ESQUECI MINHA SENHA >
Sincodiv
ÍNDICE SINCODIV-SP ONLINE
Seção Entrevista
15/12/2016 - 17:55:37
Bate-papo com Marco Antonio Meggiolaro, professor campeão de robótica da PUC-Rio
Por Matheus Medeiros e Renan De Simone
Divulgação Professor Marco Antônio Meggiolaro, engenheiro mecânico e doutor em Robótica pelo MIT e coordenador da RioBotz, equipe de pesquisa da PUC-Rio.

Pouca gente sabe, mas o robô mais destruidor do mundo foi feito no Brasil! Competindo com outros 55 robôs de outros cinco diferentes países além do nosso (Estados Unidos, França, Canadá, Austrália e Inglaterra), o "Minotaur" ficou em terceiro lugar e recebeu o troféu de "mais destruidor" da BattleBots – maior competição de batalha de robôs do mundo, organizada e transmitida pelo canal de televisão norte-americano ABC e que contou com audiência de mais de cinco milhões de pessoas em seu capítulo final.

O professor Marco Antonio Meggiolaro, engenheiro mecânico e doutor em Robótica pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês), é coordenador da RioBotz, equipe de pesquisa da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que ganhou 66 títulos nacionais e internacionais em 13 anos de batalhas com o robô construído por ela e que pesa 113 kg.

Ele, que é personagem do nosso Bate-papo deste mês, conta que apesar do sucesso da equipe brasileira na batalha de robôs, o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de robótica no país – nas mais variadas áreas, como Transporte, Médica, Industrial, entre outras – ainda se encontra num patamar bem inferior na comparação com as grandes potenciais mundiais.

"Temos mentes brilhantes no Brasil, mas ainda contamos com a limitação de hardware. Por sermos uma indústria de pequeno porte, os materiais são mais caros. Por isso, aqui, muitos grupos de pesquisa trabalham mais na parte de inteligência dos robôs, pois é mais barato. Desenvolver um robô de grande porte e com alta precisão no país é praticamente impossível", explica Meggiolaro.

Nessa entrevista, o professor fala sobre o início do seu interesse por robótica, os principais trabalhos desenvolvidos na área no Brasil e sobre como a robótica está influenciando a vida pessoal e profissional pelo mundo.

Confira o Bate-papo na íntegra a seguir:

Sincodiv-SP Online: Conte um pouco sobre sua história e formação. Como surgiu o seu interesse pela área?

Marco Antonio Meggiolaro: Comecei a me interessar por robótica ainda criança, muito provavelmente influenciado por filmes e programas de televisão. Além disso, eu adorava estudar matemática e física. Por isso, quando fui entrar na faculdade, resolvi fazer Engenharia Mecânica.

Me graduei e fiz mestrado na área na PUC-Rio, estudando, principalmente, materiais (estruturas e aplicações de metais e outros tipos de materiais), mas também robótica, que ainda era um assunto pouco abordado no Brasil.

Fui ter um contato maior com robótica, quando fiz doutorado, entre 1996 e 2000, no MIT, nos Estados Unidos. Lá, pude conhecer e pesquisar mais sobre o assunto e ver o quanto a robótica já estava avançada no mundo, em pesquisa e aplicação.

Em 2000, voltei ao Brasil como professor e pesquisador da PUC-Rio na área de robótica e materiais e, dois anos depois, alunos meus me procuraram com o objetivo de fundar uma equipe de batalha de robôs, a RioBotz, criada em 2003, e que foi o melhor dos mundos para mim por unir minhas duas áreas de interesse: robótica e resistência de materiais.

As competições de robôs ainda eram recentes no Brasil, já que o primeiro campeonato foi disputado em 2001, mas já existiam nos Estados Unidos desde 1994.

Sincodiv-SP Online: Como você percebe a evolução da maneira como a robótica é tratada na sociedade brasileira nesses anos? Atualmente, robótica é até matéria escolar em alguns colégios...

Marco Antonio Meggiolaro: Esse é um tema que vem se popularizando muito, também pelas batalhas de robôs, que atraem os jovens. Além disso, como o convívio com a robótica é cada vez mais rotineiro e perceptível para as pessoas – em eletrodomésticos, veículos, casas inteligentes, etc. – elas vêm enxergando maior importância disso em suas vidas.

A robótica está influenciando muito a sociedade, tanto na questão pessoal, trazendo mais qualidade de vida, quanto profissional, com maior produtividade e diminuição da burocracia.

Sincodiv-SP Online: Qual a importância do contato com a robótica ainda na infância/adolescência? Qual a melhor maneira de trabalhar esses primeiros passos?

Marco Antonio Meggiolaro: Ajuda nessa adaptação se a robótica for inserida cada vez mais no cotidiano de uma pessoa, permitindo contato com o tema ainda jovem, e ainda cria uma nova habilidade na criança, estimulando a criatividade. Além disso, é uma boa maneira de se trabalhar com uma abordagem prática de matérias escolares básicas como física, química e matemática, facilitando a aprendizagem.

A robótica funciona a partir de um tripé: mecânica (estrutura e montagem dos robôs), elétrica/eletrônica e computação, que envolve a programação e a inteligência da máquina.

Dentro desse contexto, acredito que a melhor maneira de trabalhar com esse conteúdo com a juventude é fazer aos poucos, introduzindo os diversos universos e mostrando que eles se "conversam". Principalmente para o jovem atualmente que sabe o que é um mouse, mas, muitas vezes, não conhece uma chave de fenda. Além disso, é importante trabalhar com a montagem de pequenos equipamentos, o que gera resultados palpáveis e empolgam a criança.

Sincodiv-SP Online: Como a robótica vem influenciando a vida das pessoas em áreas como Saúde, Educação, Segurança?

Marco Antonio Meggiolaro: Por causa da evolução dessa tecnologia inteligente, distâncias vêm sendo diminuídas e isso é importante para as pessoas se relacionarem e, por exemplo, vidas serem salvas, com sistemas que permitem que operações médicas sejam feitas à distância. Além disso, permite que a força de trabalho seja deslocada para áreas mais específicas e estratégicas, menos repetitivas e burocráticas.

Uma das grandes vantagens do desenvolvimento da robótica está relacionada com o aumento da precisão das coisas e isso atinge diretamente áreas como Saúde, Segurança e Militar, etc. E isso é essencial, já que o potencial de precisão do ser humano tem um limite, que já vem sendo superado por sistemas robóticos.

Outro ponto – e que pode representar um novo grande salto na robótica no mundo, por influenciar diretamente na vida de bilhões de pessoas – é o avanço dos carros autônomos, que apesar de começarem a ser expostos e debatidos recentemente, são frutos de uma pesquisa de longa data, com mais de 20 anos.

Os carros autônomos também trazem importantes discussões para a área de robótica, que envolve a qualidade de vida das pessoas, mas, principalmente, a ética e a segurança.

A questão máxima desse assunto é, primeiramente, a confiabilidade, já que não adianta que a programação, a mecânica e a parte elétrica dos veículos funcionem em 99,9% do tempo. Esse 0,01% é essencial.

Já a discussão ética tem a ver com a programação do carro e vem sendo muito debatida nos últimos tempos. Por exemplo, em caso de uma situação perigosa, como uma batida iminente, o carro deve se "lançar" para a calçada, colocando a vida de pedestres em risco, ou bater mesmo assim, colocando em risco a vida dos passageiros?

Uma decisão dessas, quando acontece com uma pessoa dirigindo, é tomada instintivamente, mas nos carros, que analisa todas as possibilidades em milésimos de segundos, ela é programada. Ainda há muito o que se avançar no campo, mas isso deve acontecer rapidamente.

Para ler a segunda parte da entrevista com Marco Antonio Meggiolaro, professor de robótica e coordenador da RioBotz, equipe de pesquisa da PUC-Rio na área clique aqui.

Produção e edição