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Seção Entrevista
10/09/2015 - 07:47:09
25º Congresso da Fenabrave - Entrevista com Hélio Zylberstajn, economista coordenador do Projeto Salários da Fipe-USP
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação

Ph.D. em Relações Industriais pela Universidade de Wisconsin (EUA), o economista Hélio Zylberstajn é professor da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) e pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) – instituições da Universidade de São Paulo.

Ele capitaneou a palestra “Por que é tão Difícil Reter Talentos?” do painel organizado pelo Sincodiv-SP para o 25º Congresso da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), em 16 de setembro, na capital paulista.   

Os desafios da área de Recursos Humanos na gestão de pessoas, desempenho e remuneração e administração do turnover foram abordados pelo especialista, que é consultor do Banco Mundial, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e presidente do IBRET (Associação Instituto Brasileiro de Relações de Emprego e Trabalho).

Nesta entrevista exclusiva ao portal do Sincodiv-SP, ele traz um balanço das transformações ocorridas no mercado de trabalho neste ano, por meio da análise de dados do Projeto Salários da Fipe-USP, que divulga, mensalmente, a consolidação de dados das negociações sindicais, e do qual é coordenador.

A seguir, confira a íntegra desta conversa:

Sincodiv-SP Online: Como coordenador do Projeto Salários, da Fipe, o que o senhor vem observando por meio do acompanhamento do resultado das negociações deste ano em relação a 2014?

Hélio Zylberstajn: O Projeto Salários da Fipe (http://salarios.org.br/#/) acompanha diariamente o resultado das negociações coletivas, examinando os conteúdos dos acordos e das convenções coletivas assinados em todo o Brasil e disponibilizados no portal do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

No momento desta entrevista, os dados mais recentes deste trabalho se referem a julho de 2015 e mostram que a queda brutal na atividade econômica que nos atinge produz não apenas desemprego, como também restringe a capacidade das empresas pagarem salários e reduz o poder de barganha dos trabalhadores.

Sincodiv-SP Online: O que as convenções e acordos coletivos recentemente firmados têm possibilitado em termos de reajustes salariais?

Hélio Zylberstajn: O aumento mediano concedido no sétimo mês deste ano, por exemplo, foi 9%, mas como a inflação acumulada nos 12 meses anteriores tinha sido 9,3%, o reajuste mediano real no período foi negativo, de -0,3%.

Esse dado indica, em termos medianos, que na mesa de negociação, os trabalhadores não têm conseguido repor o poder de compra dos seus salários.

Um ano atrás, em julho de 2014, o quadro era bastante diferente! O reajuste real mediano verificado naquele mês foi positivo, de +1,4%.

Sincodiv-SP Online: Os pisos salariais negociados também foram afetados pela situação de queda da atividade econômica?

Hélio Zylberstajn: Quanto aos pisos salariais, em julho de 2015, o valor mediano dos pisos negociados foi R$932. Um ano antes, em julho de 2014, o piso mediano tinha sido de R$962 (valor já corrigido pela inflação ocorrida no intervalo).

Sendo assim, hoje, em termos reais, o piso mediano que se negocia no Brasil é 6% menor do que aquele que se negociava há um ano.

Sincodiv-SP Online: Em 2015, houve a observação de mudanças nas condições negociadas no âmbito das convenções e dos acordos coletivos para reposição dos salários?

Hélio Zylberstajn: Os instrumentos analisados no nosso projeto mostram uma elevação discreta da frequência de casos em que se estabelecem ou um escalonamento para completar o reajuste negociado, ou um teto para a aplicação dos reajustes.

Em julho de 2015, esses dois tipos de restrição ocorreram em aproximadamente 5% do total de negociações coletivas.

Sincodiv-SP Online: Há segmentos da economia em que o resultado das negociações se destacam pela pouca ou muita elevação dos salários das categorias abrangidas?

Hélio Zylberstajn: O setor mais atingido pela crise é o da Indústria, em que têm ocorrido negociações diretas entre empresas e sindicatos de trabalhadores com o objetivo de reduzir o custo da folha salarial.

Esses acordos reduzem a jornada e simultaneamente os salários. Em troca, em geral, a empresa se compromete a não demitir durante a vigência dessa tratativa.  No ano de 2015, até o mês de julho, observamos 75 casos de redução salarial.

Por outro lado, os maiores aumentos reais têm ocorrido na Administração Pública e na Limpeza Urbana. Isso indica que a forte redução da atividade econômica demora mais tempo para impactar no resultado da negociação coletiva na área pública.

Sincodiv-SP Online: O professor José Pastore, em entrevista ao Sincodiv-SP Online, afirmou que saímos “do apagão da mão de obra para o apagão do emprego”. Como o senhor avalia a situação do mercado de trabalho hoje? Existe uma solução?

Hélio Zylberstajn: O professor Pastore tem toda razão quando contrasta os dois tipos de “apagão”. É isso mesmo. E, há apenas uma maneira de reverter este quadro: voltar a crescer.

Para retomarmos o desenvolvimento mais rapidamente, vejo dois caminhos, que não são excludentes. Pelo contrário, são complementares. Um deles seria trilhado quando houver um aporte maciço de recursos para investimento em infraestrutura.

O governo teria que adotar um programa crível, transparente e inteligente de concessões para o capital e, assim, poderíamos criar um “boom” na construção pesada, com impactos relevantes na demanda de trabalho.

O outro caminho seria criar um programa de apoio às exportações para aproveitar rapidamente a virada no câmbio que desvalorizou nossa moeda e melhorou significativamente a competitividade de nossos produtos.

Neste segundo caso, o governo poderia dar uma grande ajuda, promovendo nossos produtos e destravando os procedimentos burocráticos das exportações.

 

Produção e edição

 

COMENTÁRIOS:
por: Marcelo Samogin em 21/09/2015 - 11:04:42
Excelente abordagem ! Os salários são um desdobramento da produtividade da economia e das empresas, e muito particular de cada segmento. A descrição de cargos por sua vez pode ser transformada em avaliação por competências, e ser um instrumento de aumento de produtividade para empresas de serviços. É um documento burocrático que pode ser usado a favor do negócio. Esta é a experiência da Remunerar e seus clientes.