ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
26/11/2015 - 09:54:39
Bate-papo com Antonio Carlos Teixeira, professor da FGV e ex-CEO da Brasilata, uma das empresas mais inovadoras do Brasil – PARTE II
Por Matheus Medeiros e Renan De Simone
Sincodiv-SP/A. Freire Antonio Carlos Teixeira foi CEO da Brasilata por 37 anos (entre 1978 e janeiro de 2015) e é professor da FGV-SP desde 1974

Sincodiv-SP Online: Em sua opinião, qual é a importância da inovação para a gestão de uma empresa?

Antônio Carlos Teixeira: A inovação é a grande estratégia de uma empresa e é a forma mais apropriada de uma organização crescer. Inovador é tudo aquilo que dá resultado para o cliente. Se você oferece um serviço melhor e dá mais resultado para o cliente, ele vai preferir a sua empresa e pagar melhor por isso. A inovação é a chave de toda estratégia para o crescimento.

Claro que, em alguns setores, a inovação é maior ou menor, mas em qualquer segmento, por mais simples que seja, o processo inovador é fantástico. A inovação está em qualquer canto e, muitas vezes, nos equivocamos ao pensar que ela é desenvolvida apenas em grandes laboratórios com dezenas de cientistas.

A inovação não está relacionada apenas ao desenvolvimento de um novo produto e sim a quatro escopos, dois voltados para dentro da empresa (gestão e processos) e dois para o mercado (modelo de negócio e produto).

As empresas inovadoras são uma minoria justamente por se contrapor a uma cultura difundida de superioridade de “quem sabe mais”. As organizações, para serem inovadores e aceitarem que todo mundo discuta sua dinâmica de trabalho, não podem ter líderes com preconceito.

Dessa forma, o CEO e os diretores, que são indiscutivelmente muito bem preparados, não podem achar que não vale a pena ouvir os “funcionários de baixo” por acreditarem que sabem mais do que eles (o que é uma mentira se pensarmos no “mundo menor” do trabalho de cada pessoa). É preciso mudar a cultura da liderança da organização, mas este é um processo longo.

 Sincodiv-SP Online: Qual foi a primeira reação dos colaboradores da companhia sobre o Projeto Simplificação?

Antônio Carlos Teixeira: Houve dois tipos de reações distintas: o pessoal da base da empresa adorou o projeto, porque eles começaram a ser ouvidos; já a média gerência teve uma reação negativa muito forte, por causa da ideia difundida de “eu sou o chefe, como é que vão dar ideia para mim?”. Naquela época, os gerentes e supervisores, em geral, vinham da base e não das salas de aula das faculdades e, por isso, eram muito inseguros.

Por isso, tivemos alguns problemas e os resolvemos proibindo os supervisores de darem ideias e os recompensando pela quantidade de ideias dadas pelos funcionários da base.

Posso afirmar que o Projeto Simplificação, apesar dessa dificuldade inicial, melhorou muito o clima da empresa, tanto que ela é, constantemente, considerada uma das melhores para se trabalhar no país.

O que aconteceu foi que o projeto andou um pouco devagar no começo, porque nós não o incentivávamos da maneira correta. Com o tempo, descobrimos a maneira correta para o projeto caminhar, que é, basicamente, responder e implementar rapidamente as ideias, estabelecer metas e celebrar os resultados alcançados, criando um meio inovador interno.

Com isso, chegamos ao nosso ritmo atual: cerca de 180 ideias dadas por funcionário a cada ano, o que resulta em, praticamente, 180 mil novas ideias por ano. Mas isso é resultado de um longo trabalho de implementação do Projeto Simplificação.

Sincodiv-SP Online: Você acredita que as empresas brasileiras vão usar a crise atual para incentivar a inovação?

Antônio Carlos Teixeira: Imagino que as empresas brasileiras irão atrás da inovação para sobreviver à crise. Agora, perceber que é preciso puxar a inovação através das pessoas é um pouco mais complicado, porque essa não é uma noção muita clara, já que pensam que a inovação vem de um gênio específico e não da soma das pessoas bem tratadas num meio inovador interno.

No ambiente de crise atual, certamente as empresas que vão ter um melhor desempenho serão as inovadoras. O problema é que a crise que vivemos, por ser estrutural, não tem previsão de acabar, o que é muito ruim para o planejamento das organizações.

Sincodiv-SP Online: O senhor dá aula para muitos alunos que, possivelmente, serão os grandes líderes de amanhã. Você acredita que o futuro, em relação à inovação e gestão de pessoas, será melhor que o presente?

Antônio Carlos Teixeira: Tenho certeza que sim. Sempre evoluímos e a tendência é essa: que as empresas e o mundo sejam melhores. Nós vamos incorporando conhecimentos e atitudes. Nós já passamos por escravidão, feudalismo e o mercado sempre evolui. Até por causa das tecnologias nós vamos trabalhar menos e pensar e produzir cada vez mais. Acredito que é inexorável o desenvolvimento humano e do mercado de trabalho.

Sincodiv-SP Online: Quais são seus próximos passos na carreira?

Antônio Carlos Teixeira: Espero ficar mais dois ou três anos como presidente do Siniem, paralelamente à minha carreira como professor, já que acredito que o bom professor é como um bom vinho, quanto mais velho, melhor (risos).

Depois, pretendo seguir apenas como professor e escritor, além de continuar participando da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), onde sou diretor do Departamento de Estudos Econômicos desde 2007 e que considero ser uma organização muito especial.

 

Produção e edição

 

COMENTÁRIOS:

Nenhum comentário cadastrado.