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Seção Entrevista
01/11/2011 - 16:33:24
Bate-papo com Alvaro Siviero, pianista e autor do blog Música Clássica Decodificada
Por Ana Paula Nogueira e Juliana de Moraes
- A. Freire/Sincodiv-SP Alvaro Siviero toca piano desde os três anos e já se apresentou para o Papa Bento XVI na vinda dele ao Brasil, em 2007.

 

Músico independente, o pianista brasileiro Alvaro Siviero está entre os profissionais mais respeitados do país. Na bagagem estão concertos e recitais pela Europa, Estados Unidos e América do Sul, além de atuações em eventos especiais, como na visita do papa Bento XVI ao Brasil.

 

Atento à importância da comunicação para multiplicar o número de adeptos à música clássica, Siviero assina o blog Música Clássica Decodificada, publicado no portal do jornal O Estado de S. Paulo.

 

Ele, que sabe de cor músicas das bandas Queen e U2, além de achar Ivete Sangalo uma ótima artista, defende que “as pessoas só devem saber que cada tipo de música é adequada a um momento; tem um sentido de existência específico”.

 

Neste Bate-papo, o pianista divide lições de vida que aprendeu ao longo da carreira e mostra sua relação com a música e a cultura, que começou aos três anos de idade - e foi “amor à primeira vista”.

 

Sincodiv-SP Online: Apesar de a paixão pelo piano ter sido revelada tão cedo, você ficou em dúvida de seguir a carreira musical?

 

Alvaro Siviero: Não segui a carreira musical “de cara” porque não tinha certeza de que gostaria de fazer isso para o resto da vida, apesar de contar com apoio da família e de gostar muito. Então fiz vestibular e me formei em Física pela Universidade de São Paulo, onde atuei como pesquisador.

 

Admito que errei ao ficar “mancando das duas pernas” durante quase dez anos (ao tentar conciliar as atividades). O distanciamento da música foi uma violência que cometi contra mim para ter certeza de que eu realmente queria ser um pianista. A ausência e a saudade valorizaram a relação já tão especial que tenho com o piano.

 

Lecionar também era muito bom e gratificante. Fui professor na Universidade Federal do Paraná e, embora eu tenha revelado um gosto especial por lecionar física, havia um amor incondicional pela música. Entendi que podia passar o tempo que fosse, e nada mudaria. Chegou um momento em que foi inevitável fugir. A quantidade de concertos era crescente e amúsica transbordava “por todos os meus poros”.

 

Sincodiv-SP Online: Consegue aproveitar o conhecimento adquirido na faculdade de Física ao tocar piano?

 

Alvaro Siviero: Claro! A matemática do som, acústica, cordas vibrantes, tubos sonoros, são coisas que percebo, na prática, ao me apresentar junto a uma orquestra!

 

Além das leis e teoremas, os números ajudaram com a racionalidade e a concentração necessárias para frear meu envolvimento com a música que toco, não permitindo que eu me sinta maior do que o produto do meu trabalho.

 

Sincodiv-SP Online: Falando sobre este autocontrole, qual a relação entre técnica e emoção ao tocar piano? Como cada elemento deve ser dosado?

 

Alvaro Siviero: É preciso haver equilíbrio total entre técnica, emoção e razão. O freio, a que me referi anteriormente, é positivo. A delimitação da fronteira entre a razão e o sentimento permite interpretar a obra corretamente. Fazer música não é um exercício desordenado, portanto a liberdade e a autenticidade são limitadas.

 

O mesmo acontece com a técnica: um grande amigo violinista diz que a técnica existe para ser esquecida. Apesar de eu pensar que sem o devido preparo é impossível transmitir a “história” que estou tocando, em partes concordo com ele.

 

No mês passado, em Nova Iorque (EUA), me decepcionei com pianistas que tocavam “limpo” demais, sem nenhum esbarrão de teclas. Sabe o que eles me disseram com aquela apresentação? Nada. Eram apenas reprodutores, não recriadores. O processo de criação é muito sério e intenso. Fazer música sem envolver-se com ela não faz sentido, não há graça nem paixão. 

 

Sincodiv-SP Online: Quais outras lições a prática do piano trouxe para você?

 

Alvaro Siviero: Os maiores aprendizados são relacionados à humildade e disciplina. Gosto de usar como exemplo a bailarina Ana Botafogo. Após uma bela apresentação no Teatro Municipal, ela acorda na manhã seguinte, ainda cansada, e vai fazer exercícios na barra.

 

Em alguns momentos, temos que nos comportar como se a noite anterior, carregada de aplausos, não tivesse existido e focar na próxima apresentação. Apesar de não ser um sofrimento, por ser uma paixão e não uma obrigação, uma rotina disciplinada e rigorosa é necessária aos artistas.

 

A humildade é outro aspecto primordial, principalmente aos músicos. Estou absolutamente convencido de que, quando toco, sou um instrumento. O público aplaude a emoção do momento, a música, não a mim. Nos bastidores, é possível presenciar situações grotescas devido a problemas de orgulho.

 

Sincodiv-SP Online: Como você aprendeu a lidar com essas disputas no meio musical?

 

Alvaro Siviero: Gosto de dizer que aprendemos as coisas da vida tanto pelos exemplos, quanto pelos contraexemplos. As situações ruins pelas quais passei ou vi outros passarem servem para eu tentar não repetir o mesmo erro.

 

Trabalhar com arte exige um preparo humano muito grande, senão só fazemos besteira. Os diretores têm que trabalhar 25 horas por dia para gerenciar “guerras de egos” e disputas tolas.

 

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Alvaro Siviero, clique aqui

 

 

 

 

 

Produção e edição:

Moraes & Mahlmeister Comunicação