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Seção Entrevista
02/10/2014 - 08:29:20
Bate-papo com Heni Ozi Cukier, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM-SP
Por Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/Edson Caldas Heni Ozi Cukier é cientista político, professor na ESPM e fundador da Core Social Asset Management, consultoria de responsabilidade social e sustentabilidade.

 

Tendo em vista a chegada das eleições para Presidência, a equipe do Sincodiv-SP conversou com o cientista político  e professor do curso de Relações Internacionais da ESPM-SP (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Heni Ozi Cukier.

Com passagens por organizações como ONU (Organização das Nações Unidas) e OEA (Organização dos Estados Americanos), Cukier falou sobre a avaliação internacional a respeito da evolução política e econômica do Brasil, além de abordar o atual papel do país dentro cenário externo. “O Brasil tem que sair de cima do muro se deseja ocupar uma posição de destaque maior”.

O cientista político ainda discorreu sobre sua principal missão como professor universitário e expressou sua crítica ao desinteresse dos jovens pela política. “Nós precisamos que os jovens queiram ser políticos!  Só conseguiremos ter uma menor quantidade de políticos desonestos quando tivermos cada vez mais pessoas novas e com vontade de mudança ingressando no meio”.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista:

Sincodiv-SP Online: Conte-nos sobre sua trajetória profissional. Como surgiu seu interesse por questões políticas?

Heni Ozi Cukier:Sou formado em Filosofia e Ciência Política, nos Estados Unidos, e mestre em Resoluções de Conflitos Internacionais pela American University, em Washington D.C. Ingressei, profissionalmente, em algumas organizações internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos) e, após seis anos, fui chamado para trabalhar no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), onde não exercia o papel de representante do Brasil, mas sim de um servidor público internacional.

Depois de sair da ONU, percebi que estava na hora de retornar ao Brasil. Aqui, fundei Core Social Asset Management, consultoria de responsabilidade social e sustentabilidade. Também passei a entrar em contato com algumas faculdades para dar aulas, pois eu tinha o desejo de passar minhas experiências adiante.

O fato do curso de Relações Internacionais da ESPM ser novo e oferecer boa parte das aulas em inglês me atraiu logo de cara. Além disso, meu foco de pesquisa, que é Conflitos Internacionais, ainda não estava ocupado. Então, em 2008, comecei a dar aulas na instituição.

Atualmente, também dou aula no MBA da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e na Casa do Saber, escrevo para a revista Exame, tenho um programa fixo na Mega TV, além de uma consultoria de risco político.

Sincodiv-SP Online: Tendo em vista sua experiência em organizações internacionais (ONU e OEA), como os executivos estrangeiros com quem o sr. trabalhou enxergam a evolução do Brasil no campo político?

Heni Ozi Cukier: O Brasil tem sido visto de uma forma cada vez melhor, principalmente, por ser uma potência econômica. Claro que na comparação com a China, Rússia e Índia, temos uma democracia mais consolidada. No entanto, os estrangeiros com os quais eu trabalhei entendem e sabem sobre os problemas e dificuldades do Brasil, como corrupção, desigualdades sociais, pobreza, entre outros.

Também fala- se muito sobre o momento delicado do país, quando falamos em democracia, pois temos um partido que está no poder há 12 anos, o que elimina um dos pilares da democracia, que é o caráter de alternância.

Por exemplo, existe a divisão dos três poderes, que foram criados para que houvesse uma descentralização. Um partido que está há muito tempo no poder nomeia todos os ministros do Supremo, o que acaba com tal separação. Na Venezuela tem ministro no Supremo? Claro que tem, mas são totalmente ligados ao governo. Na Rússia tem eleição? Claro que tem, mas ocorre uma manipulação, pois a mídia é totalmente controlada.

O Brasil é um dos países do Ocidente em que mais se mata jornalistas e já vivenciamos diversas tentativas de controle de imprensa pelo atual governo, o que é um risco enorme para a nossa democracia. As pessoas com quem trabalhei possuem uma boa visão do Brasil no campo político, mas sabem sobre os riscos que assombram o país.

Sincodiv-SP Online: Do ponto de vista econômico, a avaliação é melhor ou pior? Por quê?

Heni Ozi Cukier: O Brasil é um país muito grande com mercados imensos, o que faz com que o mesmo seja visto, naturalmente, como uma potência econômica. No entanto, os estrangeiros enxergam o Brasil como uma potência subutilizada, tendo em vista a quantidade de riquezas e o enorme potencial do mercado consumidor do país.

Poderíamos estar muito mais desenvolvidos se não fossem os diversos entraves burocráticos que fazem com que o Brasil ainda seja uma incógnita. Existe um ranking chamado Doing Buisness, que classifica o Brasil como um dos piores países para se fazer negócio, e, como falei anteriormente,  o estrangeiro tem consciência disso.  Apesar de todo nosso potencial, os investidores e empresas pensam muito antes de ingressarem no país.

Sincodiv-SP Online: Na sua visão, quais ações devem ser concretizadas para diminuir essa burocracia que tanto atrapalha o país?

Heni Ozi Cukier: Precisamos de uma reforma trabalhista, reforma no Judiciário, reforma fiscal e uma reforma política, que resultem em uma desburocratização do Estado brasileiro. É necessário diminuir o tamanho da máquina. São aspectos que demandam iniciativa e capital político, ou seja, quem chegar ao poder tem a obrigação de trabalhar para que isso aconteça por mais que no primeiro momento tais medidas possam ser consideradas impopulares.

Também temos que entender que respeitar direito de propriedade é extremamente importante para o desenvolvimento econômico. Por exemplo, um Bill Gates da vida que está pensando em criar uma empresa de software no Brasil não vai tocar o projeto à frente, pois grande parte da população brasileira compra softwares piratas.

Não investimos no futuro e não investimos em tecnologia porque no Brasil não existe respeito ao direito de propriedade, seja ela física ou intelectual. Ninguém quer gastar dinheiro em pesquisa para um trabalho que não tem garantia de que será respeitado.

O filme Tropa de Elite foi uma excelente produção e muita gente foi lá e assistiu pirata! Com isso, a indústria cinematográfica brasileira não se desenvolve, o mesmo serve para outros segmentos.

Nosso país é uma terra onde todos querem tirar vantagem do próximo, temos que tratar o direito a propriedade como algo sagrado para que possamos nos desenvolver e não sermos mais dependentes da tecnologia de outros países.

Sincodiv-SP Online: Como a dependência de produtos primários pode atrapalhar o desenvolvimento econômico do Brasil?

Heni Ozi Cukier: É um retrocesso, pois a commodity não possui valor agregado. O ideal é começar vendendo commodity para depois ir passando por indústria, comércio e serviços, que é o que acontece com os Estados Unidos. A desindustrialização do Brasil é muito ruim para o país, visto que é extremamente difícil recuperar uma indústria.

O Brasil precisa tomar decisões estratégicas, o que significa pensar no futuro, algo que, infelizmente, não é feito. As pessoas no Brasil ainda possuem uma mentalidade de governo e não de construção de Estado, país. 

Sincodiv-SP Online: O que esperar do crescimento econômico do Brasil para o próximo ano?

Heni Ozi Cukier: Os próximos anos serão difíceis, independentemente de quem estiver no poder. Serão feitos reajustes de preços, além de readequações de políticas econômicas e, com certeza, a população e a economia do país irão pagar por isso.

Tem muito dinheiro sendo gasto para manter as coisas do jeito que elas estão e o brasileiro não enxerga isso. Uma hora, a corda vai estourar! A Petrobras está quebrada por conta da política de congelamento de preços. Tenho certeza de que o candidato que for eleito presidente nessas eleições vai enfrentar muitas dificuldades no próximo ano.

Sincodiv-SP Online: Qual é a representatividade do Brasil dentro do cenário político mundial? Ainda prevalece a imagem de um país que preza pela política da boa vizinhança?

Heni Ozi Cukier: O Brasil pleiteia por um espaço maior no cenário internacional, mas, para isso, é necessário fazer uma escolha, visto que não dá para agradar todo mundo e ser uma grande potência mundial ao mesmo tempo. O Brasil tem que sair de cima do muro se deseja ocupar uma posição de destaque maior.

Vai chegar um momento em que o país terá que escolher um caminho e segui-lo até o fim. É inviável você se resguardar de críticas e ser amado por todos.

Costumo dizer para meus alunos que não estou lá para agradá-los e, sim, para ensiná-los. Sei que muitos não irão gostar de mim, mas esse não é o meu objetivo como professor.

Além disso, o Brasil não terá destaque na diplomacia internacional enquanto não exercer o papel de liderança na América Latina. Você não vira um líder mundial se não dominar o seu quintal primeiro e quando falo dominar, não estou dizendo que o Brasil deve invadir os países vizinhos, mas, sim, reprimir o que está errado e exaltar o que está certo.

Sincodiv-SP Online: Como você avalia a posição do Itamaraty em relação aos conflitos internacionais?

Heni Ozi Cukier: O Itamaraty tornou-se uma organização pautada por um viés ideológico, o que é extremamente prejudicial para o Brasil porque a organização deixa de fazer análises baseadas em princípios.

Defender um governante antidemocrático vai contra a nossa natureza! O país precisa ser pragmático e defender os princípios que são condizentes com sua realidade, característica e essência. Somos um país democrático, multicultural, multiétnico, aberto.

Quando o Brasil defende a Venezuela e outros países que massacram sua população, ele coloca os interesses nacionais em segundo plano.

 

 

Leia a segunda e última parte do Bate-papo com Heni Ozi Cukier, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM-SP 

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação