão relacionados diretamente com uma dedicação integral e irrestrita de um trabalhador. Acredito que a forma de trabalho tem que mudar e isso não se restringe apenas à mulher. A nova geração não está disposta a fazer algumas concessões feitas por gerações anteriores. Está certo não abrir mão de uma vida pessoal para se dedicar 100% ao trabalho! É preciso que haja uma adaptação por parte das empresas a este novo cenário.

Vale acrescentar que os cargos de liderança ainda são muito arriscados para mulheres. O risco vem desde a dificuldade maior que elas têm para ascender a esses cargos, como também o julgamento constante pelo qual ela passará. Sim, os líderes são julgados e analisados o tempo todo, mas as líderes mulheres têm uma vigilância sobre seu comportamento e ações acima do que seus parceiros homens. O posicionamento que uma líder mulher assume tem uma cobrança que vai além do cargo e da empresa, pois ainda existe uma “bandeira” por trás disso.

Sincodiv Online: Conforme sugere a especialista em RH, quais são os motivos que levam as empresas a procurarem mulheres para exercerem cargos de liderança?

Regina Madalozzo: Uma das principais razões está ligada com a correlação entre mulheres na liderança e medidas de lucratividade das empresas. Estudos comprovam que organizações com mais mulheres na liderança são mais lucrativas, embora não se possa afirmar que são diretamente as mulheres que implicam em maior lucratividade, mas sim as condições que propiciaram essas mulheres assumirem cargos de liderança e que, ao mesmo tempo, implicam em maior retorno para a empresa.

Outro motivo para a maior procura de mulheres consiste no mercado consumidor, pois cerca de 60% das compras de um domicílio são decididas por mulheres. A palavra final, em muitos casos, é da mulher.  Ou seja, como uma empresa conseguirá entender o mercado se a mesma não tem mulheres em cargos de liderança para entender o consumidor?

Sincodiv Online: Existe uma diferença entre os estilos de gestão de homens e mulheres?

Regina Madalozzo: Existe, porém é difícil pontuar. O que eu posso afirmar, com segurança, é que as mulheres, em média, tendem a buscar a opinião dos outros antes de tomar uma decisão e são mais preocupadas em relação ao clima interno. No entanto, não existe um perfil básico que possa ser definido.

As mulheres são mais “multitarefa”, pois isso foi exigido delas desde infância. Por exemplo, mulheres geralmente não respondem que não conseguirão fazer algo que foi solicitado, elas dão um jeito e fazem.

A sociedade como um todo trata meninos e meninas de forma diferente desde que eles são muito pequenos, e tal fator molda alguns tipos de comportamento.

Sincodiv Online: Segundo o Relatório Global sobre Desigualdade de Gênero 2013, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, a disparidade entre os sexos diminuiu no mundo, com avanços registrados em 86 dos 136 países analisados. Contudo, o Brasil não avançou nem caiu no ranking, permanecendo na 62ª posição. Qual é o nível de atraso de nosso país quando falamos em igualdade entre os sexos?

Regina Madalozzo: Estamos tão atrasados quanto o relatório diz! Um dos problemas que será difícil solucionar em relação ao gênero é a falta do reconhecimento de que ainda existe uma desigualdade. É a mesma coisa que a questão de raça. Quem, no Brasil, reconhece que é racista? Não conseguimos perceber que o Brasil é, em linhas gerais, um país racista, homofóbico e machista.

Ainda existe um problema em admitir que a mulher pode ser tão ou melhor que o homem em termos de capacidade intelectual. O primeiro passo para a melhora é o reconhecimento da desigualdade. É preciso saber que existem certas falas que são ofensivas.

O que enfrentamos atualmente é um preconceito de segunda geração, pois ninguém tem coragem de explicitá-lo. Embora tenhamos como presidente do país uma mulher, ainda estamos estagnados em uma posição ruim com relação à igualdade de gênero no Brasil.

 

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Regina Madalozzo, economista especializada em Economia do Gênero, clique aqui!

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação