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Seção Entrevista
23/07/2015 - 09:47:51
Bate-papo com Nelson Guanaes, inventor de máquina que transforma esgoto em água limpa - PARTE II
Por Matheus Medeiros, Cauê Rebouças e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire "A maior parte das pessoas que abre uma empresa no Brasil ou é louca ou desinformada, porque é muito desafiador", brinca Nelson Guanaes.

 

Sincodiv-SP Online: Em sua opinião, qual é a importância da tecnologia e inovação em momentos de crise?

Nelson Guanaes: Em momentos de crise, como o atual, os empreendedores precisam procurar por diferenciais de mercado e a inovação é um deles. Mas, na verdade, a inovação é essencial em todos os momentos, não apenas na crise, já que ela gera, além de diferenciais, muita experiência, o que é sempre importante.

Sincodiv-SP Online: Um dos nichos em que atua é a dessalinização da água do mar. Como os órgãos públicos e as indústrias podem utilizar esse tipo de tratamento para suas atividades?

Nelson Guanaes: Em primeiro lugar é válido destacar que, salvo poucas exceções, não temos, no Brasil, grandes atividades produtivas que dependam da água do mar. Normalmente, quando uma indústria se instala em determinado local, ela já pensa na distribuição de água.

Dessa forma, a dessalinização da água do mar é mais utilizada para demanda de água potável da população.

No âmbito industrial, realizamos, por exemplo, uma obra para a mineradora Vale, no Peru, para produção de fosfato, que utiliza muita água. Era uma situação em que o fosfato estava no mar, mas precisava de água não salgada para ser produzido.

Nós também trabalhamos na implantação do único sistema público de dessalinização da água do mar do país, que acontece em Fernando de Noronha (PE).

Sincodiv-SP Online: Você acredita que alternativas de reutilização de água ainda não são levadas muito a sério no Brasil?

Nelson Guanaes: A questão é que a água sempre foi um recurso natural considerado praticamente inesgotável, mas temos que ter em mente que a água tem um valor econômico e, se você não o atribuir a ela, o desperdício é inevitável.

Agora, criam-se situações nas quais esse reconhecimento de valor econômico faz com que a importância de processos de reuso aumente. Não que as alternativas de reutilização não sejam levadas a sério, mas nunca se criaram formas de incentivo.

Sincodiv-SP: Quais são as melhores maneiras de incentivar novos tratamentos de água e evitar o desperdício?

Nelson Guanaes: Entre as possíveis formas estão alternativas como onerar o gasto de água, valorizar a tecnologia de reutilização e conscientizar a população de que água é um bem escasso e que podemos viver longos períodos de seca.

E, nesse ponto, São Paulo está liderando agora, porque sofre com esse problema de forma terrível, afetando a todos. Você vai ao cabeleireiro e não pode nem lavar o cabelo por falta de água. E, por isso, esse é um momento de conscientização e incentivo a alternativas de reuso de água.

Sincodiv-SP Online: Em uma empresa de saneamento no setor público, em São Paulo, por exemplo, quais seriam as primeiras medidas a serem tomadas?

Nelson Guanaes: As primeiras medidas seriam fazer o que não se faz atualmente. Eu trabalharia, por exemplo, em cima do contexto de que não há, hoje, falta de água em São Paulo. Temos abundância de água nos rios Tietê e Pinheiros, por exemplo, mas eles estão poluídos. Não falta água, falta tratamento.

Eu focaria no tratamento de água e, paralelamente, criaria uma multa forte – até interrupção da atividade – para as indústrias que estão poluindo os rios. No entanto, é válido destacar que muitas não poluem, já que o maior poluidor é a própria população, por causa da desorganização urbana.

Dessa forma, trabalharia também em prol da reorganização da cidade, já que as pessoas que hoje moram perto dos córregos, além de poluir os rios, prejudicando toda a cidade, estão sendo contaminadas com doenças ali disseminadas.

Sincodiv-SP Online: Como as tecnologias de reuso de água são recebidas em outros países?

Nelson Guanaes: Os problemas encontrados em toda a América Latina são muito parecidos, como a falta de água por questões climáticas e a má organização das cidades. A questão de desperdício e a não reutilização da água é cultural nessa área.

Nos países desenvolvidos, é diferente. No Japão, por exemplo, os prédios já são construídos com tecnologia para reuso de água, enquanto que em Cingapura, se aproveita muito a água de chuva, do esgoto e do mar, por ser uma ilha, além disso, o governo realiza um grande trabalho de educação e conscientização sobre o tema que começa com as crianças.

Mas tal mudança cultural, fatalmente, chegará ao Brasil e, com o problema da escassez atual, esse processo tende a se acelerar.

Sincodiv-SP Online: Você acredita que os problemas relacionados à água no Brasil serão resolvidos no futuro, então?

Nelson Guanaes: Com certeza, o futuro do país relacionado à essa questão vai ser melhor. Vão acontecer cada vez mais investimentos em cima de novas tecnologias de tratamento de água. E só a tecnologia pode resolver problemas contemporâneos, como o saneamento básico e a falta de água.

Hoje, não basta o cloro para “limpar” a água do esgoto, já que existem contaminantes químicos que a própria atividade humana produziu, a partir de processos farmacêuticos, como o antibiótico e o anticoncepcional, por exemplo.

Então, esse é um caminho sem volta. Ou o país investe no tratamento e novas soluções para a água ou teremos sérios problemas.

 

 

 

 

Edição e revisão:
Moraes & Mahlmeister Comunicação