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Seção Entrevista
01/11/2011 - 16:47:59
Bate-papo com Alvaro Siviero, pianista e autor do blog Música Clássica Decodificada - 2ª Parte
Por Ana Paula Nogueira e Juliana de Moraes
- A. Freire/Sincodiv-SP Entre as lições que aprendeu com o piano, Siviero cita a disciplina e a humildade. "Estou convencido de que sou apenas um instrumento; o público aplaude a música, a emoção do momento, não a mim", completa.

 

Sincodiv-SP Online: Grande parte de sua formação musical aconteceu no exterior. O aprendizado lá fora é melhor do que o disponível no Brasil?

 

Alvaro Siviero: Fui selecionado para o curso de imersão na obra de Beethoven na Fundação Wilhelm Kempff, em Positano, Itália. A opção por estudar no exterior não foi feita pelo fato da formação ser melhor ou pior, é apenas diferente daqui do Brasil, em relação ao conteúdo das aulas. Mas, acabou sendo muito interessante, porque conheci a visão de mentores com nacionalidades diferentes da minha. 

 

O brasileiro é emotivo, é “coração”. Aprendi bastante na selvageria individualista norte-americana e com a coesão técnica austríaca; então percebi que faltava lirismo e fui estudar na Itália, o berço da cultura ocidental.

 

É claro que no exterior também estão os grandes artistas, aqueles que, quando assisto, me jogam um "balde de gelo", da mesma maneira, me fazem perceber o quanto posso melhorar. Felizmente, eles começam a vir ao Brasil, principalmente nos concertos realizados na Sala São Paulo.

 

Sincodiv-SP Online: Agora que você tocou neste assunto, comente sobre o cenário da música clássica por aqui. O que falta para o estilo cair no gosto da população?

 

Alvaro Siviero: A origem do problema é histórica, pois a música era feita dentro da casa dos nobres. Obviamente não havia CDs e nem ao menos venda de ingressos. Hoje há muitos concertos gratuitos à disposição de todos. Os brasileiros pensam na música clássica como elitista, mas a sensibilidade não está relacionada à classe social.

 

Quem enxerga os concertos como inacessíveis, rebaixa o próprio patamar cultural. A solução é vencer este comportamento preconceituoso e, como a própria etimologia da palavra erudita sugere, deixar de ser rude consigo mesmo.

 

Sincodiv-SP Online: Mas não há o desejo de parte dos músicos eruditos em manter a "aura" desse estilo musical, ou seja, mantê-lo longe da população?

 

Alvaro Siviero: De maneira alguma! A música erudita é, sim, superior, mas nunca vai se deteriorar. O desejo de quem atua na área cultural é sempre proporcionar o contato entre obra e público, afinal, o que é um concerto sem público? Uma apresentação secreta não faz sentido, preciso passar a minha mensagem aos outros. 

 

A palavra popular não é, de forma alguma, pejorativa. Significa a representação do povo daquele local. Na Áustria, por exemplo, o gênero popular é o clássico.

 

Sincodiv-SP Online: Foi em favor da popularização da música que aceitou o convite para escrever sobre música clássica em blog do jornal O Estado de S. Paulo, um canal de grande circulação?

 

Alvaro Siviero: Sim. Eu já tinha experiência em escrever críticas de música e artigos mais densos para a revista Dicta e Contradicta, por exemplo.

 

O convite para o blog veio da responsável pelo portal do Estadão, Cláudia Belfort, preocupada com a maneira como a música é discutida na mídia.  Pesou o fato de eu ser um músico, porque por mais que o jornalista conheça bastante o assunto, nunca praticou.

 

Neste espaço, pretendo fazer um trabalho de democratização da música clássica. Trabalho o tema de maneira prática e aproximada do dia a dia. Aliás, tenho total liberdade em relação a temas e periodicidade, mas procuro postar de duas a três vezes por semana, tempo apropriado para os leitores desfrutarem e digerirem o conteúdo.

 

Sincodiv-SP Online: A música proporcionou que você conhecesse diversos lugares e pessoas. Conte um pouco sobre essa experiência e alguma lembrança marcante.

 

Alvaro Siviero: Apesar do clichê, a música é realmente uma linguagem universal. Conheci muitas pessoas especiais, como o Papa Bento XVI. Ele é um homem muito coerente e com força de presença incrível. Estive com ele em seis oportunidades, uma delas a visita dele ao Brasil, em 2007.

 

Pouca gente sabe, mas ele é formado em piano e essa é uma de suas paixões. O final da apresentação, quando ele me aplaudiu, foi o momento mais emocionante! Minha cabeça dizia que aquilo estava errado... Eu é quem deveria aplaudi-lo. Foi uma grande honra.

 

Outro momento importante foi o convite para me apresentar na cela em que Chopin esteve preso, uma homenagem a ele. É incrível perceber que, fazendo meu trabalho de transmitir a mensagem da música, sou uma pecinha que faz parte da história e deixo minha contribuição por aqui.

 

 

 

 

Produção e edição:

Moraes & Mahlmeister Comunicação