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Seção Reportagem
07/07/2016 - 16:32:33
Para obstáculo se tornar oportunidade é preciso se cercar dos melhores, com estruturas dinâmicas e propósito. Não é simples, mas vale a pena*
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
@_openspace_ Claudio Férnandez-Aráoz, autor de best-sellers, especialista em Recursos Humanos e professor convidado da Harvard Business School.

Grandes líderes identificam e reconhecem as dificuldades presentes, mas externam pouco suas insatisfações, buscando observar as oportunidades de melhorar a estrutura de gestão, os processos e suas pessoas para conquistar espaço em meio ao caos. Ou seja, tiram vantagem da crise.

“Estar cercado pelos melhores sempre foi a ‘técnica’ adotada por Roger Agnelli (ex-presidente da Vale, morto neste ano em um acidente aéreo)”, afirma Claudio Férnandez-Aráoz, autor de best-sellers, especialista em Recursos Humanos e professor convidado da Harvard Business School.     

De acordo com ele, houve diversos fatores externos que se apresentaram como desafios e também favoreceram o executivo brasileiro na administração da mineradora no início da década, mas o que explica o fato de um profissional de origem do setor financeiro conseguir elevar o valor de mercado de uma empresa em cerca de 1.600% em 10 anos vai muito além da sorte ou conjuntura externa. É o fato de que se cercou dos melhores executivos para o acompanhar na gestão do projeto”, explica.

E como identificar os melhores? Segundo Aároz, existem critérios para avaliar os profissionais para além de suas competências, em especial para identificar e desenvolver o potencial de cada um a partir de critérios que apontam diferentes níveis de curiosidade, visão, engajamento e determinação.

“Programas de treinamento possibilitam que as organizações acessem o potencial de suas pessoas, transmitindo a elas os recursos necessários para o desenvolvimento e qualificação de suas habilidades. A promoção de ações que incentivem a curiosidade, visão, engajamento e determinação são vitais ao aprimoramento dos colaboradores de talento para que atuem como verdadeiros líderes em suas atividades e áreas”, define.

Transformação organizacional durante a crise econômica

Todo esse esforço, no entanto, parece demasiadamente oneroso num momento de crise da economia, tal qual a que estamos atravessando, mas, para Christian Orglmeister, sócio do The Boston Consulting Group em São Paulo, o que diferencia o bom do mau critério de investimento e/ou corte de custos está na forma de fazê-lo(s).

Ele, que tem trabalhado junto a empresas de controle familiar brasileiras, indica que antes do estabelecimento do quanto se quer aportar ou reduzir de investimentos e custos (em termos de valor ou percentual), é fundamental que se avalie o objetivo final do esforço – e que não deve ser um número puramente, mas uma melhora na estrutura da organização, com ganho de competividade.

“A elevação do PIB (Produto Interno Bruto) a um ritmo muito mais acelerado do que o do ingresso de pessoas com sólida formação intelectual no mercado de trabalho, nos últimos anos, levou as empresas a adotar medidas precipitadas para reter pessoas, a exemplo de elevação de salários e promoções incompatíveis com a sustentabilidade dos negócios. O que se vê agora são microtimes, formados por um gerente responsável por equipes de até cinco subordinados ou até gestores de si mesmos, gente que foi promovida apenas para justificar o aumento de salário”, aponta. 

Ele afirma que a proliferação desses pequenos grupos de trabalho pode criar uma espécie de “departamentalização” no ambiente das empresas, burocratizando processos, com perda de agilidade para a tomada de decisões.

“O momento é de reflexão sobre o que vale terceirizar, automatizar e consolidar, definindo-se o papel e o valor de cada gestor e gestão. Alguns trabalhos neste sentido têm possibilitado diminuir em até 50% o número de microtimes, levando a uma simplificação que vai além da redução de custos”, descreve.  

Orglmeister afirma que a eficácia conquistada e estruturas (desenhos organizacionais) mais competitivas são os principais ganhos obtidos por essa forma invertida de aplicar cortes de custos e valores de investimentos, ambos fundamentais para o momento dos negócios no Brasil.

“Essa visão mais ampla do contexto é a chave. Acredito nas empresas que são capazes não de resistir, mas ‘navegar’ nas disrupções (interrupção de processos), ou seja, criando meios para se adaptarem às mudanças, a maioria delas inevitáveis”, indica com tom de recomendação. 

Sobre a cultura do significado das coisas

Ainda sobre a atuação consistente sobre investimentos e custos, colaboradores e clientes respeitam organizações que trabalham e dedicam esforços por um propósito que seja claro e definido, valor este que é justamente o ponto comum entre todos os envolvidos.

“É libertador ser movido por um propósito. Qualquer que seja a ação, ela ganha um sentido maior”, define Facundo Guerra, empreendedor, de 42 anos, considerado o Rei da Augusta pelo The New York Times.

Responsável por um negócio que fatura algumas dezenas de milhões de reais ao ano, ele está por trás dos famosos clubes Yacht, Lions e Cine Jóia, além dos bares: Volt, Zcarniceria e Riviera, sendo este último reaberto em parceria com o chef Alex Atala.

Guerra, que se tornou empreendedor porque não conseguia mais se imaginar dentro de grandes estruturas corporativas (engessadas), explica que todo seu esforço e o sucesso até agora alcançado em seus diversos empreendimentos – entre restaurantes e outros negócios do ramo de entretenimento –, são fruto do reflexo de sua visão estética, ética e do que ele e seus sócios esperam que o mundo seja.

“Buscamos, por meio do trabalho ou do consumo, alcançar experiências sensoriais carregadas de significado. Os consumidores e profissionais querem trabalhar, de um lado, e comprar, do outro, uma ‘visão de realidade’, e estão dispostos a abrir mão de salário, bem como gastar um pouco mais (e adquirir menos) em nome do propósito no qual acreditam”, explica.

Guerra defende que todos, hoje, querem fazer parte, ser responsáveis e responsivos pelo que fazem e consomem. “Um exemplo claro disso é a economia compartilhada, que, uma vez destravada, nunca mais consegue retornar ao modelo tradicional”, aponta, citando Uber, aplicativo para dispositivos móveis que coloca os usuários em contato direto com condutores de automóveis de passageiros.

Todo esse amplo contexto mostra que já passou da hora de as empresas desburocratizarem seus processos, envolverem suas pessoas no desenvolvimento de seus serviços e produtos, sob o risco de, se não o fizerem, perderem suas melhores “cabeças, braços e pernas”, o que é, voltando ao início desta reportagem:  abrir mão daqueles profissionais capazes de tirar vantagem da crise e conquistar espaço em meio ao caos. Ou seja, tudo o que precisamos agora, na crise, e também depois, quando a confusão passar.

* Os profissionais citados nesta matéria exclusiva para o Sincodiv-SP participaram, como palestrantes, do Fórum HSM de Liderança e Alta Performance 2016, evento realizado em maio, na capital paulista.

 

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