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Seção Entrevista
01/09/2016 - 10:44:52
Bate-papo com Facundo Guerra, fundador do Grupo Vegas e inovador do entretenimento e da noite paulistana
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
.Sincodiv-SP/A. Freire Facundo Guerra representa um novo olhar sobre Empreendedorismo:

Considerado por ele mesmo como um “felizmente desajustado” – assim como as pessoas que contrata e com quem trabalha –, Facundo Guerra lançou o Grupo Vegas em 2005, com a abertura do Clube Vegas, na tradicional e degradada Rua Augusta, em São Paulo. Por sua intenção de conectar as pessoas e lugares, conseguiu transformar a casa em referência pelo sucesso com clientes, crítica e mídia especializada.

O Vegas, na época, foi um dos primeiros espaços da noite paulistana a conseguir misturar públicos, oferecer curadoria musical respeitada e ditar tendências numa região até então definida, por Guerra, como “maldita” pelas pessoas.

Depois, vieram o Z Carniceria, VOLT, Lions Nightclub e Club Yacht. Cine Joia, PanAm (no Maksoud Plaza), Mirante 9 de Julho e Bar Riviera, que tem o reconhecido chef Alex Atala como sócio, são outras casas do Grupo, que segue crescendo. E o objetivo de todos os espaços é devolver para a cidade de São Paulo um lugar com personalidade, resgate histórico e uma ótima experiência.

Com um fluxo anual de cerca de 400 mil pessoas e mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, o Grupo Vegas emprega em torno de 400 pessoas e espelha a intenção – colocada em prática – de Guerra: a de conectar pessoas em espaços de convivência com histórias para contar.

A seguir, confira a entrevista deste “jovem excêntrico” de 42 anos, nascido na Argentina e criado no Brasil, que está conseguindo fazer a diferença em sua complexa área de atuação – a de serviços de entretenimento e noite paulistana.

Sincodiv-SP Online: Você é engenheiro, jornalista e cientista político... Em que medida conhecimentos de áreas tão distintas contribuíram para sua formação e visão empreendedora?

Facundo Guerra: Minha formação acadêmica aconteceu conforme percebi a necessidade de compreender melhor as áreas de atuação das empresas em que trabalhei. A Engenharia fiz por orientação de meu pai, buscando, realmente, empregabilidade, mas nunca atuei na área porque não tinha afinidade.

Já no mercado de trabalho, quando atuei pela AOL (empresa americana de comunicação online), estudei jornalismo para compreender melhor as atividades das equipes de redação. E foi assim, pelo interesse pelos mais diversos temas, que construí meu escopo de conhecimento.

Hoje entendo que todos, absolutamente todos os aprendizados são úteis para mim. Veja, consigo acompanhar os projetos de reforma e construção com boas noções sobre o que está sendo proposto e realizado nos locais em que abrimos as casas noturnas e restaurantes, consigo também participar, de forma mais crítica, da construção de nossos processos de marketing e comunicação e, por trabalhar na área de serviços, tudo o que aprendi também nos cursos da área política e cultural me ajudou, e muito, a compreender o contexto social em que estamos inseridos.

Aprendi que meus negócios têm de ser maiores do que eles mesmos, fazendo parte de uma comunidade e integrando a sociedade da qual são parte indissociável.

Sincodiv-SP Online: Vegas, o começo de tudo. O que considera que foi determinante para o bom desempenho do negócio em um ambiente “aparentemente” tão improvável, considerando o público que o espaço conquistou?

Facundo Guerra: O Vegas Club – casa noturna da Rua Augusta, na região central da capital, que funcionou até 2012 e fechou por uma oferta imobiliária do local que inviabilizou o projeto – inaugurou uma experiência para as pessoas que querem se divertir e admitem viver com algum risco, mas com moderação, como um risco menor, calculado.

A ideia era proporcionar um local seguro, que convida à diversidade em um local tradicional da cidade, mas que foi esquecido, ignorado no mapa, em função dos frequentadores que reunia e dos negócios ali presentes. E o que antes era conhecido como um reduto de prostituição, cresceu, ganhou fachadas de neon que deram cor à Augusta e a única coisa que faltava era o estabelecimento de um local que possibilitasse para as pessoas segurança para visitar e frequentar. Fizemos isso e foi um sucesso.

De certa maneira, oferecemos algo novo para o público – porque chega uma hora que muita gente cansa de ver mais do mesmo. A diversidade enriquece a experiência, apresenta o novo e diverte muita gente.

Sincodiv-SP Online: Você – e uma nova legião de pessoas que agora vem tomando a frente dos novos empreendimentos – rejeita a ideia de plano de negócios. Acredita nos seus instintos, em concretizar uma visão de mundo, atuar com propósito. E o planejamento estratégico, o que pensa sobre ele?

Facundo Guerra: O que é isso mesmo? Já não lembro... (então a reportagem do Sincodiv-SP Online faz um breve lembrete bem-humorado sobre o conceito e rapidamente Guerra se recorda). Ah! O trabalho de forecast? Isso é futurologia barata. Não faz o menor sentido, no mundo de hoje, você estabelecer metas de crescimento.

Veja, fazer acontecer um negócio não pode, nem deve ser motivado por números. A evolução deve ocorrer por um propósito.

A empresa é um sistema, um organismo vivo que evolui conforme vários fatores, sendo muitos deles pouco controláveis. Imagine que um grupo de pessoas desenha que a organização deve crescer 20% ao ano (é sempre assim, já que ninguém planeja retrair 10% em um, dois ou cinco anos) e isso, de fato, se concretiza. Fosse verdade, o mundo não existiria mais porque estamos todos em uma única moldura, que é estática e não vai evoluir para além do que se apresenta.

Para mim, e posso estar errado, isso representa minha visão de mundo, esse crescer por crescer equivale a uma visão tão atrasada quanto aquela que se tinha na Idade Média.

Diga para mim: como explicar para um colaborador que ele tem que bater meta de 20% em um ano? Quais os fundamentos (se é que existem) para justificar o alcance de um, veja bem, número?! As pessoas trabalham por uma missão, por entenderem que existe um propósito naquilo que fazem, jamais para bater meta.

Isso não é valor, como já disse, é só um número – que não se sustenta e, invariavelmente, gera enorme frustração entre os envolvidos – como estamos tendo a oportunidade de ver neste exato momento pela crise em que estamos.

Sincodiv-SP Online: Quais atitudes que toma na gestão de seu negócio que considera contrárias àquelas que você vivenciou nas corporações em que trabalhou?

Facundo Guerra: São várias! Não temos cargo definido para as pessoas, por exemplo. Não sou CEO, não tenho diretor, não tenho gerente. Aqui, as pessoas têm salários diferentes, mas não indicamos títulos para o dia a dia dos relacionamentos da empresa porque rejeitamos a ideia de hierarquia no seu modelo tradicional.

Ganho menos do que boa parte dos meus colaboradores. A diferença entre o maior salário e o menor é pequena. O fator multiplicador não é superior a cinco porque compreendemos que todos desempenham um papel fundamental para o negócio, portanto, ninguém poderá ser tão importante a ponto de merecer ganhar mais que cinco vezes do que outro membro da equipe.

Não temos o hábito de fazer reuniões com periodicidade fixa. Não fazemos conference call. Não tomamos decisão por senioridade. Todo mundo se expressa e fechamos com a ideia considerada a melhor pela maioria.

Para não parecer que a ideia que coloco aqui é utópica, digo o seguinte: eventualmente, quando percebo que estamos perdendo o foco, estabeleço uma “linha de corte”, direcionando o que será ao final. Mas isso dificilmente ocorre. Temos um grupo de Whatsapp para cada projeto em discussão do Vegas e estamos participando o tempo todo para que a visão de todos seja abrangente (em relação à empresa tratada) e sejam, assim, inseridos no processo de desenvolvimento de todas as partes de um projeto.

Brinco que nós nos tratamos como células terroristas! Nos reunimos eventualmente para atacar um problema e, uma vez resolvida a questão, nos desmanchamos e cada um volta a tocar sua vida no negócio. A visão geral sobre o projeto é respeitada e dividida porque, dessa forma, conseguimos mais ideias de solução para os problemas que surgem.

Exemplifico com o conceito do hambúrguer que discutimos recentemente: havia o plano de, em uma das casas, oferecer um hambúrguer no valor de R$ 26,00, daí a estagiária de arquitetura de outra unidade de negócio disse que não poderia pagar esse valor em um sanduíche, pois nem via a necessidade de comer algo tão grande e recheado, então chegamos à conclusão de que seria possível repensar a proposta, oferecendo um produto mais compacto e acessível a um público maior. Entendemos que seria a melhor solução.

Sincodiv-SP Online: Atualmente, você está à frente de quase 10 empreendimentos. Na sua avaliação, o que tem possibilitado essa trajetória para o Grupo Vegas?

Facundo Guerra: Trabalhamos por um propósito. Vejo o Grupo como um sistema. Mantenho uma relação “homeopática” com as unidades do negócio, que são como órgãos e fazemos com que se ajudem e se suportem conforme a necessidade. Cada empresa emprega pessoas, que sustentam famílias. A relação é com a sociedade.

Se um negócio vai mal, vamos buscar alternativas, ao máximo, e, enquanto isso, as demais empresas, em melhor situação de desempenho, ajudam a unidade. Se eu fosse apenas orientado por dinheiro, já teria fechado bares e restaurantes, mas não é assim que pensamos.

É tudo muito mais do que um empreendimento. Preocupo-me com a identidade dos lugares que abrimos. Fazemos parte da cidade, acreditamos que a presença das empresas foi estrategicamente pensada para que sejamos maior do que o negócio em si. A responsabilidade social de cada uma das células é muito maior do que o compromisso com o lucro.

O espírito do nosso tempo – agora – é de desordem, é meio apocalíptico. Estamos mais dispostos a dar os anéis para preservar os dedos. Assim como eu penso, vejo muita gente trocando emprego para abrir o próprio café, tirar a xícara de cafezinho que proporciona para ela o maior prazer do mundo!

E, olha, fazem isso porque encontram significado no que produzem, porque acreditam que sua melhor contribuição será aquela que combina prazer, significado verdadeiro e positivo para quem produz e para quem recebe aquilo que será oferecido.

Para ler a segunda parte da entrevista com Facundo Guerra, fundador do Grupo Vegas e inovador do entretenimento e da noite paulistana, clique aqui.

 

Produção e edição