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Seção Entrevista
26/01/2017 - 09:49:50
Bate-papo com a Monja Coen, referência no debate para a Cultura de Não Violência – PARTE II
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone

Sincodiv-SP Online: Nesse último ano, a violência e a intolerância estiveram disseminadas das mais variadas formas na sociedade e, não raro, até por motivos fúteis, pessoas se agridem e se ofendem. É da natureza humana? É cultural? É questão de educação?

Monja Coen: É da natureza humana, que não foi educada. E quanto à cultura, nós somos fruto de uma cultura de violência. Aprendemos a história da humanidade por suas guerras, não por acordos de paz que foram selados. A história é feita sempre pelo que venceu.

E o fato é que não funciona dessa forma. Não há a valorização das alianças de paz, de acordos, de partilha que permearam toda a construção social das nações. É uma visão falsa de quem somos nós.

Falta educação, falta cultura. Aqui, no Brasil, temos um passado de dominação e por meio dela construímos uma percepção distorcida sobre como devemos agir para conseguirmos algo.

Nas últimas eleições (presidenciais), as campanhas de marketing foram elaboradas por meio da desconstrução do outro, do ataque. A rivalidade foi estimulada e as pessoas, influenciadas, fecharam-se em suas convicções, sem abertura para enxergar que ninguém é todo bom, nem todo mau.

As pessoas não se deram conta do jogo de um lado e do outro. Não estão aptas para tomarem decisões mais conscientes.

Sincodiv-SP Online: Considerando que estamos num mundo muito mais globalizado, o que, em tese, propõe mais intercâmbio e compreensão, por que temos a impressão de que a tolerância e o respeito às diferenças diminuíram?

Monja Coen: Não aumentou, nem diminuiu. Continuamos seres limitados, aprisionados em nossos conceitos e pensamentos. Tudo está mais público apenas.

No quesito violência, estamos protegidos, de certa forma, pela internet e é justamente nas redes sociais que as pessoas estão mais violentas. Elas se blindam por meio de suas telas e se transformam. Insulto, mas não vejo você, e se não quiser ver sua resposta, apago...

Não somos capazes de acolher as ideias diferentes. Trabalha-se para isso, por meio dos encontros inter-religiosos, para promover não a tolerância (no sentido de suportar), mas compreensão e respeito ao seu direito de pensar de outra maneira. É a partir daí que começa o diálogo. É a partir da consideração de que existe a outra forma de pensar – e tudo bem com isso.

Sincodiv-SP Online: Qual a visão da Cultura de Não Violência para a forma como as pessoas se comunicam umas com as outras? O que muito se faz de forma inadequada no dia a dia e que traz consequências para a sociedade ao longo do tempo?

Monja Coen: As pessoas devem observar a si mesmas. Penso muito como Leandro Karnal (historiador brasileiro) sobre as corrupções do dia a dia que envolvem, por exemplo, passar com o sinal vermelho, furar a fila, esbarrar nas pessoas na rua, parar em fila dupla no trânsito, etc.

São ações que representam a violência porque causam constrangimento, levam a conflitos. A piada discriminatória e o jeito de falar indelicado são considerados as violências diárias – absolutamente desnecessárias – que levam ao ciclo de violência.

O cultivo cuidadoso do trato das pessoas é um ótimo começo para mudarmos as relações de nosso entorno.

Sincodiv-SP Online: A solução passa pela formação das crianças? O que é necessário fazer para incutir nos mais jovens um modo de pensar e de agir que os prepare para uma Cultura de Paz?

Monja Coen: Eu acredito que devemos ensinar meditação para as crianças desde os primeiros anos de escola. Faz parte da mente humana a capacidade de prestar atenção no momento presente – e podemos treiná-la para tanto.

Hoje, há um movimento chamado mindfullness, que reuniu aspectos da prática meditativa dissociando-a da religião para que todas as pessoas possam praticar. São ações simples que são propostas às crianças, como pedir que deem um gole de água e sintam como o líquido desce até o estômago. Onde está a água agora? E, com isso, ensina-se a sentir a presença do momento, de ter o cuidado da atenção.

É relevante não apenas dizer que é necessário compartilhar, mas explicar a importância de dividir o brinquedo, chamar a atenção para a tristeza do colega que não ganhou o direito de brincar. São ações que, propostas desde cedo, levam à consciência da importância de vivermos com muita presença do agora, fazendo o possível para gerar harmonia em nosso entorno.

Ao abrirmos mão dessas práticas, incentivamos o individualismo, a falta de presença, que é prejudicial para todos nós. Temos que ter a individualidade, sim, mas também reconhecer o valor do time, que se apoia mutuamente. Isso nos falta.

O exemplo dos pais será sempre fundamental. E é nos pequenos atos, no dia a dia, que ensinamos nossas crianças. Quando um pai ou mãe recebe uma ligação e pede para dizer que não está porque não quer atender, a criança vê e reproduz em outros momentos. E depois os pais se perguntam: mas quem ensinou você a mentir meu filho?

Sincodiv-SP Online: Em um texto, você pontuou: "Somos o Caminho. Que senda construímos com nossos pensamentos, gestos, palavras? Ilusão. Desilusão. Acorda. Ainda é tempo. Redescobre seu papel neste cenário que não é cenário é realidade." Por onde começar?

Monja Coen: Respiração consciente. Inspire, expire, repita. Sinta o ar entrando pelo nariz, percorrendo o caminho até os pulmões. Perceba a si mesmo. Respeite seu corpo, seus limites, sua mente. Aprecie o entorno. Colha suas respostas. Transforme-se para o seu bem.

Produção e edição