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Seção Entrevista
17/07/2014 - 08:28:12
Bate-Papo com Klester Cavalcanti, jornalista, autor do livro Dias de Inferno na Síria - PARTE II
Por Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire Klester já começou a trabalhar em sua próxima obra, que consistirá na biografia de uma brasileira que passou cerca de 10 anos combatendo o trabalho escravo no Brasil e já libertou mais de duas mil pessoas da escravidão em pleno século XXI.

 

Sincodiv Online: Em um conflito, como se faz para achar o tom equilibrado diante da guerra da comunicação travada pelos dois lados, mantendo uma imparcialidade diante dos fatos?

Klester Cavalcanti: É preciso fazer o trabalho de apuração sem escolher lados. Na guerra da Síria, existem excessos de ambas as partes (rebeldes e forças do governo). Quanto mais polêmico e delicado for o assunto mais importante é que o profissional traga a informação sem fazer juízo de valor.

O simples fato de eu ter ido para Homs, que é a cidade mais afetada pela guerra, contra a vontade do governo Sírio já mostra que, na teoria, eu sou contra o governo, tanto que fui preso. Estava “contra” o governo, porque o mesmo não queria que eu fizesse a cobertura dos fatos e eu fui pra lá com o objetivo de retratar o que estava acontecendo.

É questão de interesse mesmo. Não acho que o governo é o diabo e os rebeldes são os anjinhos. Minha função como jornalista é retratar os fatos.

Sincodiv Online: O que as redes sociais trouxeram de novo para a cobertura de questões relacionadas com direitos humanos?

Klester Cavalcanti: Ainda é muito cedo para avaliar essa questão, porém existe uma coisa que me incomoda muito. As pessoas pensam que divulgar uma foto no Facebook vai trazer grandes mudanças.

Na prática, isso não interfere em nada. Lembro-me de uma época em que estava rolando um abaixo assinado virtual contra a eleição do Renan Calheiros para a presidência do Senado. As pessoas estavam achando que se o baixo assinado chegasse a um milhão de assinaturas algo de concreto realmente iria acontecer. Só pode ser muita ingenuidade.

Para tirar o presidente do Senado é necessário fazer muito mais do que uma campanha virtual. As pessoas precisam ir para rua e votar corretamente. Não entendo um indivíduo que critica um político que ele mesmo ajudou a eleger. É muito cômodo você estar no sofá de sua casa vedo televisão e dar um click para compartilhar uma foto. É um processo rápido, mas que não muda absolutamente nada.

Sincodiv Online: O povo da Síria está preparado para a Democracia?

Klester Cavalcanti: O povo árabe não tem muita noção do que é uma Democracia. Na Síria, isso ficou muito claro. Hoje, tem muita gente no país que era a favor dos rebeldes e que já não está mais com essa mesma opinião.

Ministrei uma palestra que tinha dois refugiados sírios na plateia, um deles afirmou que fazia parte do grupo rebelde, mas que estava arrependido.  E que olha ele foi preso e torturado pelo governo!

Agora, ele prefere as coisas como estavam antes da guerra civil. Acredito que ele tenha essa opinião por conta da destruição e das mortes de pessoas inocentes causadas pelos conflitos. A ideia da revolução dos rebeldes não é criar uma Democracia e sim tirar o Assad, que está no poder há mais de dez anos, e colocar um representante deles (rebeldes), sem a realização de eleições. Isso não é Democracia.

No Brasil, que na teoria é uma Democracia, o governo federal faz articulações para a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras não ser instaurada. A Marina Silva tentou criar um partido e não conseguiu! Isso também não é Democracia. Então, se no Brasil não temos um regime totalmente democrático, imagina no mundo árabe! Por exemplo, os rebeldes sírios não aceitam o fato de que o Assad permita a prática de outras religiões no país que não seja a mulçumana.

Eu vi diversas igrejas cristãs ao lado de mesquitas, também vi mulheres andando de minissaia na cidade de Damasco. Os rebeldes não aceitam isso, eles querem que a Síria seja como o Irã. Enquanto o povo árabe não conseguir aceitar as diferenças, a democracia será apenas um sonho distante para eles.

Sincodiv Online: No ano que completamos 50 anos do golpe militar no Brasil, como você avalia a evolução de nosso processo democrático desde o fim da ditadura (tal qual como conhecemos), considerando suas experiências em cobertura de conflitos? 

Klester Cavalcanti: Infelizmente, estamos engatinhando muito. Quem está no poder consegue fazer diversas falcatruas e ficar no cargo sem sofrer nenhuma consequência. A gestão de nosso governo é baseada em medidas assistencialistas, visto que o eleitorado brasileiro é muito inocente.

A Dilma Rousseff foi eleita pela primeira vez (no ano de 2010) quando poucas pessoas realmente a conheciam! Por que ela foi eleita? Porque o Lula pediu que as pessoas votassem nela. Se ele tivesse falado para as pessoas votarem no Klester, eu seria eleito. Eu realmente não consigo entender.

Estamos muito longe de ser um país maduro no ponto de vista político e democrático.

Sincodiv Online: Na sua avaliação, quais os impactos mais relevantes da guerra civil para uma sociedade? Quantas gerações carregarão as consequências desse movimento mesmo depois dele terminado?

Klester Cavalcanti: É difícil apontar um tempo. Hoje, na Síria, já morreram mais de 150 mil pessoas e o país tem aproximadamente dois milhões de refugiados. Os efeitos disso são imensuráveis!

Não dá para fazer uma projeção de quando as cidades mais afetadas poderão ser reconstruídas. Homs era considerada uma cidade modelo no Oriente Médio, era a Curitiba da Síria. Tudo funcionava direito, havia um transporte público eficiente, a cidade era muito limpa e organizada, mas está totalmente destruída.

Não há mais comércio, cinema e restaurantes. Como você vai reconstruir um lugar desse? Quantos anos vão demorar? Se eu for muito otimista e pensar que a guerra vai parar no ano que vem, será preciso de mais cinco anos, no mínimo, para o país voltar a ter alguma tranquilidade.

Sempre penso no Iraque, onde a guerra acabou, na teoria, há quase dez anos, porém até hoje é possível enxergar os reflexos dos conflitos. Claro que é diferente, pois no Iraque houve uma guerra de dois países, já na Síria, o problema é interno. Eu diria, sendo muito otimista, que a Síria precisará de no mínimo cinco anos para começar a se reestruturar após o fim dos conflitos.

Os efeitos psicológicos não terão fim por gerações, o povo sírio carregará esse fardo durante muito tempo. Uma criança de 11 anos que viu os pais morrerem nunca conseguirá se recuperar psicologicamente.

Sincodiv Online: A falta de recursos naturais deve ser cada vez mais motivo de conflitos entre nações? Qual a sua visão a respeito desse tema?

Klester Cavalcanti: Eu me preocupo bastante com o tema e acredito que acontecerão muitos conflitos por conta da escassez de recursos naturais no futuro. Não falo que será em 15 ou 20 anos, mas para daqui a 100. Todas as regiões do mundo que possuem fartura de água precisam ficar atentas.

Tenho um pensamento de que o próximo grande conflito mundial será causado pela água, porque a população mundial não vai parar de crescer e o recurso tende a ficar cada vez mais escasso. E a população brasileira acredita que a água não é nada de mais... Precisamos educar as próximas gerações para tratá-la como um bem muito precioso.

Sincodiv Online: Quais são seus próximos passos?

Klester Cavalcanti: Estou fazendo muitos trabalhos relacionados ao livro. Recentemente, comecei a ministrar palestras para empresas em que faço algumas analogias do que eu passei na Síria com o mundo corporativo, isso tem sido uma excelente experiência para mim.

Também já comecei a trabalhar no meu próximo livro, que consistirá na biografia de uma brasileira que passou mais de dez anos combatendo o trabalho escravo no país. Ela libertou mais de duas mil pessoas da escravidão em pleno século XXI. Já iniciei fase de pesquisa e a ideia é que a obra seja lançada em 2016.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação