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Seção Entrevista
11/09/2014 - 09:51:21
Bate-papo com Jean Bartoli, teólogo, economista e Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP - II Parte
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/ A. Freire "Todo ser humano é inteligente! Você pode não saber a história da filosofia ou não conhecer ideias específicas e autores, mas você sabe pensar, isso é filosofia", reflete Bartoli.

 

Sincodiv-SP Online: Num de seus textos, você trabalha a questão do dinheiro visto do ponto de vista bíblico e recorrendo a etimologia da palavra “Mamon”. Que relação tem isso com nossa situação?

Jean Bartoli: Toda. As Escrituras, apesar de muito antigas, são atuais como poucas coisas conseguem. É também por isso que acredito que um olhar mais espiritual seja uma saída para esse ciclo doentio a que chegamos.

A passagem que você citou se refere ao momento em que Jesus adverte os homens que não se pode servir a dois senhores. Ou se serve a Deus ou a Mamon, que é tido como o dinheiro. Interessante notar que o termo hebraico utilizado não significa apenas dinheiro, mas sim um estado de conforto e segurança que é proporcionado pelo dinheiro em si. Logo, apegar-se ao conforto e segurança que o dinheiro traz é uma insensatez.

Na mesma passagem (Lucas 16: 9-13, e também em outros), o ensinamento de Jesus é para que os homens usem o dinheiro para fazer amigos, atrair pessoas para si. Isso está muito de acordo com o princípio de ponte. Note que não significa comprar pessoas, mas utilizar-se de seu dinheiro para aproximar-se de pessoas.

O grande problema é que hoje invertemos as coisas. Não utilizamos o dinheiro (meio) para fazer amigos, mas utilizamos amigos para fazer dinheiro... Nossa segurança não deve estar no dinheiro, e sim nas pessoas.

Sincodiv-SP Online: Como assim?

Jean Bartoli: O dinheiro é só uma ferramenta, as pessoas é que fazem e constroem. Na crise que tivemos ao final de 2008, por exemplo, o dinheiro se foi e as pessoas ficaram. Elas é que reconstroem as coisas, elas são nossa segurança.

Uma empresa é feita de pessoas, esse é o seu verdadeiro patrimônio. O seu presidente, todos os seus funcionários, clientes, fornecedores, etc., essa é a empresa. Se a relação de confiança for estabelecida, por exemplo, mesmo num momento ruim, as coisas se sustentam por meio dessa confiança até que o dinheiro volte a circular.

É desse tipo de relação que Jesus falou quando se referiu ao dinheiro. É servir-se do dinheiro e não servir ao dinheiro. Ele não pode ser o elo mais importante na cadeia.

Sincodiv-SP Online: Como você citou que a saída desse ciclo ruim poderia ser por meio da espiritualidade, qual podemos entender que é o papel da religião atualmente?

Jean Bartoli: Quando digo que nossa saída pode ser por esse viés, devemos esquecer a ideia da religião como “refúgio”. Ela já não funciona mais dessa forma, não há como fugir de influências da sociedade, elas nos atingem de qualquer maneira. E, como cristão, posso dizer que o cristianismo foi um dos pioneiros nesse processo de secularização da sociedade.

O que Jesus veio trazer não foi uma religião fechada e regrada, mas pelo contrário, uma abertura social para que outros (não judeus) pudessem partilhar da comunidade. Logo, trancafiar-se longe de tudo e de todos não é, nem de longe uma solução.

Meu ponto é que a religião – e me utilizo aqui de minha base cristã, mas a maioria das religiões tem essa filosofia, portanto, quando cito uma, não estou sendo excludente – nos traz uma iluminação de como viver melhor atentando a alguns pontos.

Quando falamos de Jesus, por exemplo, vemos que ele não queria levar todos para o templo, não era somente ali que as coisas aconteciam, era também ali. Ele orava e ensinava em tal local, mas era visitando as casas das pessoas, caminhando nas ruas e tendo contato com gente que seu ministério era feito.

Recorro ao ponto de vista religioso para relembrar o respeito e convivência. São as pessoas que alimentam o espírito. E, portanto, não defendo instituições, até porque estas, muitas vezes, aumentam a segregação.

Ou retomamos a ideia de fraternidade ou estamos perdidos!

Sincodiv-SP Online: O que falta para práticas mais fraternas, de um modo geral, dentro e fora das empresas?

Jean Bartoli: Superar a acédia (ou acídia) que se abate sobre nós por diversos motivos. É muita indiferença, muita apatia...

Sincodiv-SP Online: O que seria isso?

Jean Bartoli: Este é um conceito que foi muito utilizado na vida monástica entre os séculos IV e V. Logo, quando a Igreja deixou de ser perseguida e passou a ser “perseguidora” (o imperador Constantino estragou toda a ideia quando atrelou o Estado a Igreja), diziam que se abateu uma abulia, uma falta de vontade, sobre ela. Era como se a acomodação tivesse levado embora o entusiasmo pelo evangelho. No nosso caso, vários fatores parecem ter levado para longe de nós o entusiasmo com o refletir, o praticar e o agir.

Apenas para citar alguns, brinco que hoje não somos terráqueos, mas sim “teláqueos”, pois vivemos mais olhando para telas do que para pessoas. É extremamente deprimente vermos uma família de quatro pessoas (pais e dois filhos) entrarem em um restaurante, sentarem-se uns de frente aos outros e, em vez de conversarem e compartilharem suas experiências – que provavelmente não tiveram oportunidade de fazer antes por conta do cotidiano agitado –, puxarem cada um o seu aparelho de celular e passarem horas ali.

A relação corporativa também tem disso. As empresas têm uma deficiência em planejar, entretanto, quando o fazem, incorrem no erro de não revisar sua atuação. Digo isso porque as coisas são dinâmicas e os cenários mudam e outro fator que nos leva a essa falta de entusiasmo e vontade é o famoso “foco”.

O foco exagerado em um ou outro ponto do trabalho nos faz esquecer o entorno. E, deixamos pessoas e elementos fundamentais de criatividade de lado. Falta a visão do conjunto.

Como disse Armand Hatchuel (executivo e acadêmico francês), a empresa é um projeto coletivo que deve acontecer num ambiente solidário com uma liderança voltada para o bem comum. Se não houver solidariedade, o projeto fracassa.

Sincodiv-SP Online: Normalmente as lideranças falam muito nessa questão do foco (em especial em resultados) e são elas que definem o andar das empresas. No quesito liderança, sob seu olhar, o que sobra e o que falta?

Jean Bartoli: O que nos sobra em nossa condição de humanos é a ignorância. O que nos falta, é sermos pontífices (no sentido daqueles que criam pontes).

Os líderes são ignorantes sobre si mesmos, e não têm vontade de aprender sobre seu íntimo; são ignorantes quanto ao futuro, ninguém consegue fazer previsões acertadas, inclusive, os prudentes dizem “não sei”, quando perguntados do futuro; são também ignorantes quanto à técnica e muitos não sabem disso.

Quando sabemos de nossa ignorância, podemos montar um time que seja forte onde sou fraco, ignorar isso é estupidez; e, por último, ignoramos o fato de que ninguém nasce burro, mas que com bastante esforço e dedicação, conseguimos nos tornar bem estúpidos, em especial quando nos damos por acabados.

Por fim, digo para os líderes criarem pontes. Eles é que vinculam áreas e pessoas dentro de uma empresa. Não uso o termo conectar porque isso me lembra a situação atual virtual. Muitos solitários numa mesma rede imensa. Vincular é mais que isso, é criar relação verdadeira, corresponsabilidade.

Ninguém nunca lidera sozinho e, se o faz, é líder de nada!

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação