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Seção Entrevista
17/07/2014 - 07:58:02
Bate-Papo com Klester Cavalcanti, jornalista, autor do livro Dias de Inferno na Síria
Por Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire Vencedor por três vezes do prêmio Jabuti de literatura, Klester Cavalcanti é escritor e jornalista especializado na cobertura de questões relacionadas a Direitos Humanos.

 

Neste ano, que vem sendo marcado por situações de conflitos no país, a equipe do Sincodiv-SP conversou com o jornalista e escritor Klester Cavalcanti,  que é vencedor por três vezes do conceituado prêmio Jabuti de Literatura e especialista na cobertura de questões relacionadas a Direitos Humanos.

Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre sua trajetória profissional, expressa sua opinião sobre a forma como a cobertura de conflitos é realizada pelos grandes meios de comunicação, além de abordar a experiência que passou na cidade de Homs, local mais afetado pela guerra civil da Síria, descrita em seu último livro “Dias de Inferno na Síria” (Editora Benvirá), local onde acabou preso pelas forças do ditador Bashar al-Assad.

Para multiplicar por que razão conflitos de qualquer natureza podem deixar marcas quase irreparáveis, hoje, Cavalcanti realiza palestras, estabelecendo as analogias que existem nessas situações com os desafios enfrentados por executivos no mundo corporativo.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista.

Sincodiv Online: Conte-nos um pouco sobre sua vida pessoal. Por que você decidiu cursar jornalismo?

Klester Cavalcanti: O Jornalismo surgiu na minha vida de forma muito inesperada, pois desde muito garoto eu era bom em matemática e naturalmente isso chamava atenção. Eu só tirava 10 na disciplina. Meu bom desempenho em exatas me fez cursar Engenharia Mecânica. Comecei a estagiar na Votorantim, em Recife (PE). Eu gostava bastante, mas meu chefe sempre reclamava muito do mercado.

Comecei a pensar e refletir que dali a alguns anos eu poderia estar igual a ele. A partir disso, passei a levantar outras áreas que envolvessem atividades menos “tediosas”. O primeiro pensamento que veio a minha cabeça foi virar fotógrafo. Passei a ler muitas revistas e jornais para observar as fotos, mas após estudar a fundo os conteúdos dos meios de comunicação, percebi que mais interessante do que fotografar seria contar as histórias, apurar os fatos e conversar com as pessoas.

Decidi prestar o vestibular para o Jornalismo e não avisei meus pais. Quando recebi a notícia que havia passado, então tive que contar. Não foi fácil.

Sincodiv Online: Poderia falar sobre sua trajetória na área?

Klester Cavalcanti: Após entrar na faculdade já comecei a trabalhar na área. Minha primeira experiência foi com assessoria de imprensa, depois disso, ingressei como estagiário no Diário de Pernambuco. Quando eu estava prestes a me formar, recebi o convite do Laurentino Gomes para ser correspondente da Veja na Amazônia. O mais interessante é que eu sempre tive muita vontade em conhecer o lugar. Aceitei o convite e, no ano de 1998, fui morar em Belém (PA).

Eu era o único jornalista do veículo para cobrir toda a Amazônia. Eu trabalhava com diversos assuntos, como meio ambiente, conflito agrário, trabalho escravo, economia, política, entre tantos outros. Foi um período fantástico! Eu tinha o suporte do Laurentino para colocar todas as minhas ideias de pauta em prática.

Em março de 2000, aVeja me trouxe para São Paulo e estou na cidade até hoje. No período (2000 até 2014), passei por veículos como Estadão, VIP, revista Terra, IstoÉ, entre outros.

Sincodiv Online: Como surgiu seu interesse pela cobertura de conflitos e questões relacionadas aos direitos humanos?

Klester Cavalcanti: Sempre fui muito interessado por assuntos que envolviam os direitos humanos. Percebi que meu trabalho poderia abordar tais situações. Já no Diário de Pernambuco, quando ainda era estagiário, comecei a produzir matérias que denunciavam violações.

Na Veja,também cobri assuntos muito fortes relacionados a essas questões. Como estudante de Jornalismo, eu sonhava em fazer a cobertura de uma guerra e quando comecei a trabalhar em grandes veículos percebi que meu sonho poderia se tornar realidade. Em 2003, estourou a guerra do Iraque e eu estava trabalhando como editor da revista Terra, que tinha um processo editorial muito parecido com a da National Geographic. Tentei ir para lá, mas não aconteceu.

Quando a guerra na Síria fez um ano, passei a articular, por minha conta, o visto de imprensa para fazer a cobertura. Por mais que fosse muito difícil um jornalista estrangeiro conseguir o visto para trabalhar no local, eu tinha contatos no Itamaraty e na Embaixada Brasileira de Damasco.

Quando consegui o visto, trabalhava como editor executivo da IstoÉ . Conversei com a diretoria da revista e perguntei se havia interesse por parte deles que eu fosse para Homs com o objetivo de apurar os acontecimentos e redigir uma reportagem. Eles gostaram muito da ideia e, no mês de maio de 2012, fui para lá.

Sincodiv Online: Como a cobertura de conflitos pode ser melhorada?

Klester Cavalcanti: Pode ser melhorada na medida em que o profissional só faz o trabalho direito se ele for ao local. A tecnologia é uma ferramenta importante, porém ela não substitui uma cobertura presencial. Jornalismo não se faz por Skype, principalmente em uma guerra. Tenho orgulho pessoal muito grande de ser o único jornalista brasileiro a ir para Homs desde que guerra começou.

No entanto, eu acho isso uma vergonha para a imprensa brasileira, que é muito forte e possui veículos com muitos recursos financeiros. O correspondente que cobre a guerra (da Síria) para a Rede Globo de Televisão está em Jerusalém! Como ele faz a cobertura da guerra estando em outro país? Essa falta de interesse é uma burrice muito grande, visto que o confronto na Síria é um dos eventos globais mais importantes que acontecem no mundo.

Especialistas em conflitos no Oriente Médio afirmam que a guerra pode ter proporções ainda maiores por conta da localização geográfica do país. E o Brasil está “cobrindo” o evento à distância! Não dá nem para saber se o conteúdo que chega aos leitores é verídico, pois quem produz as informações sobre os conflitos são moradores da região, que mandam o material para as agências de notícias, que vendem o conteúdo para os meios de comunicação.

É um jeito sujo de fazer jornalismo. Por exemplo, neste ano, circulou uma foto de um garoto sírio que estava sozinho e perdido no deserto. Após certo tempo veio à tona que o garoto estava a 20 metros de seus pais. Ele realmente era um refugiado de guerra, mas não estava sozinho nem perdido.

Sincodiv Online: Por que os veículos de comunicação estão cada vez menos interessados em fazer cobertura em áreas de conflitos?

Klester Cavalcanti: Só pode ser por preguiça, covardia e falta de vontade. Tenho certeza que não é por ausência de recursos financeiros, porque os meios de comunicação brasileiros enviaram dezenas de jornalistas para fazer cobertura das Olímpiadas de Inverno de Sochi. Para acompanhar os conflitos na Síria é necessário levar apenas um ou dois profissionais.

A imprensa estrangeira está fazendo a lição de casa, você vê jornalistas ingleses, franceses, norte-americanos, espanhóis, entre outras nacionalidades, fazendo a cobertura in loco dos acontecimentos. É lamentável que nenhum brasileiro esteja lá também. Eu entendo que alguns veículos possam ter receio de que aconteça alguma coisa com o profissional que eles enviaram, mas isso faz parte de uma cobertura de grandes conflitos.

Imagino que tenham muitos profissionais nas redações que queiram fazer essa cobertura, mas não recebem apoio da chefia por conta de uma falta de interesse ou talvez porque as diretorias executivas dos veículos de comunicação acreditam que é possível fazer bom jornalismo comprando material de agências de notícias. É um amadorismo assustador!

O que também é difícil de entender é que o Brasil tem umas das maiores comunidades árabe de todo mundo, então não falta público que apoie e consuma uma boa cobertura dos fatos na Síria.

Sincodiv Online: Em 2000, enquanto produzia uma reportagem para Veja no Pará, você foi sequestrado por grileiros. Poderia estabelecer um paralelo entre esta situação e o que você passou na Síria?

Klester Cavalcanti: Não tem nem comparação. O que aconteceu na Amazônia foi “fichinha” perto do que passei na Síria. Quando eu fui sequestrado, eu estava em meu país, além disso, foi uma situação que durou apenas quatro horas.

Já na Síria, eu fiquei uma semana preso e não tinha ideia do que iria acontecer comigo e também não sabia quando eu poderia sair.  O que me salvou na prisão foi meu bloco de notas e minha caneta. Como eu estava em uma cela de presos não perigosos, era permitido entrar com os respectivos pertences.

Eu conseguia trabalhar, ocupar minha mente e escrever as loucuras que passavam em minha cabeça durante o período, enquanto a situação não se resolvia.

Sincodiv Online: Na sua visão, o Brasil é um país seguro para o exercício da profissão de jornalista?

Klester Cavalcanti: Depois do que aconteceu comigo na Síria, acho que o Brasil é “muito seguro” (risos). Quanto à segurança para o exercício da profissão, acredito que depende muito do veículo de comunicação em que o profissional trabalha. Por exemplo, quando fui sequestrado na Amazônia, não fui morto porque os sequestradores sabiam que eu trabalhava na Veja.

Se eu fosse jornalista de um meio de comunicação local acredito que eles poderiam ter me matado. A meu ver, o Tim Lopes foi assassinado, pois ele não era muito conhecido. Se fosse o Caco Barcellos no lugar dele duvido que aconteceria o mesmo. Os criminosos sabem da repercussão que a morte de uma pessoa minimamente conhecida pode trazer.

Falando seriamente, o que eu posso afirmar com convicção é que o Brasil não é um país seguro para ninguém. Não é apenas a imprensa que sofre com a impunidade que assola nosso país.

Achei muito importante a grande repercussão da morte do Santiago, cinegrafista daBandeirantes, nos meios de comunicação, no entanto, se fosse um taxista ou um lojista não teria esse mesmo “barulho”.

O fato é que não importa se a violência atinge um jornalista da Globo ou um flanelinha, mas no Brasil é assim... A ocupação profissional determina o status do indivíduo. Vivemos em um país muito inseguro, e o tratamento desta questão é feito de forma leviana.  

A atividade jornalística tem um papel importante, que consiste em denunciar situações, mas antes de haver a preocupação com os jornalistas em si, é preciso pensar na segurança de toda a população.

 

 

Para ler a segunda e última parte da entrevista com Klester Cavalcanti, jornalista, autor do livro Dias de Inferno na Síria, acesse aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação