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Seção Entrevista
23/07/2015 - 16:02:34
Bate-papo com Nelson Guanaes, inventor de máquina que transforma esgoto em água limpa
Por Matheus Medeiros, Cauê Rebouças e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire Nelson Guanaes, presidente da Perenne - empresa de tecnologia em tratamento de água - e inventor da Renascente, primeira estação do Brasil de tratamento capaz de transformar esgoto em água limpa.

 

“A crise hídrica que vivemos atualmente, certamente pode ser explicada pela falta de adoção de tecnologias para tratamento de água. O fato de o país desperdiçar tanta água e ter que buscar água cada vez mais longe tem um custo enorme em cadeia para as pessoas e indústrias. Portanto, é um desperdício imenso não usar, por exemplo, o esgoto para reuso, além de outras inúmeras tecnologias”.

A afirmação acima é de Nelson Guanaes, presidente da Perenne – empresa de tecnologia em tratamento de água – e inventor da Renascente, primeira estação do Brasil de tratamento capaz de transformar esgoto em água limpa.

Em entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, Guanaes falou sobre sua trajetória pessoal e profissional, a falta de incentivo para alternativas de reutilização de água e a importância da tecnologia e da inovação em momentos de crise.

Sincodiv-SP Online: Nelson, conte um pouco da sua história pessoal. Como surgiu seu espírito empreendedor e inventor?

Nelson Guanaes: Essa minha vocação empreendedora vem de uma convivência com a região do Nordeste. Trabalhei por muitos anos como executivo de uma empresa de engenharia lá e pude identificar e conviver com o problema de falta de água nessa região do país.

Nessa companhia, trabalhei na área de perfuração de poços e, nesses processos, a gente lacrava as tubulações pelas quais passavam água não potável (muito salinizada, na maioria das vezes), sendo que a população da região sofria com a falta de água.

Procurei alternativas para tornar essa água potável, buscando soluções de dessalinização. E, a partir da minha experiência de trabalho com grandes obras e tecnologias, bem como a experiência dos outros membros da diretoria e corpo técnico, e com o objetivo de desenvolver tecnologias limpas, a Perenne nasceu, em 1991.

O que me motivou foi procurar solucionar problemas e aproveitar tais necessidades para me desenvolver. Na verdade, posso dizer que toda minha vida profissional é guiada por esse processo de identificação do problema e busca pela solução.

Sincodiv-SP Online: Qual é sua formação profissional?

Nelson Guanaes: Por incrível que pareça, fiz Comunicação Social na Faculdade Cásper Líbero e estagiei na Editora Abril. No entanto, como já trabalhava com Engenharia antes da Comunicação, acabei voltando para a área, sendo que até comecei a fazer um curso de Engenharia, que não completei porque viajava muito.

Com todas experiências profissionais que vivi, entendi o seguinte: para você traçar um plano de carreira, você não necessariamente precisa ir pelo caminho mais lógico. Como empreendedor, você precisa arriscar, definir um objetivo e ir atrás disso.

Sincodiv-SP Online: Como foram os primeiros passos da Perene?

Nelson Guanaes: Como empresa, o começo foi desafiador, por causa dos riscos vividos por um empreendedor no Brasil. Aqui já existem custos desde a fundação da empresa, antes da receita. Digo até hoje que a maior parte das pessoas que abre uma empresa no Brasil ou é louca ou desinformada, porque é muito desafiador.

Desde a fundação da Perenne, sempre tivemos muito foco e traçamos um plano de negócios que atendesse à necessidade de fornecer água para a população nordestina, em primeiro lugar.

Sincodiv-SP Online: Quais os principais focos da Perenne?

Nelson Guanaes: Em geral, trabalhamos no desenvolvimento de tecnologias “limpas” e soluções ambientais para gerar produtos e serviços de tratamento e reuso de água e efluentes, apostando, principalmente, na recuperação de mananciais de superfície ou subterrâneos.

Nossos principais focos de trabalho são tratamentos de reuso de água poluída; dessalinização de água do mar; dessalinização de água extraída de poços artesianos; tratamento de água para uso em caldeiras; e secagem de lodo, com separação de sólido e líquido, e com o posterior reaproveitamento da água gerada nesse tratamento.

Sincodiv-SP Online: Em que momento o senhor criou e desenvolveu a Renascente – primeira estação de tratamento de água brasileira capaz de transformar esgoto em água limpa? O que motivou a sua criação?

Nelson Guanaes: Isso foi uma consequência da atividade da empresa, de buscar soluções. Começamos, em 1991, questionando “onde temos água no Nordeste?” e a resposta era “no mar”, então trabalhamos em cima da dessalinização.

Agora, encontramos o problema da água poluída e buscamos a solução na despoluição. Daí vem o incentivo ao reuso, que é uma palavra nova sobre um conceito antigo, já usado na época do império Romano – eles utilizaram, por muito tempo, aquedutos para trazer água de lugares distantes (o que gerava um gasto imenso) e, depois de décadas, começaram a tratar o esgoto gerado, ainda que de maneira primária.

Então a nossa motivação é a necessidade e a busca por soluções. Existem carências e oportunidades e temos de nos diferenciar para exercer nossa atividade da melhor forma possível.

Sincodiv-SP Online: Como funciona a estação de tratamento?

Nelson Guanaes: A partir do conhecimento da qualidade da água, você pode definir uma engenharia de processos, que determina as etapas do tratamento. A operação mais fácil e segura é a da água do sanitário, já que ali se sabe o que existe, tudo é biológico.

O processo para a água do sanitário começa com um tratamento aeróbio (por meio de bactérias), onde se separa essa massa de produção do esgoto doméstico da água, que ainda contém os contaminantes biológicos.

Por isso, esse líquido passa por um segundo processo, que é o tratamento por membrana, que faz com que essa água alcance um alto grau de pureza, podendo ser usada, por exemplo, para limpeza e irrigação, mas que ainda não é potável – porque a legislação ainda não permite – mas que pode vir a ser por meio de mais uma etapa de tratamento.

Existem países onde esse tratamento de água de esgoto para potável já é uma realidade e a tendência é que aqui no Brasil isso também aconteça, até porque a unidade de tratamento pode proporcionar uma economia de até 30% na conta de água. O que pode parecer pouco para uma pessoa, mas é um grande valor para indústrias e comércios de larga escala, como shoppings, por exemplo.

Sincodiv-SP Online: E quanto ao preço dessas tecnologias? São caras, baratas? A indústria está investindo?

Nelson Guanaes: O preço da tecnologia de reuso de água do esgoto é praticamente o mesmo no Brasil e no exterior. O preço da energia aqui é mais baixo e ele é um componente importante do custo. Infelizmente, a tendência é aumentar o custo aqui, por causa do aumento do preço da energia.

Atualmente as vendas estão fracas porque, com a economia em recessão, a indústria, que é um potencial consumidor dessa inovação, não está investindo.

O pensamento atual das indústrias é o seguinte: bem, estou preocupado porque estamos com escassez de água limpa e não posso operar minha indústria sem água, por outro lado, minha produção está diminuindo, então não sofro tanto com a falta de água, então não posso investir em novas soluções.

Sincodiv-SP Online: E para mudar esse quadro precisamos...

Nelson Guanaes: Há a necessidade de o Brasil retomar o crescimento e voltar a ter estabilidade econômica. Dessa forma, o mercado aparece porque esse investidor em aumento de produção vai perceber, ainda mais, a importância da água. Há atividades industriais que não operam sem água, como as indústrias têxteis e de papel e celulose, por exemplo.

Sincodiv-SP Online: O reuso da água de tratamento de esgoto ainda é pouco aproveitado aqui no Brasil. É uma tecnologia muito complicada?

Nelson Guanaes: É difícil vender tratamento de esgoto por uma questão cultural, mas nós desenvolvemos um equipamento que tem um design premiado, não emite cheiro e que pode ser colocado em um shopping, utilizando, no máximo, duas vagas de garagem.

Pense no seguinte, com duas vagas de estacionamento, um shopping pode tratar o esgoto produzido e usar a água limpa gerada para limpeza, irrigação de plantas ou no sistema de resfriamento e refrigeração.

No estado de São Paulo, por exemplo, existe muita pesquisa, até colocamos um equipamento piloto na Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), mas até gerar demanda, ainda vai demorar um tempo.

Confira a segunda e última parte do Bate-papo com Nelson Guanaes, inventor de máquina que transforma esgoto em água limpa

 

 

 

 

Produção e edição:
Moraes & Mahlmeister Comunicação