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Seção Entrevista
05/06/2014 - 09:27:06
Bate-papo com Carlos Miguel Aidar, advogado e presidente do São Paulo FC
Por Matheus Medeiros e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire "Eu fiz o discurso da posse neste ano segurando uma camiseta com a foto do meu pai. É meu ídolo ou não é?", explica Aidar sobre a pessoa que o mais inspirou em sua evolução empreendedora.

 

Carlos Miguel Castex Aidar sempre dividiu suas atenções em duas paixões: o Esporte e o Direito. Não que os dois não se misturem, pois o fato é que ele começou sua carreira no São Paulo Futebol Clube como diretor-adjunto jurídico.

Presidente do clube entre 1984 e 1988, quando conquistou um campeonato brasileiro e dois paulistas, Aidar também foi fundador do Clube dos 13 e presidente da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo) entre 2001 e 2003. Sócio do escritório de advocacia Aidar SBZ, recentemente, assumiu mais um desafio: ser novamente presidente do São Paulo.

Nessa entrevista exclusiva ao portal do Sincodiv-SP, ele fala sobre a influência de seu pai na carreira jurídica e do futebol profissional. Sobre a Copa do Mundo, é enfático: o Brasil não perde duas Copas no país! Quanto aos desafios de administrar o clube do São Paulo 30 anos depois de sua bem sucedida passagem, a meta é ambiciosa: seremos campões brasileiros neste ano.

A seguir, confira a íntegra desta conversa:

Sincodiv-SP Online: Falar do Carlos Aidar sem passar pelo Sr. Henri Aidar é como deixar de tocar numa página importante de sua história. Conte-nos um pouco sobre sua relação com o seu pai.

Carlos Aidar:Meu pai é meu ídolo. Ele era são-paulino, nasceu no interior em uma família muito pobre e veio pra São Paulo pra estudar. Morava em pensão, conheceu minha mãe, casou-se e foi morar na casa do sogro, de favor.

Era uma pessoa humilde e fez uma carreira muito bonita. Tornou-se um grande advogado, uma figura de importância na administração pública, foi o primeiro presidente da Cesp (Companhia Energética de São Paulo), foi presidente da Petroquímica União, foi presidente do São Paulo. E foi pelas mãos dele que eu cheguei ao clube.

Eu era pequenoe ele me levava pra assistir jogos do time. O clube era pobre na época e não tinha dinheiro para o ônibus de transporte, então eram os diretores que levavam os jogadores, nos seus carros para jogos pelo interior do estado e eu com cinco, seis anos entrava num carro onde tinham os grandes jogadores da época.

Aquilo para mim era uma felicidade imensa, porque eu chegava ao colégio e tinha as histórias para contar que ninguém tinha. Eu viajei com Gino, De Sordi, Bauer, Alfredo, Pé de Valsa, Noronha. Era começo da década de 50, e isso me incutiu o amor pelo São Paulo que cresceu comigo. Então, claro, tornei-me são-paulino, obviamente, por influência do meu pai.

Sincodiv-SP Online: Quais características que seu pai tinha que eram de inspiração para você?

Carlos Aidar: Liderança, paciência, comando e o respeito da família por ele. Ele era um patriarca, um conselheiro da família toda, um orientador.

Eu me elegi secretário-geral da OAB e depois presidente da OAB do estado de São Paulo e tem cenas, que eu não me esqueço, de pessoas indo votar em mim e dizendo “ô Henrizinho, eu ‘tô’ votando em você por causa do seu pai”, “olha eu não te conheço, mas vou votar em você porque seu pai um dia me deu tal atenção”. Pelo menos 20 pessoas ao longo do dia vieram falar comigo fazendo questão de mencionar meu pai.

No dia da minha atual eleição aqui (no SPFC) teve um momento muito interessante. Minhas filhas e minha irmã entraram no plenário, vestindo camisetas do São Paulo com o retrato do meu pai nas costas. Eu fiz o discurso da posse segurando uma camiseta com a foto do meu pai. É meu ídolo ou não é?

Você vê, ele foi conselheiro da Ordem, eu fui conselheiro da Ordem e depois presidente. Ele foi político, mas eu não exerci nenhum cargo público. Ele foi um advogado brilhante, eu sou um advogado respeitado. Ele foi diretor e presidente do São Paulo e eu fui diretor e presidente do São Paulo. São duas vidas em momentos distintos, mas muito paralelas. Sigo os passos dele, com orgulho.

Sincodiv-SP Online: Você tem irmãos?

Carlos Aidar: Uma irmã que é 12 anos mais nova do que eu. São-paulina roxa, companheira, adora o clube, vem aos jogos e participa, mas não atua na gestão. Tenho três filhas, duas casadas e uma solteira.

A solteira é minha diretora-adjunta aqui, ajudou-me muito na campanha, uma pessoa com vida muito ativa dentro do clube, uma grande companheira minha. Essa está meio que casando com o São Paulo (risos).

Sincodiv-SP Online: A trajetória do senhor, assim como a de seu pai, são provas concretas de que vocês acreditam na atividade política institucional. O que o fascina nessa atuação?

Carlos Aidar: É uma atração natural. Quando você tem desejo de servir um segmento, seja ele qual for, você se envolve, como eu me envolvi na advocacia e no esporte. Você quer servir, quer colaborar, tem ideias, então precisa por em prática. E só tem um jeito de se fazer isso: que é disputar o poder. Exercer poder é necessário para você fazer alguma coisa tentativamente útil.

Em 1997, ajudei o Rubens Approbato a se eleger presidente da OAB. Fui como advogado e fiz campanha para ele porque acreditei nele. Viajei o estado inteiro fazendo campanha e ganhamos a eleição.

Quando ganhamos, ele queria que eu fosse vice-presidente, mas falei que não queria cargo decorativo, que queria trabalhar. Então saí candidato a secretário-geral, que é o membro que mais trabalha depois do presidente.

Fiquei três anos no cargo, naturalmente, tornei-me candidato à sucessão dele e me elegi presidente. Então, ao ajudar alguém a ser candidato à presidência, entrei nesse caminho que não teve retorno, a não ser me tornar presidente.

Aqui no São Paulo, há 30 anos, fui eleito presidente a primeira vez, em 1984. Reformulei isso aqui totalmente. Eu tinha 37 anos de idade, fui o presidente mais novo da história do clube.

Na época, eu trouxe quatro figuras, todos mais velhos do que eu, para cá como meus colaboradores e eles se tornaram importantes no clube nessas últimas décadas. Eu trouxe Juvenal Juvência, Marcelo Portugal Gouveia, Kalil Rocha Abdalla e o Carlos Augusto, o Leco.

Nesses últimos anos, eu estava ajudando o Juvenal, último presidente do São Paulo, com questões polêmicas na área jurídica, até que um dia ele ligou me convidando para uma reunião no clube.

Ele juntou 40 pessoas para falar sobre sucessão e citou meu nome entre as possibilidades. Fui pego de surpresa, não tinha nem passado na minha cabeça ser candidato à Presidência do clube. Falei: “presidente, eu não sou candidato, eu não quero ser candidato e eu não me preparei para ser candidato. Tenho um colchão de conforto imenso no meu escritório (de advocacia), que faz três anos que estruturei. Meu candidato é quem vocês disserem, mas meu nome está fora”.

Ao fim da reunião, uma série de pessoas veio falar comigo, dizendo que eu tinha que ser o candidato. Alguns dias depois, o Juvenal me chamou para ir à sua casa e disse: “tem que ser você, não pode ser outra pessoa! Com qualquer um dos outros três nós vamos perder a eleição. E eu respondi dizendo que ia pensar porque a essas alturas a mosquinha já estava me perseguindo.

Fui ao meu escritório e chamei os meus nove sócios para falar sobre o caso e disse que só aceitaria ser candidato com duas condições: se a minha cabeça dissesse que realmente eu deveria aceitar e se eles garantissem ao longo dos próximos seis anos a minha retirada de sócio. Eles se reuniram e me responderam dizendo que aceitavam - e queriam - que eu fosse candidato.

Vim à tarde aqui (no São Paulo) e falei: “Juvenal, eu topo. E agora, o que eu faço?”. Não conhecia mais as pessoas do clube. Eu vinha a poucos jogos, vinha a poucas reuniões do Conselho. Não tinha mais vida ativa política no clube, só jurídica.

Fiz campanha, de outubro a abril deste ano. Segundo o pessoal, fui o melhor candidato que já apareceu na história do São Paulo (risos). Eu frequentava o parque social, beijava as mulheres, abraçava os homens, pulei na piscina, fui na bocha, na sauna, na ginástica, joguei sinuca, fazia três almoços por dia, churrasco, pizza, virei candidato mesmo! E ganhei a eleição. Agora, estou aqui.

Sincodiv-SP Online: Estamos em ano de Copa. Qual a sua visão, como gestor da área, sobre a forma como o campeonato está sendo organizado no Brasil?

Carlos Aidar: A Copa é uma coisa boa pro Brasil. Se você me der duas opções, se vai ser bom ou ruim para o país, eu fico com a primeira. Agora, é uma vergonha a organização. Nós não temos 40% prontos do que tinha que ser feito. O entorno dos estádios está um desastre.

Não tem nenhuma razão técnica, a não ser política, para fazer a Copa em 12 sedes, mas gerou a construção de 12 novos estádios. Os empreiteiros ganharam muito dinheiro.

É a Copa dos empreiteiros. A FIFA é a maior empresa de construção civil e turismo do mundo. Esse espetáculo a cada quatro anos - de Copa do Mundo - movimenta, eu não tenho noção da quantidade de bilhões de dólares. O estádio do Corinthians, que vai abrir a Copa, já está custando mais de R$ 1 bilhão.

Você já tinha um estádio pronto aqui (se referindo ao Morumbi). Precisava dar “um tapa”, uma pintada, fechar aqui, fechar acolá. Mas aqui empreiteiro não ia ganhar dinheiro neste caso...

A Copa é boa? É. Vai trazer dividendos, vêm turistas de tudo quanto é lugar do mundo, vão gastar dinheiro, as transmissões de televisão serão maravilhosas. Os entornos, benfeitorias, em que pese o caos dos nossos aeroportos, muita coisa nova está sendo feita e não seria se não fosse a Copa.

Sincodiv-SP Online: Em que medida, poderia ter sido melhor o planejamento do evento, principalmente na questão dos estádios?

Carlos Aidar: Faz sete anos que o Brasil sabia que ia ter que fazer tudo isso e não fez. A Lei Geral da Copa, que concede uma série de exceções e benefícios, foi julgada há um mês. É um país desorganizado, não é um país sério. A Copa é um reflexo do país.

Acho que oito estádios, pela dimensão do Brasil, seriam o máximo. Não precisava mais do que isso. Sabe quem quis 12? O Lula e o Ricardo Teixeira. Um pra fazer política no futebol e o outro pra dar serviço pras empreiteiras.

Sincodiv-SP Online: Na sua visão, qual será o legado da Copa do Mundo para a população brasileira?

Carlos Aidar: O legado de infraestrutura daquilo que foi feito vai ser bom. Dos 12 estádios, seis não vão servir para nada e os outros seis vão continuar sendo usados como sempre foram usados no futebol brasileiro. Um desperdício de dinheiro.

Depois da Copa você vai usufruir dos aeroportos, das linhas de metrô, de trem, dos portos. Vai ter muita coisa boa, depois. Durante a Copa, vai ser um caos.

E olha, vou te falar hoje, o Brasil vai ser campeão do mundo! O país não perde duas Copas jogando em casa!

 

 

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Carlos Miguel Aidar, advogado e presidente do São Paulo FC, acesse aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação