ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
12/03/2015 - 12:03:16
Bate-Papo com Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira - PARTE II
Por Matheus Medeiros e Juliana de Moraes
Foto: Sincodiv-SP/A. Freire "Não dá para construir algo novo sem ser por meio das crianças. É nessa idade que você cria hábitos e padrões comportamentais".

 

Sincodiv-SP Online: O que faz você crer que é preciso trabalhar com o conceito de Educação Financeira com as crianças também?

Reinaldo Domingos: Não dá para construir algo novo sem ser por meio das crianças. É nessa idade que você cria hábitos e padrões comportamentais. Então, as pessoas, em seu primeiro contato com o dinheiro, já precisam saber pelo menos um pouco de Educação Financeira para, assim, traçar seus projetos de vida, usando o dinheiro como meio para alcançar seus sonhos. Queremos criar novos e melhores cidadãos para um mundo melhor.

Para atingirmos este centro do problema, trabalhamos com nosso conceito nas escolas, onde capacitamos os professores e palestramos para os pais, assim habilitando as escolas a ensinar a Educação Financeira.

Já estamos em mais de 1500 escolas públicas e privadas, com jovens entre sete e 17 anos. Também temos um programa especial para o Jovem Aprendiz, que busca atingir a pessoa já em seu primeiro emprego.

Sincodiv-SP Online: Você começou seu trabalho com a metodologia do prático para o teórico, sendo você sua própria cobaia. Quais as principais dificuldades em transformar suas experiências de vida em algo teórico?

Reinaldo Domingos: A maior dificuldade é fazer com que o Sistema Financeiro, o mercado e o governo entendam que finanças pessoais e educação financeira são coisas diferentes. Nós lidamos com educação, comportamento e dinheiro, e não com cálculos.

Então, o principal desafio é regulamentar a profissão do educador financeiro. Até por isso, fundei a Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros), que busca fazer com que esse profissional seja respeitado como condutor de mudanças na vida das pessoas.

As pessoas olham para o mundo dos negócios, querendo ganhar 0,1% de lucro em cima de suas aplicações, mas esquecem que não tem dinheiro guardado nem para investir. Precisamos trabalhar para colocar o conceito de Educação Financeira no mundo, até acima das finanças pessoais.

Sincodiv-SP Online: Qual o tamanho da dificuldade do brasileiro em lidar com seu dinheiro?

Reinaldo Domingos: O brasileiro tem uma grande dificuldade criada pela própria estrutura de formação de vida criada por ele. Eu diria que o problema é maior e está relacionado com a falta de uma educação de qualidade.

Na questão financeira, o brasileiro nunca teve – ante pouco tempo -, efetivamente, a oportunidade de ser educado, por isso, o trabalho com as crianças assume papel tão importante. Os jovens são o elo de ligação com o futuro e os mais velhos precisam passar por um momento de sacrifício em prol dos jovens.

Se pensarmos nos funcionários de concessionárias de veículos em São Paulo, é como dizer que a maioria tem seus hábitos de consumo e nunca aprendeu a poupar para realizar sonhos. No entanto, essas pessoas, como pais e mães de jovens brasileiros, precisam começar a entender a importância da educação financeira.

Para isso, precisam diagnosticar sua atual condição econômica e saber para onde vai cada centavo do seu salário; estabelecer metas e sonhos para sua vida - de preferência, sonhos de curto, médio e longo prazo; orçar e saber quanto de dinheiro que ele precisa ter para realizar esses sonhos; e poupar o suficiente para isso.

Além disso, o trabalhador também precisa incentivar seus filhos a conviver com  educação financeira, seja por meio da escola, da internet ou em casa.

Sincodiv-SP Online: Quais são os países onde suas respectivas populações (de uma forma geral) fazem um bom trabalho de educação financeira?

Reinaldo Domingos: Cingapura é a maior referência no trabalho aos jovens, mas muito na questão da poupança e das finanças pessoais, o que já representa um grande avanço em comparação com o restante do planeta.

O Brasil está com a grande chance de promover a educação financeira por meio da metodologia DSOP. Em 22 de dezembro de 2010, em uma das suas últimas ações como presidente, o Lula assinou um decreto que criou a Enef (Estratégia Nacional de Educação Financeira), que conta com a participação de bancos e associações. Nós nunca fomos chamados, nem como representantes da DSOP, nem pela Abefin.

Isso mostra que o governo federal é muito posicionado em cima do mundo das finanças pessoais e das grandes corporações. Mas, enquanto isso, vamos trabalhando com a divulgação da nossa metodologia, tentando atingir o povo. Por isso, atuamos com escolas públicas, com livros baratos e projetos populares.

Existe um detalhe importante pouco abordado sobre isso: as pessoas falam que os alunos da rede pública não têm dinheiro, mas isso é mentira. A maioria deles tem telefone e internet em casa, por exemplo. O maior problema é saber como poupar esse dinheiro para usá-lo como um impulso para a melhoria de vida e é justamente em cima disso que a DSOP atua.

É plenamente possível, apenas no primeiro passo da metodologia – “o diagnosticar” – as pessoas se surpreenderem em como gastam com qualquer coisa. Estudos apontam que cerca de 20% do que as famílias gastam são excessos.

Sincodiv-SP Online: Como você enxerga o patamar da Educação Financeira no futuro?

Reinaldo Domingos: Eu vejo a Educação Financeira muito mais enraizada no Brasil nos próximos anos, com quase todas as escolas trabalhando o tema com os jovens, com as empresas percebendo a importância do assunto para a melhoria do desempenho de seus colaboradores e com o governo se importando mais com o uso consciente do dinheiro dos cidadãos.

Mas a maior mudança se dará em 20 anos, quando teremos uma grande mudança de geração dos trabalhadores, onde as crianças que hoje estão tendo contato com a educação financeira serão funcionárias e saberão orçar, poupar e cuidar de suas economias. Então, teremos um país mais saudável financeiramente.

Sincodiv-SP Online: Um de seus mais famosos livros se chama “Livre-se das dívidas”. Quais são as principais dicas que você daria para os endividados?

Reinaldo Domingos: Fazer uma faxina financeira e buscar por instrumentos que possam auxiliar-los nesse processo. Não são “planilhas milagrosas”, mas livros e conteúdos comportamentais, que contribuem para a mudança de hábitos de consumo.

Outro ponto importante, que nunca pode ser esquecido, são os projetos de vida. As famílias que estão passando por problemas financeiros precisam se reunir e pensar em sonhos e projetos de vida - entre eles, obviamente, sair das dívidas.

E capitalizar esse planejamento em cima dos quatro pilares da DSOP: diagnosticar, sonhar, orçar e poupar.

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação