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Seção Entrevista
14/05/2015 - 09:27:27
Bate-papo com a sommelière cervejeira, Kathia Zanatta, sócia-diretora do Instituto da Cerveja
Por Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
Foto: Divulgação Primeira brasileira a se formar como sommelière de cervejas no exterior, Kathia Zanatta é sócia-diretora do Instituto da Cerveja

 

Desde o início de maio, está em vigor um novo sistema de imposto federal sobre a cerveja. De acordo com Heloísa Lupinacci, colunista de O Estado de S. Paulo”, a alta chega a 1000% em alguns casos. A bebida, tão querida entre os brasileiros, ficou, em média, 20% mais cara para o consumidor.

A Receita Federal definiu que cerveja especial, com direito a desconto de 20% nos tributos, é aquela feita com pelo menos 75% de malte ou cevada, o que exclui cervejas de trigo e cervejas experimentais – e divertidas, como as que levam frutas em sua composição.

Enfim, dada a má notícia, vamos à boa. No Brasil, quando falamos em cervejas especiais, Kathia Zannata é considerada referência. Com passagens por grandes empresas, como a alemã Paulaner e Schincariol (atual Brasil Kirin), Kathia foi a primeira brasileira a se formar como sommelière de cervejas no exterior, mais precisamente na Doemens Akademie, situada em Munique, na Alemanha.

Apesar da carreira consistente, a mente empreendedora falou mais alto. Após criar, com dois colegas de trabalho, um curso de sommelier de Cervejas para a ABS (Associação Brasileira de Sommeliers), o primeiro do tipo no país, Kathia e seus parceiros estruturaram, em 2012, o Instituto da Cerveja, que capacita e especializa sommeliers de cerveja.

Nesta entrevista exclusiva ao portal do Sincodiv-SP, conheça mais sobre a história desta empreendedora que desbravou caminho em um universo reconhecidamente masculino, e a bebida “queridinha dos brasileiros”, que atualmente pode ser tomada em versões elaboradas (e agora ainda mais caras por conta da nova onda de tributos lançados em 2015):

Sincodiv-SP Online: Uma mulher no universo da cerveja é, no mínimo, curioso. Conte-nos sobre sua trajetória profissional.

Kathia Zanatta:Estudei da quinta série até o terceiro colegial em uma escola alemã. Essa experiência fez com que eu me identificasse com a cultura do país, no entanto, eu não tinha interesse e nem gosto por cerveja. Minha paixão pela bebida iniciou-se na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde eu cursava Engenharia, mais especificamente em uma matéria da grade do curso que se chamava Tecnologia de Bebidas.

Concidentemente, após cursar a disciplina que motivou todo meu gosto pelo processo de produção cervejeiro, conheci, na própria Unicamp, uma intercambista da Alemanha e passei a mapear alguns contatos com ela para que eu tivesse uma experiência em alguma cervejaria do país.  Ela me auxiliou a conseguir o contato de alguns gestores da Paulaner, que fica em Munique e, após algumas trocas de e-mails e outros processos, desembarquei na cidade bávara para estagiar na companhia.

Permaneci por um ano na empresa, onde passei por todas as áreas do processo produtivo. Foi uma experiência riquíssima! Após retornar ao Brasil, faltando cerca de um ano para a minha graduação, consegui um estágio na Brasil Kirin, que na época era a Schincariol.

O momento em que ingressei na empresa foi especial, pois a cervejaria acabara de adquirir as marcas Eisenbahn e Baden Baden, então microcervejarias pioneiras em rótulos especiais no Brasil.

Continuei na companhia após me formar na Unicamp e, em 2008, por conta da minha experiência anterior, fui mandada pela empresa à Doemens Akademie, situada em Munique, na Alemanha, para fazer um curso de sommelier, uma vez que não havia capacitações do tipo no Brasil. Retornei ao país como a primeira brasileira formada como Sommelière de Cervejas.

Sincodiv-SP Online: E a respeito do processo de fundação do Instituto da Cerveja?

Kathia Zanatta:Em 2010, o Estácio Rodrigues, sócio do Instituto da Cerveja, que na época era executivo de marketing no Grupo Schincariol, fez contato comigo e com o Alfredo Ferreira, também sócio do Instituto e ex-executivo da companhia, para que fosse criado um curso de Sommelier de Cervejas, que seria destinado à ABS (Associação Brasileira de Sommeliers).

Desenvolvemos o projeto e, em agosto de 2010, inauguramos a primeira turma de sommeliers de cerveja do Brasil.

Por mais que a parceria com a ABS estivesse indo muito bem, decidimos, por conta do aumento da demanda pelos cursos, formatar, em 2012, o Instituto da Cerveja, primeira instituição do Brasil com foco na capacitação e especialização de sommeliers de cerveja.

Com o crescimento exponencial do interesse das pessoas por nossos cursos, inauguramos, em 2014, o espaço físico do Instituto, que está situado em Moema, na capital paulista.

Sincodiv-SP Online: Quais são as principais frentes de atuação do Instituto da Cerveja?

Kathia Zanatta:Atualmente, temos desde cursos introdutórios até cursos especializados, como Mestre em Estilos e Especialização em Harmonização, por exemplo. A escola já formou cerca de mil sommeliers de cerveja, funcionando em salas certificadas em várias cidades brasileiras.

O Instituto também oferece consultoria e soluções para os mais diversos projetos cervejeiros. Por conta de nossa visibilidade, nos tornamos uma referênciapara os players do mercado brasileiro de cerveja especial.

Ainda promovemos eventos, palestras, workshops e treinamentos, que auxiliam na divulgação das cervejas especiais e no entendimento dos mais diversos públicos sobre as peculiaridades do produto.

Por fim, realizamos um trabalho consistente de comunicação para noticiar todas as nossas ações, tanto na mídia, que é um parceiro importantíssimo na disseminação das cervejas especiais, quanto nas redes sociais.

Sincodiv-SP Online: Qual é o público do Instituto da Cerveja?

Kathia Zanatta:Misturado, com cerca de 20% a 25% sendo mulheres, número que, apesar de baixo, representa um grande crescimento na comparação com o período de início das nossas atividades. Por conta da variabilidade dos cursos ministrados no Instituto, nosso público é muito heterogêneo.

Temos desde pessoas que ingressam no Instituto porque possuem a cerveja como um hobby, até aqueles que desejam trabalhar (ou já trabalham) com o produto de alguma forma.

Diria que as caraterísticas que as pessoas que fazem nossos cursos têm em comum é a estabilidade financeira e, principalmente, o interesse e paixão pela boa gastronomia. É um público que busca o prazer de uma experiência em detrimento de uma rápida refeição.

Sincodiv-SP Online: Como você enxerga o ingresso de grandes empresas, como a Ambev, por exemplo, no mercado de cerveja premium?

Kathia Zanatta:Vejo o movimento dos grandes produtores de cerveja como um caminho sem volta.  Tenho total convicção que essas companhias irão trazer ótimos produtos para o consumidor.

Além disso, acredito que uma empresa não pode ir contra um movimento do mercado e sim adaptar-se a ele, o que foi o caso das grandes produtoras.

O mercado consumidor do Brasil é um dos maiores do mundo e o mercado brasileiro de cerveja especial, apesar de ainda ser incipiente, está em franca ascensão.

O timing dos grandes grupos no ingresso no mercado de cervejas especiais foi, na minha visão, extremamente acertado, uma vez que o potencial de crescimento é enorme.

Sincodiv-SP Online: Na sua visão, alguns players irão perder espaço por conta desse movimento?

Kathia Zanatta:Na verdade, o ingresso dos grandes produtores no mercado de cerveja especial é o “abre alas” para a massa consumidora do país. São companhias que possuem verbas para fazer uma divulgação maciça desses novos produtos, fator que certamente coloca as cervejas especiais em evidência.

Ao trazer visibilidade para as cervejas especiais, as grandes marcas estão beneficiando todos os players desse mercado. Uma pessoa que só bebe cerveja tradicional e experimenta um produto diferenciado irá atrás de outras cervejas que ofereçam algo parecido. O consumidor de cerveja especial não é fiel e deseja conhecer e degustar o máximo de rótulos e opções possíveis.

A variedade oferecida pelas cervejas especiais incentiva uma contribuição entre todos os players, visto que se uma empresa está indo bem ou investindo nesse mercado, ela está atraindo visibilidade e, consequentemente, mais consumidores para as cervejas especiais.

Sincodiv-SP Online: Quais são os principais entraves para o crescimento do mercado de cervejas premium no Brasil?

Kathia Zanatta:Não tenho o número exato de cabeça, mas sei que o mercado de cerveja especial cresce, aproximadamente, 20 vezes mais rápido que o de cerveja normal. É realmente um “boom”. Na minha visão, as grandes ameaças ao crescimento e a consolidação da cerveja especial no Brasil estão relacionadas com o momento econômico do país.

A alta do dólar encarece, e muito, a produção dessas cervejas, além disso, temos a inflação e a questão tributária. Porém, o maior dos desafios é, sem dúvidas, a questão da água, principalmente para os produtores do Sul e do Sudeste.

As grandes produtoras de cerveja possuem poços artesianos, além de disporem de outras tecnologias. Já para os produtores em menor escala é extremamente caro manter um poço artesiano profundo.

Como você pôde perceber, todas as problemáticas e ameaças que envolvem o mercado de cervejas especiais são questões macro ambientais. Por conta disso, fica muito difícil fazer uma projeção para o crescimento do mercado de cervejas especais para um futuro próximo.

 

 

Leia a segunda e última parte do Bate-Papo com a sommelière cervejeira, Kathia Zanatta, sócia-diretora do Instituto da Cerveja

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação