ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
08/01/2016 - 09:56:13
Bate-papo com Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade
Por Cauê Rebouças e Juliana de Moraes
David Mariuz_Divulgação Alexandre Kalache, especialista em Longevidade

Hoje, no Brasil, 12,5% da população é idosa. Em 2050, tal proporção será maior do que 30%, isto é, quase um terço dos brasileiros será idoso. Isso aponta para o fato de que, se algumas ações não forem tomadas, o país não conseguirá acolher de forma adequada essas pessoas. “Temos uma missão de fazer, em 20 anos, o que a França demorou 120 anos e a Inglaterra 85 anos. É muito complicado”.

Quem explica é o carioca, de Copacabana, Alexandre Kalache, que realiza palestras pelo mundo sobre os Processos de Envelhecimento e a importância de medidas públicas serem tomadas para garantir que esse desenvolvimento ocorra bem, em especial nos países subdesenvolvidos. 

Formado em Medicina pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Ph.D. em Epidemiologia pela Universidade de Londres, na Inglaterra, ele é o principal representante brasileiro no grupo especialistas em Envelhecimento.

Entre folhas, frutas e carne branca – em um prato de almoço exemplar –, no intervalo de suas escalas entre Japão, Inglaterra, México, Bangladesh, etc., ele conversou com o Sincodiv-SP Online durante uma passagem pela capital paulista.

Kalache contou a respeito de sua trajetória, apontou a importância de “envelhecer bem”, os problemas previdenciários que o Brasil enfrentará e as vantagens de se ter idosos e jovens interagindo no mesmo ambiente de trabalho.

Acompanhe a entrevista com Alexandre Kalache na íntegra a seguir:

Sincodiv-SP Online: Conte-nos um pouco sobre sua carreira na área de Saúde.

Alexandre Kalache: Na adolescência, durante uma viagem com minha família por Ouro Preto (MG), fui influenciado pelo encontro com João Yunes, um médico sanitarista fantástico. Eu tinha 14 anos.

Ele estava com uma turma de estudantes de Medicina do primeiro ano da USP (Universidade de São Paulo) e transpirava tanta confiança que convenceu a minha mãe para que eu passasse o resto da excursão com seu grupo.

O fato de eu ter conhecido essa pessoa carismática, e que tinha escolhido ser médico de Saúde Pública, foi uma influência muito grande. Já entrei na faculdade sabendo que não queria ser clínico, muito menos cirurgião, mas um profissional de Saúde Pública.

Sincodiv-SP Online: O senhor estuda Envelhecimento há mais de 30 anos, de onde surgiu o interesse de seguir carreira acadêmica no tema?

Alexandre Kalache: O interesse vem da minha formação e da minha infância, repleta de idosos na família. Minha primeira especialização foi em Doenças Infecciosas – Medicina Tropical. Eu achava que, para ser médico sanitarista, tinha de entender das doenças infecciosas que matavam muito no país.

Mas, então, houve a ditadura. Para você ser um médico sanitarista, de Saúde Pública, quem te emprega é o governo. E eu era um rosto marcado porque havia feito muita política universitária na UFRJ. Era visado, por isso, não teria oportunidades.

Por exemplo, cheguei a fazer concurso e me disseram: “você tirou o primeiro lugar, mas não vai ganhar bolsa porque seu pai é rico e você tem ideias muito estranhas”. Era arbitrário, não tinha como discutir.

Assim, pensei: a melhor forma de me fortalecer é melhorar minha formação! E, assim, trabalhei para conseguir uma bolsa de estudos pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e Fundação Ford para ir à Inglaterra para aprender Ciências Sociais Aplicadas à Saúde.

Mais ou menos dois meses depois de “expatriado”, vi uma nota de rodapé de artigo em um jornal inglês, apontando que 83% dos médicos geriatras da Grã-Bretanha eram do Sul da Ásia, ou seja, médicos considerados de segunda classe, que iam ocupar cargos que os britânicos não se interessavam.

Achei aquilo estranho... E pensei: poxa, como a escola médica na Grã-Bretanha está falhando, pois em vez de criar uma classe médica que se interesse por cuidar da população cada vez mais idosa, estão deixando a oportunidade para outros, sobretudo uma especialização que irá lidar com uma faixa etária, no geral, muito conservadora. Por exemplo, você não vai convencer uma senhora inglesa, de 80 anos, preconceituosa, a ser tratada por um médico indiano.

Por isso, decidi estudar, na minha tese de mestrado, os fatores que influenciam a escolha de Geriatria como especialidade e os fatores que denotam a satisfação de trabalho nesta profissão. Fiz uma pesquisa minuciosa, com cerca de 900 médicos cuja especialidade era a Geriatria.

Sincodiv-SP Online: E o que descobriu?

Alexandre Kalache: Tive resposta de 92% dos entrevistados, sendo que a única pergunta que diferenciava a metade que era feliz no trabalho da outra, infeliz, era a respeito de um contato próximo com idosos na infância ou adolescência.

Os que haviam tido essa influência, tinham satisfação no trabalho. Independentemente do país – Inglaterra, Escócia, País de Gales –, enquanto que quem não havia convivido com idosos estava na carreira por opção exclusivamente financeira.

Depois, fiz outra pesquisa, também como parte de meu mestrado. Colocamos a Enfermaria de Geriatria no treinamento de estudantes de Medicina do primeiro ano clínico, ou seja, que tinham 20 e poucos anos e estavam começando.

Em todos os grupos, ao longo de nove meses, os alunos se sentiam melhores antes de terem tido a experiência com os idosos.

Após esses dados, reuni os estudantes e pedi para me explicarem a razão. A resposta é que tínhamos removido esses jovens do glamour da Neurologia, Gastrologia, que utilizam tecnologia de ponta para a cura e, de repente, os colocado em um ambiente em que os pacientes estão muito próximos da morte, muitas vezes sem possibilidade de recuperação.

Sincodiv-SP Online: Qual foi a consequência desse trabalho?

Alexandre Kalache: Depois disso, conseguimos mudar o programa das escolas de Medicina e, em vez expor os alunos a idosos pacientes terminais, eles conheciam idosos, um grupo de seis a oito, acompanhando-os durante os seis anos da escola médica. E aí eventos acontecem: batismos, festas, aniversários, doenças.

Nesta situação, o aluno era como um participante da vida deles, um amigo. Desse modo, quando um morria, não era mais a morte de um paciente desconhecido na enfermaria geriátrica, mas, sim, de uma pessoa – muda tudo!

Sincodiv-SP Online: Você se tornou o primeiro presidente do Centro Internacional de Longevidade e já foi diretor de departamento da OMS, fundou uma Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento em Londres. Como é para um médico atuar em administração e gestão?

Alexandre Kalache: Durante minha formação, trabalhei nas universidades de Oxford e Londres, treinei muita gente, criei uma rede internacional de estudos de Epidemiologia do Envelhecimento em Londres. Depois disso, acabar na OMS como diretor não foi mérito nenhum, é que não tinha competição (risos).

Brincadeiras à parte, eles buscavam alguém dos países subdesenvolvidos para dirigir o programa, do qual eu já tinha sido consultor várias vezes. Foi inevitável, não havia ninguém com minhas características – médico de formação, Ph.D., que tivesse formação acadêmica na Inglaterra, supostamente de primeira linha, e apaixonado pelo tema – então não havia competição.

Como eu sempre quis fazer Saúde Pública – trabalhar como gestor e com política – foi natural para mim. Digo, porque o especialista nessa área é, para a comunidade, o que o clínico geral é para uma pessoa. O modo de pensar é o mesmo. Você tem que fazer um diagnóstico, coleta dados para fazer esta operação e daí você trata. E essa operação possui uma logística, um método, uma gestão, por isso, para mim, foi bem natural transitar de um para o outro.

Sincodiv-SP Online: Você considera que a pesquisa e a gestão estão interligadas? Ter pesquisado tanto tempo ajudou, depois, nos processos administrativos?

Alexandre Kalache: Um bom gestor é um bom pesquisador. Se você une a gestão à pesquisa – e a pesquisa não é a torre de marfim, ela deve ser feita onde a vida acontece, onde as pessoas vivem, moram, buscam entretenimento, trabalham –, verá que a combinação é o canal para as novas ideias!

Para ler a segunda parte da entrevista com Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade, clique aqui.

 

Produção e edição

 

COMENTÁRIOS:

Nenhum comentário cadastrado.