ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
17/11/2016 - 09:25:46
Bate-Papo com o neurologista Fabiano Moulin de Moraes, especialista em Cognição e Comportamento – PARTE II
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação / Casa do Saber Fabiano Moulin é coordenador do Laboratório de Neurologia da Unifesp e professor da Casa do Saber.

Sincodiv-SP Online: O fator genético pesa muito na forma como acontece o envelhecimento mental das pessoas?

Fabiano Moulin de Moraes: A normalidade do cérebro depende, sim, de vários mecanismos genéticos, que vão responder por cerca de 50% de sua saúde nesse processo, mas 50% está intimamente ligada à nossa rotina.

Uma das coisas mais negligenciadas na saúde é o ronco, que aumenta o risco de enfarto, doenças cardíacas em geral, AVC e até Alzheimer (doença que está ligada à saúde vascular também).

A gente precisa dormir porque o cérebro depende do sono para manter sua memória. Noites mal dormidas afetam o ânimo e toda a saúde, levando a uma série de doenças.

Então, temos uma responsabilidade enorme no contexto da saúde mental porque somos responsáveis por metade da parcela de saúde que teremos ou não a depender de nossos hábitos. É muita coisa!

Sincodiv-SP Online: Você mencionou a rotina como fator para a saúde. Qual o papel do hábito para a organização das ideias e para a saúde cerebral?

Fabiano Moulin de Moraes: O hábito é uma saída genial do cérebro. A partir do momento que um hábito é estabelecido, você libera vários neurônios para outros fins. Por exemplo, o ato de falar. Quando você está aprendendo um idioma, é tão difícil no início, mas tão logo você alcance fluência, sequer lembra que é necessário estruturar frases, simplesmente o faz.

É como dirigir. Quantas vezes, quando estamos cheios de questões na cabeça, chegamos em casa e nem lembramos exatamente como fizemos. A ação passa ao automático. Deixa de passar pela consciência.

O hábito, portanto, nos possibilita aprender novas coisas. O problema é que quando uma ação se transforma num hábito, meu poder sobre ela fica bem reduzido. É mais difícil mudar.

O livro “O Poder do Hábito”, do jornalista Charles Duhig, fala exatamente sobre o que acontece no cérebro da gente nesses casos. O hábito em si não importa tanto, mas sim os gatilhos do antes e do depois (da recompensa) para que modifiquemos rotinas arraigadas e consigamos melhorar hábitos. É a Neurociência que explica isso.

Sincodiv-SP Online: E a novidade. Qual a sua função para a saúde cerebral?

Fabiano Moulin de Moraes: A plasticidade (de adequação ao meio) e a flexibilidade são pouco recorridas nas ações habituais, por isso as dicas que são bastante conhecidas, como fazer um caminho diferente vez ou outra, conhecer novos grupos de pessoas, pegar a escada em vez do elevador, viajar, etc. são importantes na medida em que exigem justamente a tomada de consciência para o aprendizado.

A natureza do cérebro é preguiçosa... Embora, pese 2% do corpo, é órgão responsável por consumir 20% das energias. É pesado para o organismo, por isso tende a buscar meios para economizar recursos.

A novidade é um gasto, é como a malhação cerebral, mas é o que constrói saúde. O ponto sempre será o equilíbrio. Devemos, sim, ter hábitos (de preferência bons) e exposição a novidades para uma mente saudável.

Sincodiv-SP Online: Quais novos conhecimentos da ciência, em sua opinião, trarão os maiores ganhos para as pessoas e para a sociedade?

Fabiano Moulin de Moraes: Eu diria que a Epigenética está mudando a forma como enxergamos o desenvolvimento da saúde e da doença das pessoas. Esta é uma ciência que funde o estudo da genética com os aspectos do ambiente, uma área que transcende todas as outras da Medicina na medida em que dialoga com todas elas.

Antes, achávamos que o ambiente era muito adaptável e o gene muito duro, quase imutável. Se tenho um determinado gene, ele produz uma também determinada proteína e acabou. Hoje, porém, sabemos que um ambiente ruim pode ser tão perverso quanto um gene pode estar aberto às influências do ambiente ao qual é submetido.

Sincodiv-SP Online: Pode exemplificar como o meio altera o desenvolvimento genético, no caso do cérebro?

Fabiano Moulin de Moraes: Temos janelas de oportunidade ao longo de nossas vidas. Uma delas é a da construção das relações emocionais. Se uma criança, por exemplo, até os dois ou três anos, não tem uma relação de apego saudável com uma pessoa, ela terá muitas dificuldades para construir relacionamentos positivos e duráveis no futuro.

Sabemos disso por estudos realizados em grupos que passaram por situações catastróficas, caso dos “Órfãos da Romênia”. Trata-se de uma situação em que as crianças foram situadas em orfanatos e sistematicamente privadas de contato com pessoas. Depois, quando adotadas por famílias de várias partes do mundo, mostraram-se inadaptáveis à sociedade, ou seja, perderam a habilidade que nos diferenciam, essencialmente, de outros animais, nossa sociabilidade.

Nesse caso, o ambiente modulou a expressão de seus genes. Isso mostra como o meio e a rotina interferem no desenvolvimento (ou não) de nossas habilidades, capacidades e saúde em geral.

Ter o conhecimento sobre isso nos traz poder e também responsabilidade de criar um ambiente e hábitos adequados para cada um de nós.

Sincodiv-SP Online: Qual é o efeito do oposto da “negligência”, com famílias que excedem na atenção e monitoramento?

Fabiano Moulin de Moraes: O outro extremo para uma situação como a das crianças romenas são as Teorias do Pai Perfeito e do Pai Helicóptero, que são aqueles que não possibilitam nenhum tipo de frustração para seu filho e o monitora o tempo inteiro. Assim, criam verdadeiros monstros, inadequados ao mundo. Isso porque a frustração e o sentido de responsabilidade pela liberdade são parte das sensações às quais devemos ser capazes de lidar. Então, nem a privação total, nem o excesso são saudáveis.

Existe uma faixa adequada de apoio às crianças, caracterizada pelo Pai Suficiente, segundo o pediatra Wynnicott, que permite as frustações, os prazeres e liberdades e ainda sim estar lá presente. É o caso da criança que explora o meio livremente, mas se preocupa em olhar para trás em busca do pai, como que perguntando, numa prova de confiança, se deve seguir com a sua investida.

O que esse exemplo mostra é que, além de aprender sobre o novo para treinar “músculos da mente” e praticar exercícios para que os efeitos positivos das atividades físicas beneficiem o cérebro, precisamos estabelecer e manter vínculos, alimentando relações de confiança, cultivar o que a sociedade (muitas vezes) considera inútil... mas, definitivamente, não é!

Produção e edição