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Seção Entrevista
25/02/2016 - 17:08:50
Bate-papo com Saulo Vasconcelos, ator de musicais, cantor e professor de teatro musical
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes
Sincodiv-SP/A. Freire Saulo Vasconcelos, ator de peças musicais como Mamma Mia!, O Fantasma da Ópera, Os Miseráveis e Cats.

Com cerca de 14 anos, em Brasília (DF), no ano de 1987, um garoto ganhou uma bateria. Em pouco tempo estava se divertindo com o instrumento rítmico e iniciou aulas de teoria e prática musical numa escola de bairro. Cinco anos depois, passou a participar do Coro Sinfônico Comunitário da UNB (Universidade de Brasília), do qual fez parte até 1995.

Foi com o coral que surgiu a oportunidade de viajar para Nova York (EUA) para uma apresentação na famosa casa de shows Carnegie Hall. Durante a apresentação, os olhos do garoto brilharam ao ver os solistas do coro à frente de todos. “Quero estar ali”, foi o pensamento dele. Para provar que sonhos se realizam, hoje ele é uma referência do teatro musical, com shows nacionais e internacionais no currículo que acumulam uma audiência de mais de quatro milhões de espectadores.

O garoto da história é Saulo Vasconcelos, um homem na casa de seus 40 anos, casado e com uma bela filha de menos de um ano, a simpática e sorridente “Manu”.

Com uma carreira consolidada com participações em papéis de destaque em grandes produções do teatro musical – como Mamma Mia!, O Fantasma da Ópera, Os Miseráveis, Cats, entre outros – e na TV (atuações em séries dos canais Record e HBO), Saulo conversou com o Sincodiv-SP Online e contou um pouco dos desafios de seu trabalho e do mercado artístico, oferecendo sua visão sobre um possível futuro para a área. Ele ainda falou de seu trabalho como educador cênico a convite do Sesi-SP (Serviço Social da Indústria de São Paulo).

Acompanhe a entrevista completa a seguir:

Sincodiv-SP Online: Quando decidiu pela carreira de ator de musicais?

Saulo Vasconcelos: Logo depois da minha apresentação no Carnegie Hall com o coral da UNB, quando vi os solistas fazendo seu show, fiquei encantado e não consegui pensar em outra coisa a não ser “por que eles estão ali na frente e eu aqui atrás? Eu quero estar ali”. Desde aquele momento, comecei a trabalhar para conquistar esse espaço de destaque. Poderia dizer até que foi uma questão de ego (risos).

Sincodiv-SP Online: Nesse caso, ego no sentido positivo...

Saulo Vasconcelos: Sim, foi o que me tirou da famosa zona de conforto e me fez trabalhar duro.

Sincodiv-SP Online: E, logo depois, o que aconteceu?

Saulo Vasconcelos: Eu tinha uma formação musical de veia mais clássica, já conhecia Mozart, Beethoven, etc. Então acabei me envolvendo com ópera, que era mais próxima disso tudo. Fiz O Barbeiro de Sevilha, Madame Butterfly, entre outras.

Sincodiv-SP Online: Quando foi que tudo mudou?

Saulo Vasconcelos: Foi em uma viagem à Londres (Inglaterra), quando assisti aos musicais e fiquei fascinado. Em quatro dias, assisti a sete musicais. Voltei de lá com a certeza de que era aquilo que eu queria fazer.

Tempos depois, participei de uma seleção com diversos candidatos internacionais e consegui o papel do fantasma em O Fantasma da Ópera, em 1999, na Cidade do México.

Sincodiv-SP Online: Há muita diferença entre o público brasileiro e o mexicano? O que temos de especial?

Saulo Vasconcelos: O público brasileiro é mais caloroso, aplaude mais, participa mais. O mexicano é um pouco mais frio e você sente isso pelos aplausos contidos. Acredito que a grande diferença é que o público brasileiro vai ao teatro já com a intenção de gostar do que vai assistir. Como vai com a expectativa de apreciar o show, empolga-se junto com os atores e essa energia passa. Os atores também aumentam a entrega quando o público reage.

Sincodiv-SP Online: E quando voltou para o Brasil?

Saulo Vasconcelos: Vim para São Paulo em 2001, para fazer o musical Os Miseráveis.

Sincodiv-SP Online: Sua história, então, coincide com a entrada das grandes produções musicais aqui em São Paulo. Como você enxergou esse momento na sua carreira e no cenário cultural brasileiro?

Saulo Vasconcelos: As grandes produções musicais ainda eram muito recentes aqui quando Os Miseráveis chegou, elas tinham se iniciado cerca de dois anos antes, então não tínhamos um padrão de atuação formado ainda.

Com muito trabalho e esforço, montamos um espetáculo maravilhoso, e sou suspeito para falar porque, além de atuar na peça (como o inspetor Javert), considero Os Miseráveis como uma obra prima do teatro musical, pois trata de forma intensa das diversas facetas humanas, conflitos internos, questões sociais, romance, drama. Ele atinge as pessoas em tantos e diversos sentidos que não se consegue ficar impassível a ele.

Pela ótima qualidade do espetáculo feito, o musical estabeleceu uma espécie de alto padrão para as próximas produções que vieram se aventurar em São Paulo, grande parte delas trazidas pela T4F (Time For Fun).

Esse movimento, para o cenário cultural, foi incrível, estimulando mais ainda a profissionalização dos atores e movimentando a economia, inclusive em outras áreas, influenciando o turismo – pois atraiu muitas pessoas que queriam assistir ao espetáculo –, estimulando parcerias entre hotéis e empresas de entretenimento, etc.

Para mim, foi mais uma oportunidade de aprender, crescer e consolidar minha carreira nesse gênero.

Sincodiv-SP Online: Hoje, como está o cenário? E como é a resposta do público ao desenvolvimento desse gênero uma vez que são grandes produções e também caras?

Saulo Vasconcelos: A especialização dos atores evoluiu muito, em especial se comparada há 15 anos. Domina-se muito mais as três linguagens – canto, dança e interpretação. E a resposta do público, automaticamente, também é melhor. Tivemos o surgimento de um público fiel aos musicais, mesmo com preços que não são e nem podem ser baratos demais.

Pelo tamanho das produções, quantidade de pessoas envolvidas e estrutura dos teatros, não há como o preço ser baixo. Mas eu observo um movimento curioso. As pessoas compram o ingresso e acham caro (a faixa de preço varia entre 90 e 200 reais, dependendo do teatro, locais, etc.), entretanto, ao final do espetáculo, dizem que valeu cada centavo e normalmente retornam para assistir novamente.

Acredito que temos de ser prudentes com nossos gastos, mas quando é uma coisa transformadora e impactante, vale a pena!

Sincodiv-SP Online: Como você enxerga que se dará a evolução do teatro musical no Brasil?

Saulo Vasconcelos: São Paulo é o principal eixo de musicais por conta da estrutura, tamanho de público e facilidades de produção. Expandir é complicado porque você precisa encontrar um lugar com bons teatros e um público mínimo. Assim, a expansão, se houver, não se dará para além dos grandes centros, pelo menos não inicialmente.

Num exercício de previsão, acredito que o que pode ocorrer dentro de cinco ou dez anos é uma espécie de escassez de produções. Muita coisa já foi trazida de lá de fora e não existe uma fonte inesgotável, então é preciso buscar alternativas.

Eu vejo que a melhor saída é investir em produções nacionais, que já vimos que têm espaço e público, uma vez que os musicais como Tim Maia e Cazuza foram sucessos aqui.

A classe artística deve se unir e debater para não estagnar, ela deve trocar experiências e pensar nos melhores caminhos, sempre olhando para um conteúdo mais próprio e nacional, dependendo menos do que é trazido de fora.

 

Para ler a segunda parte da entrevista com Saulo Vasconcelos, ator de musicais, cantor e professor de teatro musical, clique aqui.

 

Produção e edição