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Seção Entrevista
02/08/2011 - 09:49:21
Bate-papo com Paulo Nathanael, educador ex-presidente do Conselho Nacional de Educação
Por Juliana de Moraes, Renan De Simone e Ana Paula Nogueira
Sincodiv-SP/A. Freire Educador por vocação, Paulo Nathanael P. de Souza foi presidente do Conselho Nacional de Educação.

Formado em Economia, mestre em Sociologia e Política e doutor em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Paulo Nathanael Pereira de Souza é um educador por formação (tem o diploma pelo antigo Curso Normal) e gestor que alcançou o posto máximo na área educacional brasileira, presidindo o Conselho Nacional da Educação.

 

Hoje, na iniciativa privada, reitor de duas universidades corporativas, reúne a experiência de uma vida inteira dedicada às salas de aula, à gestão de escolas e ao desenho de políticas para a Educação.

 

A vida lhe foi generosa. Paulo Nathanael teve bons mestres, verdadeiros líderes – como ele afirma -, que possibilitaram ao menino nascido em José Paulino, distrito da cidade Campinas (SP), avançar com passos largos em direção à carreira que ele escolheu. Embora tenha exercido com sucesso Jornalismo e ter sido eleito vereador, foi o amor à arte de gerir e planejar o ensino formal brasileiro que falou mais alto.

 

A seguir, confira a entrevista com Paulo Nathanael e descubra por que razão os desafios nacionais na área da Educação são enormes, mas, não, insolúveis! Além disso, saiba quais as oportunidades que as universidades corporativas podem trazer para grupos reunidos em categorias econômicas.

 

Sincodiv-SPOnline: Quem foi o menino Paulo Nathanael? E como despontou na carreira de educador e gestor público da Educação?

 

Paulo Nathanael P. de Souza: Na infância, mudei muitas vezes de cidade.Meu pai era empregado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e sempre era removido para as localidades em que havia obras do sistema ferroviário. Mas, em São Carlos (SP) morei por 12 anos, cidade berço da minha formação.

 

Foi nesta última cidade que frequentei o Ginásio Diocesano, organização católica, onde convivi com Don Rui Serra, homem quem considero uma grande fonte de inspiração e influência para mim. Ele tinha um gosto enorme de conversar com os alunos, era um líder. Ele nos ensinava importantes conceitos filosóficos e morais.

 

Sabe, venho de uma família de protestantes, ele era católico, mas jamais perguntou qual era minha religião, sempre me tratou com todo respeito humano.

 

Depois, no Colegial, optei pelo Clássico (naquele tempo havia a opção entre Científico e Clássico, o segundo com foco no Humanismo), e mais, escolhi, em vez do aprendizado da língua francesa, o estudo de grego clássico.

 

Meu professor dava aulas particulares para mim (só eu estudava grego clássico na escola). O nome dele era Julian Fauvel, um francêsformado pelas universidades de Sorbonne (França) e por Oxford (Inglaterra), que veio parar no Brasil após a 1ª Guerra Mundial.

 

Ele por si só já era uma “escola”; detentor de uma cultura oceânica. E, mais do que grego, aprendi muito sobre História, Filosofia, Política. E foi ele quem me iniciou na carreira de professor, aos 17 anos. A partir daí não parei mais. Entrei para a escola pública por meio de concurso, após passar pelo Curso Normal - voltado à formação de professores -, e minha carreira, digamos, “foi acontecendo”.

 

Sincodiv-SPOnline: Qual sua opinião, enquanto educador, sobre a anuência do ensino nas escolas do Português na forma coloquial “os menino pescam os peixe”, como alternativa à mesma versão no Português correto – conforme consta na cartilha de educação do atual governo?

 

Paulo Nathanael: Minha avaliação é de que é a norma culta que deve ser ensinada no âmbito da escola.

 

É verdade, a língua deve assumir novas formas, como representação do próprio desenvolvimento. Ela assimila gírias, estrangeirismos, mas o ambiente do ensino fundamental não é mais adequado para este tipo de discussão. O erro, neste caso, é da escola, que permite a abordagem.

 

O argot (gíria, jargão), seja na forma de estrangeirismo, seja por palavras específicas criadas por grupos (tribos), é um problema linguístico e sociológico, não deve ser objeto da educação básica.

 

Sincodiv-SPOnline: Considerando o fato de as crianças e jovens de hoje terem muito mais acesso às informações, você acredita que a capacidade de aprendizagem das novas gerações mudou em relação às anteriores?

 

Paulo Nathanael: Sim, mudou. E o problema é que os professores não estão preparados para a evolução de seus alunos.

 

A questão maior de todo esse contexto é que a escola de formação de professores não se adaptou para a realidade que você acaba de mencionar. Ela não leva em consideração a tecnologia eletrônica / de informação e comunicação (e sua forte influência na vida dos alunos), nem como seria possível sua aplicação nas várias cadeiras de ensino.

 

Outro problema, a meu ver, é conceitual. O aluno dos dias de hoje precisa enxergar uma utilidade prática para os conceitos que lhes são transmitidos. Já dizia Confúcio (filósofo, chinês): “Eu sei porque faço”. Afinal, para que serve o Teorema de Pitágoras?

 

As crianças destas novas gerações conhecem, dominam e usam as novas tecnologias mais do que qualquer professor; elas só levarão a Educação a sério se, por meio dela (a Educação), conseguirem vislumbrar o futuro; e por fim há de se considerar que todas as crianças e jovens atualmente têm um comportamento “simultâneo”, ou seja, são capazes de cumprir várias atividades (leem, assistem, escrevem e falam) ao mesmo tempo.

 

Sem que se observe e atenda essas necessidades e características deste público escolar, o sucesso e eficácia do sistema educacional ficam realmente comprometidos.

 

Sincodiv-SPOnline: O que pensa a respeito do grande número de novas universidades, em especial particulares, que foram abertas no país nos últimos anos? O que mudou no cenário da formação superior brasileira?

 

Paulo Nathanael: A universidade particular é indispensável. O Estado não tem capacidade de suprir a demanda que existe para o ensino Superior e, neste contexto, a iniciativa privada é o caminho.

 

Apesar disso, não se pode abrir mão do essencial papel regulador do governo, da coordenação de uma fiscalização rigorosa para que não haja instituições voltadas só para o lucro, como acontece atualmente. Muitas são desorganizadas e despreocupadas com a formação dos seus alunos, portanto, o modelo não anda, digamos, “muito bem”.

 

Sincodiv-SPOnline: Além de profissional da área de Educação, importantes cargos da administração pública fazem parte de seu currículo. Fale um pouco desta experiência para nós.

 

Paulo Nathanael: Diretor de colégios estaduais; coordenador geral da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo; membro do Conselho de Educação do Estado de São Paulo; secretário de Educação e Cultura do Município de São Paulo; e membro e presidente do Conselho Federal Nacional de Educação, em Brasília (DF), oram alguns dos principais cargos de exerci na vida pública.

 

Todos os degraus que galguei ocorreram por motivos que considero casuais. É claro que tenho a estrela (da sorte), mas sem dúvida dediquei muito suor aos projetos e atividades que desenvolvi.

 

Dessa experiência, digo que há sempre a percepção de que existe a falta de interesse dos governos em melhorar o sistema da Educação porque não há interesse. E isso de fato de existe, mas não reflete o todo, portanto há obstáculos, mas transponíveis.

 

Dentro de poucas gerações, muito será superado, pois a qualidade da formação das pessoas, ainda que frágil, está melhor do que antigamente, portanto o grau de exigência da população aumentará e suas demandas – inclusive no que toca à Educação - terão de ser atendidas.

 

 

Para conferir a 2ª e última parte do Bate-papo, clique aqui.

 

 

 

 

 


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