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Seção Entrevista
08/01/2016 - 09:44:12
Bate-papo com Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade – PARTE II
Por Cauê Rebouças e Juliana de Moraes
David Mariuz_Divulgação Alexandre Kalache, especialista em Longevidade

Sincodiv-SP Online:   De acordo com a OMS, em 2050 teremos dois bilhões de idosos no mundo. Destes, 80% estarão em países em desenvolvimento. Como preparar os países para lidar com este grande número de idosos, sendo que muitos deles ainda estarão no mercado de trabalho?

Alexandre Kalache: As pessoas que estão se formando hoje têm de perceber que elas exercerão a profissão em uma transição na história do país que nunca aconteceu antes e que nunca acontecerá depois.

O Brasil possui, atualmente, de 12,5% a 13% da população idosa. Em 2050 serão 30,50%, ou seja, será outro país. Você está se formando hoje para ser um médico, arquiteto, designer, jornalista e vai viver essa transição, isto é, ou você se educa para enxergar o que está acontecendo ou você vai continuar a se formar para o século passado.

Vou dar o exemplo médico porque é mais fácil para eu explicar. Atualmente, se você abre um atlas de Anatomia, você observa um homem no apogeu físico, com seus músculos e veias em destaque. No entanto, na prática, terá que encontrar o baço de uma mulher idosa de 80 anos, não vai dar certo! A fisiologia muda, bem como a interação de medicamentos, até mesmo a manifestação de doenças.

Sincodiv-SP Online: Quais os impactos disso?

Alexandre Kalache: Por exemplo, muitas vezes, o infarto do miocárdio em pessoas idosas não dói. Como você vai fazer uma intervenção médica, um diagnóstico, se você não sabia? E, em um futuro próximo, não precisará ser geriatra para atender pessoas idosas.

Em 2065, o Brasil terá 78 milhões de idosos, o país precisa se cuidar, saber pelo menos o mínimo, porque a revolução da longevidade tem impactos em diversos setores, desde a indústria até políticas públicas.

No Brasil, o sistema previdenciário é insustentável, não dá para continuar assim, sem uma idade mínima para se aposentar. É um conjunto de fatores, de planejamento.

Na década de 70, o Brasil e a Coreia do Sul tinham padrões socioeconômicos semelhantes. Hoje, a renda per capita da Coreia é três vezes a nossa. Isto mostra a falta de investimento, dentre várias coisas, na Educação e em todos os setores.

E qual destes países terá um processo de envelhecimento melhor?

O grande desafio nosso é que os países desenvolvidos enriqueceram antes de envelhecer e estamos passando esse processo sem esta etapa prévia, dificultando muito as coisas para nós.

Sincodiv-SP Você acredita que o Brasil esteja perdendo sua melhor chance de produtividade e de preparar sua infraestrutura para “tempos mais difíceis”?

Alexandre Kalache: Veja só... proporcionalmente, o Canadá possui o dobro de idosos do Brasil. Eles estão com 25% e nós com cerca de 12,5%. Daqui a 35 anos, o Brasil será um pouco mais velho do que o país vizinho da América do Norte.

Lá, todos estão muito preocupados com esse processo porque em 2050 eles terão cerca de 30% da população idosa e, nós, que vamos aumentar exponencialmente e ultrapassá-los, não estamos tão atentos a essa questão. Enquanto eles têm estudos, pesquisas, formam pessoas preparadas, etc., nós estamos engatinhando.

Sincodiv-SP Online: Em sua opinião, por que isso acontece?

Alexandre Kalache: É falta de vontade política. Ou nossas autoridades não estão preparadas ou se interessam apenas pelo poder, é muita negligência.

Um exemplo claro disso é que foi rejeitado, novamente, no Congresso, a instauração de uma idade mínima para se aposentar. Apenas no Brasil, Iraque e Afeganistão que isso não existe.

Aqui, há pessoas que se aposentam antes dos 50, muito complicado. Isso não se sustenta. Temos uma missão de fazer em 20 anos o que a França demorou 120 anos e a Inglaterra 85 anos para organizar.

Sincodiv-SP Online:   Vários especialistas, como a prof.ª dra. Betania Tanure, afirmam que segue ocorrendo, uma “juniorização” das equipes nas empresas brasileiras. Em sua avaliação, quais as consequências de movimentos como esse?

Alexandre Kalache: Para mim, é um paradoxo. Estamos vivendo em um período de crise e recessão econômica, precisamos mais do que nunca de pessoas com experiência e maturidade para lidar com essas questões, aumentar a produtividade.

Então, no Brasil, por conta daquela falta de investimento na educação pública, a mão de obra jovem não tem competividade. Cerca de 10% são analfabetos, mais uns 27% são analfabetos funcionais, ou seja, um terço da população está nessa condição. E a solução é aposentar a pessoa com experiência, produtiva, que sabe segurar as pontas, com 50 anos?

O bônus demográfico traz cada vez mais jovens ao mercado, porém, aqui, grande parte é desqualificada, enquanto os mais velhos e experientes, são subaproveitados. Ou seja, não aproveitamos a massa jovem e nem os mais velhos. É paradoxal.

Sincodiv-SP Online: Ante este contexto, como as pessoas com idade mais avançada podem se destacar no mercado de trabalho?

Alexandre Kalache: É muito difícil. A pessoa mais velha vai ser contratada por quem? Pelo júnior, que não pensa em contratar pessoas mais maduras e experientes? Na mídia, as imagens que temos são sempre de pessoas mais novas. A juventude, o belo, são todos jovens, jovens, jovens. Como dar uma voltar por cima contra a maré? Crise econômica, desemprego aumentando, é difícil essas pessoas se reinserirem.

No longo prazo, é preciso de políticas que considero de envelhecimento ativo. O conceito se baseia em quatro fundamentos: Saúde; Conhecimento, isto é, continuar um processo de aprendizado, para todos os profissionais, não apenas acadêmicos, mas os mecânicos, eletricistas; Participação, o equivalente ao Estatuto do Idoso aplicado e seguido; e Segurança, tanto financeira, quanto física. E todos estes devem estar interseccionados, ligados um ao outro.

Esses são os pilares que podem auxiliar jovens e adultos a se preparem para o mercado de trabalho no futuro. Para mim, o futuro vai ser mais divertido em relação aos processos de envelhecimento. Com mais oportunidades, com protagonismo, podendo escolher o que se considera melhor, e com uma aposentadoria gradual.

Sincodiv-SP Online: Idosos e jovens são distintos, tanto biologicamente quanto psicologicamente. Com o crescimento do número de idosos nos próximos anos, como conseguir que essas duas gerações trabalhem de forma a se agregarem?

Alexandre Kalache: Estudos sobre o impacto de um idoso no ambiente de trabalho mostra que a presença de pessoas mais velhas apara arestas, deixa o ambiente mais equilibrado, reduz o absenteísmo, etc. Provamos isso em pesquisa.

Eu, por exemplo, não posso fazer hoje o que fazia aos 30 anos de idade, e o que realizo atualmente não poderia fazer naquela época. São períodos diferentes, papéis diferentes, que dialogam entre si. É a complementaridade de uma geração mais rápida, informativa, que domina completamente os meios digitais, com outra que possui um ritmo diferente, com mais paciência, maturidade e conhecimento, que freia os ânimos, deixa o ambiente melhor e auxilia nas tomadas de decisões.

 

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