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Seção Entrevista
02/10/2014 - 09:59:34
Bate-papo com Heni Ozi Cukier, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM-SP - II Parte
Por Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/Edson Caldas "Não investimos no futuro e não investimos em tecnologia porque no Brasil não existe respeito ao direito de propriedade, seja ela física ou intelectual".

 

Sincodiv-SP Online: No cenário econômico, temos experimentado recentemente um governo a favor da intervenção econômica. O mercado não gosta. Do ponto de vista político, essa postura também é mal vista internacionalmente?

Heni Ozi Cukier: O Brasil é uma das nações praticantes do chamado Capitalismo de Estado, que abarca a utilização das forças econômicas do país para atender aos respectivos interesses políticos da elite que está no poder. Por exemplo, na China, as empresas controladas pelo Partido Comunista não estão lá para dar lucro, mas sim para garantir a supremacia do partido como detento do poder.

No Brasil, acontece a mesma situação, pois as poucas empresas públicas do país viraram um braço político do governo! Isso é péssimo para o investidor, pois ele sabe que está sujeito a governanças de origem política. Ou seja, como um empresário vai investir em um negócio que está sujeito aos rumores e desejos de um grupo pequeno em detrimento de razões econômicas? Na Noruega, a empresa que cuida do petróleo é pública, mas a forma como ela é gerida é totalmente diferente do que acontece no Brasil.

O governo norueguês gere a organização de maneira que faz inveja em muitas empresas privadas. Para nós, brasileiros, algo que é público consiste em algo que não tem dono, pois não nos sentimos parte daquilo que está ali. Isso é algo cultural que demorará muitos anos para ser alterado.

Enquanto não tivermos a habilidade de gerir uma empresa pública como faz o governo norueguês, a melhor saída talvez seja o Estado não se envolver com a cadeia produtiva.

Sincodiv-SP Online: Como professor universitário, como define a relação dos jovens com a política?

Heni Ozi Cukier: Em linhas gerais, o brasileiro não tem cultura política e nem mesmo entende o que é política. As pessoas já cometem um erro grave ao associar, quase que imediatamente, política com roubo. É necessário fazer a distinção.

Política é quando a pessoa chega para outra e diz: “vota no meu projeto que depois eu voto no seu”. Porém, o brasileiro não aceita essa conduta, pois  já pensa que é desonesto. Na verdade, safadeza é quando alguém faz um acordo para não pagar um imposto, ou quando a verba pública é utilizada para fins pessoais. Isso é roubo! Agora, negociar e trocar votos faz parte do jogo político.

Existe um problema sério no mundo acadêmico, principalmente no Brasil, de que as pesquisas e os conteúdos ficam apenas no campo das ideias. É fácil falar como o mundo deveria ser, julgando, criticando e arrumando algum vilão para todos os problemas. Difícil é encarar a realidade e perceber que você faz parte dela.

Precisamos de entendimentos e soluções que sejam condizentes com o funcionamento da natureza humana. Sempre falo para os meus alunos que é necessário compreender a realidade, entender o que precisa ser feito e trabalhar a partir disso. Não podemos ficar pensando em sociedades utópicas!  

Sincodiv-SP Online: Na sua visão, o fato da nova geração de jovens ser muito voltada para o “eu” acaba minando a construção de uma sociedade mais crítica?

Heni Ozi Cukier: Isso realmente é um problema, pois essa geração não possui senso de coletividade e não se dá conta de que faz parte de algo maior. As pessoas só percebem que não ficam totalmente contentadas ao satisfazer apenas suas necessidades quando ficam mais velhas.  A prioridade sempre vai para “meu” carro, “meu” dinheiro, “minha” família e por aí vai.

É preciso que as pessoas se envolvam com um contexto maior, que consiste no macroambiente em que estão inseridas. A vida não tem sentido se você não utilizar suas qualidades para maximalizar o quanto você pode fazer de bem.

Nós precisamos de jovens querendo ser políticos!  Só conseguiremos ter uma menor quantidade de políticos desonestos quando tivermos cada vez mais pessoas novas e com vontade de mudança ingressando no meio.

Nas boas instituições de ensino existem jovens com muito potencial, por isso que eu falo para os meus alunos e para todo mundo: “Se você possui uma vocação e gosto pela política, você tem um dever com a sociedade!”.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação