ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
26/11/2015 - 09:49:08
Bate-papo com Antonio Carlos Teixeira, professor da FGV e ex-CEO da Brasilata, uma das empresas mais inovadoras do Brasil
Por Matheus Medeiros e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire Para Teixeira: A inovação está em qualquer canto e, muitas vezes, nos equivocamos ao pensar que ela se desenvolve apenas em grandes laboratórios, com dezenas de cientistas

Se você descobrisse que uma empresa nacional do setor de estamparia de metais foi considerada por diversos anos como uma das mais inovadoras do país, além de ser premiada como uma das melhores companhias para se trabalhar nas duas premiações mais reconhecidas do mercado, certamente ficaria surpreso.

Mas esses são apenas alguns dos prêmios de gestão que a Brasilata recebeu desde que implementou, em 1987, o Projeto Simplificação, um sistema de ideias que surgiu com o objetivo de estabelecer um canal de comunicação de mão dupla entre os funcionários e a cúpula da empresa. Desde então, a organização se tornou líder do setor e já registrou quase 1,5 milhão de ideias dadas pelos funcionários, que são contratados com duas funções: a sua de origem e a de inventor.

Uma das mentes por trás da empresa, Antonio Carlos Teixeira, foi CEO da Brasilata por 37 anos (entre 1978 e janeiro de 2015, quando saiu do cargo e assumiu a vice-presidência do Conselho de Administração da companhia) e o grande mentor do projeto, inspirado modelo japonês.

Para Teixeira – que também é professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) desde 1974 e presidente do Siniem (Sindicato Nacional da Indústria de Estamparia de Metais) há 11 anos – a inovação é a chave do sucesso de qualquer empresa.

“A inovação está em qualquer canto e, muitas vezes, nos equivocamos ao pensar que ela se desenvolve apenas em grandes laboratórios, com dezenas de cientistas. A inovação é a forma mais apropriada de uma organização crescer, por envolver tudo aquilo que dá resultado para o cliente. Se você oferece um serviço melhor e dá mais resultado para o cliente, ele vai preferir a sua empresa e pagar melhor por isso”, destaca.

Nessa entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, o professor fala sobre sua trajetória profissional, o início do Projeto Simplificação, como as empresas podem incentivar a inovação em seu ambiente, entre outros assuntos. Confira a seguir:

Sincodiv-SP Online: Professor Teixeira, conte-nos um pouco da sua história pessoal. Qual é sua formação profissional e como você entrou na Brasilata?

Antônio Carlos Teixeira: Eu sou do interior paulista e vim para a cidade de São Paulo para estudar engenharia na Escola Politécnica. Minha infância foi um pouco diferente do comum porque meu pai era oficial do exército e, por isso, morei em diversas cidades do país, como Goiânia (GO), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Campo Grande (MS), sendo que minha família se radicou em Campinas (SP).

Me formei em Engenharia de Produção e, a seguir, fiz uma pós-graduação na FGV.

Meus primeiros anos como profissional foram dentro do mercado financeiro e, depois de alguns anos, fui trabalhar na construtora do Grupo Heleno & Fonseca, também na área financeira.

O grupo tinha uma empresa metalúrgica pequena, cujo sócio e administrador resolveu sair e eu fui convidado para ser o diretor-superintendente dessa companhia – isso em 1978.

No entanto, a proposta que eu recebi era um pouco diferente já que, em vez de eu ter um salário compatível com o mercado, eu recebia menos, mas também ganhava em ações da empresa. E foi assim que eu entrei na Brasilata, onde passei os 37 últimos anos da minha vida. A empresa era pequena e eu estava imbuído de fazer com que ela crescesse.

Porém, como eu sempre gostei muito de dar aulas – tanto que, durante a faculdade, fui professor do Cursinho da Poli –, não abandonei a minha condição de professor na FGV, onde já atuava desde 1974.

Sobre meu envolvimento com o Siniem, a Brasilata era uma empresa que, conforme crescia, foi exercendo algum tipo de liderança no setor. E, naturalmente, fomos aumentando nossa participação dentro do sindicato, entrei primeiro como diretor, depois me tornei vice-presidente e, desde 2004, estou como presidente.

Sincodiv-SP Online: Como a Brasilata começou a incentivar o processo inventivo dos funcionários da empresa? Você sempre trabalhou com esse ideal inovador?

Antônio Carlos Teixeira: Digo sempre que a necessidade é a mãe da inovação, pois, em 1982, o país e o setor passaram por uma grande dificuldade, por causa da crise do México, e tivemos de buscar alternativas.

Eu, como professor, tinha acesso a diversas teorias empresariais do mundo todo, como o Modelo Toyota, que ainda estava começando a ser divulgado. E, para tentar sair do momento difícil, começamos a buscar inspiração na escola japonesa, que vinha dando certo na época.

Logo no início desse processo de mudança de cultura da empresa, percebemos que precisávamos envolver as pessoas e, assim, criamos nosso programa de ideias, que começou a puxar a criação de outros processos inovadores.

Nós começamos a criar um meio inovador interno, onde as pessoas podiam propor coisas novas, e assim conseguimos dar um grande impulso na companhia.

Nossa primeira ideia não era incentivar a inovação, mas buscar a eficiência. E quando descobrimos, algum tempo depois, que eficiência e inovação andam lado a lado, entramos de cabeça nisso. Foi assim que criamos o Projeto Simplificação, em 1987, e hoje nosso sistema de ideias é considerado um dos melhores do mundo ocidental.

O fato de desenvolvermos os funcionários a partir da posição de que a ideia da inovação vem da mente e do espírito das pessoas, fez com que nossa empresa crescesse muito e se tornasse a líder do setor. Ou seja, um momento de dificuldade fez com que nos mexêssemos e percebêssemos a importância da inovação no mercado, nos tornando líderes do setor. Por isso repito que a necessidade é a mãe da inovação.

Sincodiv-SP Online: Como as empresas brasileiras – principalmente as pequenas e médias, como as concessionárias de veículos – podem melhorar seus processos de inovação e propiciar um meio inovador internamente?

Antônio Carlos Teixeira: Não existe, pelo menos até agora, inteligência artificial criativa, então as ideias e, consequentemente, a inovação vêm dos neurônios e das mentes das pessoas. E as pessoas, para terem e entregarem boas ideias, precisam ser bem tratadas.

Assim, cuidar bem das pessoas e criar um ambiente onde elas possam dar ideias – ou seja, um programa de sugestões – propulsiona um meio inovador interno, porque se mostra que a inovação vem de todos os lugares e pessoas da organização.

As grandes companhias inovadoras do mundo têm em comum o fato de todos seus colaboradores estarem comprometidos com a inovação, a partir de um ambiente interno que incentive esse processo, o que não é algo muito fácil e comum de se fazer, mas que é possível.

Repito, é necessário criar um meio inovador interno que incentive a participação dos colaboradores, principalmente a base, nesse processo de sugestão de novas ideias. Os funcionários, por lidarem com isso diariamente, são os que conhecem melhor a gestão, os processos, o modelo de negócio e os produtos da empresa e, por isso, se incentivados a pensar em inovação, vão dar as ideias que farão mais sucesso.

 

Para ler a segunda parte da entrevista com Antonio Carlos Teixeira, professor da FGV e ex-CEO da Brasilata, clique aqui.

 

Produção e edição