ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
05/06/2014 - 08:53:36
Bate-papo com Carlos Miguel Aidar, advogado e presidente do São Paulo FC - PARTE II
Por Matheus Medeiros e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire "Não é possível dar o salto de profissionalização do futebol no Brasil de jeito nenhum. Não temos a estrutura política e financeira necessária para isso".

 

Sincodiv-SP Online: O que é mais difícil gerir, a política esportiva ou na área do Direito? Quais são as dificuldade e diferenças, na sua avaliação?

Carlos Aidar: Não dá para comparar. São completamente diferentes. A Ordem é uma entidade institucional que representa a sociedade, que fala pela sociedade. Ela tem um papel político institucional na construção da democracia do país, importantíssimo. Ela é o baluarte da liberdade nesse país e sua relação é com a justiça.

Já o desporto é negócio, sem dúvida, mas é lazer também. O que te move a vir ao estádio assistir um jogo de futebol? Você vem para passar algumas horas de lazer e torcer pelo seu time.

Na OAB, eu defendia o interesse do advogado. Aqui, eu defendo o interesse do sócio na parte social e do torcedor na parte do futebol, que muitas vezes conflitam. O são Paulo é antes de tudo um clube de futebol, mas, às vezes, privilegia a parte social.

A maior dificuldade que existe no futebol, na minha opinião, é administrar as disparidades: você tem jogador que nasce em família muito bem estruturada e tem jogador filho de pai humilde. Você tem jogador que vem com carro importado do ano treinar e jogador que pega duas conduções para jogar no mesmo time. E, quer saber, todos são importantes!

Sincodiv-SP Online: O que mudou no mercado do futebol desde o seu primeiro período como presidente do clube (entre 1984 e 1988)?

Carlos Aidar: Custos. Peguei o São Paulo, há 30 anos, com dívidas de US$ 3 milhões. Eu pego o clube hoje com um fluxo de caixa negativo de R$ 104 milhões, ou (cerca de) US$ 50 milhões. E, lá atrás, deixei com um US$ 1 milhão de caixa e todos os compromissos de curto prazo programados e pagos.

Naquela época, era muito mais fácil de gerir. O clube não era desse tamanho, o sócio não tinha a importância que tem hoje, era quase tudo voltado para o futebol.

Eu ganhei a eleição para presidência (em 2014) na parte social. Fiz 60% dos conselheiros eleitos. A assembleia geral dos sócios, que é formada por uma maioria de não são-paulinos, elege o conselho, que elege o presidente. Logo, sócios elegem o presidente...

Sincodiv Online: Em sua opinião, o que ainda falta para que os clubes brasileiros alcancem uma gestão tão eficaz quanto às dos times da Europa? Quais os principais problemas encontrados na direção de times no Brasil?

Carlos Aidar: Não tem nada a ver com futebol, mas tem a ver com o país. Aqui, estamos numa economia de terceiro mundo. Primeiro: lá (na Europa) existe mais seriedade na condução das coisas, existe uma organização que aqui não temos, há o respeito ao ser humano, lá o profissionalismo é maior e, acima de tudo, a economia é mais estável. A Europa também tem problemas, mas no futebol não, é muito mais organizado.

Não é possível dar o salto de profissionalização do futebol no Brasil de jeito nenhum. Não temos a estrutura política e financeira necessária para isso.

Sincodiv-SP Online: Aqui no Brasil é impossível administrar um clube como uma empresa?

Carlos Aidar: Você tenta ao máximo possível fazer uma administração profissional, mas é difícil.

Eu não tenho organograma aqui dentro do SPFC. Temos quase mil empregados registrados em carteira, 60 e tantos veículos automotores, 200 rádios Nextel, mas não há nada exatamente organizado. E isso é um reflexo da cultura do país, o futebol não é uma ilha.

Sincodiv-SP Online: O time do São Paulo foi pioneiro numa administração mais profissional... Quais os próximos passos para que este “negócio” evolua em sua opinião?

Carlos Aidar: O São Paulo tem uma tradição de pioneirismo. Pioneiro na construção de estádio, do centro de treinamento, de centro médico e fisioterápico, na aplicação da fisiologia no desporto, na abertura de um segundo centro de treinamento, na liderança política – eu mesmo liderei um movimento nacional de clubes, o Clube dos 13 – tudo isso faz o São Paulo uma entidade à frente do seu tempo.

Mas, daí o São Paulo parou. Hoje, você tem o Palmeiras e o Corinthians ganhando um destaque grande com os novos estádios. Nós herdamos (por um acaso) dois shows da banda One Direction, que vieram para o Morumbi, mas só porque a arena do Palmeiras não estava pronta, caso contrário seria lá. A tendência é os shows aqui irem minguando, cada vez mais. E, com isso, a receita...

Sincodiv-SP Online: O perfil da diretoria do SPFC sempre foi formado por agentes empreendedores? Você acha que isso tenha ajudado o clube?

Carlos Aidar: Eu não entendo nada de Economia. Sou advogado, minha área é Humanas, não Exatas, mas tanto naquela época quanto agora, eu me cerco de pessoas competentes para exercer cargos de administração.

Há diretores que são engenheiros, administradores, arquitetos, dentistas, comerciantes, você tem de tudo por aqui: aposentado, mocinho, velhinho. A ideia é unir experiência com juventude. Acredito neste formato de gestão.

Sincodiv-SP Online: E daqui para frente, quais são as metas?

Carlos Aidar: Ser campeão brasileiro ainda este ano e fazer manutenção do parque social, que já está maravilhoso.

Sincodiv-SP Online: Você acha que um clube de futebol no Brasil ainda vai conseguir olhar para os torcedores como clientes, com todo o potencial que um cliente pode trazer para uma organização?

Carlos Aidar: Eu criei uma diretoria Comercial e uma de Relações Institucionais, que não existiam no clube. Eu trouxe três profsisonais de Marketing e duas agências para trabalhar aqui dentro porque eu estou profissionalizando a Comunicação e a venda da marca São Paulo.

Eu tenho, hoje, duas diretorias importantíssimas: a diretoria de Administração e a diretoria de Marketing. Uma para cortar despesas e a outra para gerar receita.

Em resumo, eu preciso e estou determinado a equilibrar as finanças do SPFC!

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação