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Seção Entrevista
26/01/2017 - 17:31:12
Bate-papo com a Monja Coen, referência no debate para a Cultura de Não Violência
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação / TEDx Talks Monja Coen, líder zen-budista brasileira que é referência nos temas de Ansiedade, Meditação, Cultura de Não Violência e Respeito.

Na contramão de todas as expectativas, foi justamente a agitada cidade de São Paulo o berço da Monja Coen, líder zen-budista do país que transcendeu a atuação pela religião por seu esforço e disposição em traduzir aos mais diversos públicos os conhecimentos aprendidos sobre Ansiedade, Meditação, Cultura de Não Violência, Respeito e tantos outros aspectos da convivência presentes no dia a dia das pessoas.

Ela é conhecida por participações em eventos, como TED, palestras para corporações e até apresentações no YouTube. Nesta entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, Coen traz algum alento para todos nós. Segundo ela, não mudamos tanto assim como seres humanos. As questões que nos afetam, embora pareçam novas e cada vez mais frequentes, são as mesmas há mais de dois mil anos, sendo a atenção para o momento presente, consigo e com os outros, o caminho para mais compreensão e harmonia.

"É o conjunto de todos os sentimentos possíveis que compõe o contexto de paz porque o que faz a diferença é a maneira como nos expressamos diante das situações boas ou ruins. Podemos nos colocar como agentes ou reagentes", explica.

Ela também aborda momentos de sua história pessoal, destacando que a monja foi forjada no exercício de testar a sua capacidade de convívio com o diferente e de como estabelecer a harmonia (mesmo diante dos desafios diários).

 A seguir, confira a íntegra do bate-papo, o primeiro de 2017:

Sincodiv-SP Online: Chama atenção sua liderança na representação da cultura budista no Brasil. Existem outras monjas com a mesma expressão que você possui por aqui? Fale um pouco sobre a participação das mulheres no Budismo.

Monja Coen: Existem várias monjas de expressão no Brasil. É que eu, por ter exercido Jornalismo, conhecer a mídia, não tenho os receios que outras lideranças possuem. Pode até haver "deturpação" daquilo que se diz em algum momento, mas sei que a função da imprensa não é essa.

Depois que conclui meus estudos e voltei ao Brasil, havia duas monjas no templo da Liberdade (em São Paulo-SP). Fui muito bem recebida, com muita alegria. Há monjas de nossa comunidade Zen Budista em Brasília (DF), São Leopoldo (RS) e Viamão (RS).

É comum também na Coreia do Sul, Malásia, nos Estados Unidos e na China. Agora, no Japão, a comunidade é bastante masculina e o movimento de ascensão feminina teve início apenas no período da II Guerra Mundial, quando praticamente todos os monges foram convocados para lutar com o exército japonês e as monjas passaram a assumir funções que, até então, eram proibidas a elas. Conheci a senhora que deu início a esse movimento. Ela tinha 90 anos, era pequenina e tão poderosa!

Ainda assim, diria que, se temos cerca de 30 mil monásticos, apenas três mil são mulheres. Então, é possível dizer que aqui no Brasil, dentro da minha ordem, temos uma situação em que as mulheres estão numa situação de maior equidade com os líderes budistas do sexo masculino.

Sincodiv-SP Online: Quais momentos você entende que foram determinantes em sua trajetória pessoal?

Monja Coen: Foi no exercício do Jornalismo que tive o primeiro contato com o Zen Budismo, na produção de uma reportagem sobre "sociedades alternativas". Deixei a profissão em pouco tempo, pois tive uma decepção grande por alteração de um texto que escrevi. A modificação que fizeram poderia trazer prejuízo pessoal à fonte entrevistada (que confiou em mim), na época, um adolescente. Então, decidi me afastar e tirar um ano "sabático". Mudei para Londres para aprender inglês e resolvi que não voltaria para a redação.

Depois, de volta ao país, trabalhei dando aulas de inglês e foi quando conheci meu marido, um norte-americano. Entre idas e vindas aos Estados Unidos, acabei em contato com a filosofia zen budista em Los Angeles (EUA). A meditação era sentada, com olhos entreabertos e não tive mais dúvidas de que era esse o caminho que queria seguir.

Meu instrutor me questionava muito, dizia que não estava convencida, nem era capaz de convencê-lo. Foi, então, justamente no dia em que minha mãe, numa ligação telefônica, aceitou meu pedido para dedicação à vida monástica que realmente fui em frente. Senti-me livre para seguir com as bênçãos dela – tão relevante para mim.  

Sobre ela, aliás, tenho algumas lembranças importantes. Na infância, uma vez, tinha 11 anos de idade e perguntei para minha mãe como pode a pessoa que a gente mais ama ser também a que a gente mais odeia? (E eu adorava minha mãe). E não me esqueço sobre a nossa conversa sobre isso.

Ela era pedagoga, trabalhava (e muito) no Ministério da Educação, avaliando os profissionais das escolas. Declamava poesias sempre com abordagem de temas sociais, que mexiam muito com o meu senso de realidade. Mais tarde, ela foi estudar Filosofia e, para que ficássemos mais tempo juntas, eu lia para ela os textos da pós-graduação. Tomei gosto pela leitura, pelas reflexões e pelos questionamentos!

Sincodiv-SP Online: Como foi a experiência da formação de monja?

Monja Coen: "A monja" foi forjada no Mosteiro Feminino de Nagoya, Aichi Senmon Nisodo e Toku Betsu Nisodo, onde residi por oito anos. E meu desenvolvimento se deu por meio do convívio com o diferente.

Imagine você que eu estava no Japão. A cultura é diferente, as expectativas são diferentes. Éramos seis noviças num mesmo quarto, dormindo juntas, comendo juntas, tomando banho juntas. No total, éramos 24 mulheres, enfrentando desafios, atritos de relacionamento.

Uma das japonesas noviças dizia que eu não tinha o coração nipônico. Então, num dia, em que ela estava muito nervosa e batia portas, eu disse: é esse o coração japonês? Ela nunca mais tocou no assunto (risos)!

A cada seis meses, mudávamos de quarto, de companheiras e de funções. A ideia era testar nossa capacidade de convívio com o diferente e ensinar como estabelecer a harmonia (mesmo diante dos desafios diários).

Sincodiv-SP Online: Você é convidada para falar sobre temas da convivência com o próprio eu e com a comunidade. Aborda Ansiedade, Meditação e Cultura da Não Violência para diversos públicos. São questões que são tratadas pela religião, mas também correm à sua margem. O que percebe no contato com as pessoas?

Monja Coen: Tenho me surpreendido com o resultado de uns filmes que gravei para o canal MOVA do YouTube (https://www.youtube.com/user/MOVAFILMES), em que falo sobre essas questões, que afligem as pessoas. Fui almoçar fora outro dia e dois jovens disseram gostar muito da abordagem que dou para os temas! Foi gratificante receber o reconhecimento de pessoas tão novas.

O fato é que as pessoas não mudaram, estão procurando lidar com suas ansiedades, estresses, com o que há de diferente e isso acontece desde muito tempo. Falo sempre, sim, sobre ansiedade porque Buda falava sobre isso. Eu não crio nada, apenas adapto para a linguagem de hoje os ensinamentos de Buda, que datam de 2.600 anos atrás.

O que é prática meditativa? É perceber os momentos mentais. Você percebe a alegria, a tristeza, o não pensamento. Toda essa multiplicidade de sentimentos. Só de conseguirmos notar o que acontece conosco nos faz mudar a percepção sobre nós mesmos (e a forma como reagimos aos eventos). Portanto, não mudamos nunca!

Os conflitos do homem têm sido os mesmos há mais de dois mil anos. Tudo igual! A diferença é que sabemos mais sobre o que acontece com o outro e temos estudado mais sobre as questões que afligem o homem.

Temos mais informações sobre lugares distantes, o que não acontecia no passado. Tudo o que acontece em qualquer lugar, ficamos sabendo agora. Isso é uma novidade.

Buda dizia: Como é que você encontra o Nirvana? Como você encontra paz e tranquilidade? Se você for capaz de perceber o que sente, compreenderá o que fazer. É o conjunto de todos os sentimentos possíveis que compõe o contexto de paz porque o que faz a diferença é a maneira como nos expressamos diante das situações boas ou ruins. Podemos nos colocar como agentes ou reagentes.

Buda não era uma deidade, mas um ser humano que se questionou sobre o sentido da vida, com as mesmas aflições que todos temos até hoje. Ele saiu do castelo em que morava e foi buscar as respostas, praticou ioga, filosofia e meditou, deixando que todas as provocações passassem sem que se prendesse a elas.

Ele chegou à conclusão de que a grande Terra, eu e todos os seres somos o caminho. Não há um eu separado. O que ocorre, entretanto, é que as pessoas não despertaram. Não percebem a si mesmas nem as demais, às quais devem respeitar por todas as suas similaridades e diferenças.

Mesmo no meio de toda agitação, buscamos, todos, essa mesma paz e harmonia para decidir da forma mais tranquila sobre as questões, trazendo um pouco do lúdico para o dia a dia, a leveza que torna a vida agradável e feliz. Isso é o que vejo em todos os lugares por onde passo.

As pessoas estão buscando viver melhor com elas mesmas, pois vivem atormentadas com o medo de errar, a ansiedade, a paranoia de perseguição...

Sincodiv-SP Online: Pode explicar um pouco sobre a origem da Cultura da Não Violência?

Monja Coen: Dentro do Ioga, encontramos o que devemos ou não cultivar. E a violência está entre as coisas que não devemos cultivar. Para você alcançar o estado que chamamos de samádi (paz, comunhão com o universo), uma das coisas que devemos buscar é a ahim?? (a não violência).

Essa violência a que me refiro é algo maior do que aquela que conhecemos do embate físico. Trata-se da violência consigo mesmo, quando tratamos a nós mesmos como vítimas, ou quando reprimimos, abusamos do outro, por exemplo.

Nós temos preconceitos, somos discriminatórios. Não adianta negar. É justamente enxergar e reconhecer essas características que possibilita trabalharmos para não deixar crescer esse sentimento e compreender o outro.

No Estado Islâmico é assim: se você não pensa como eu penso e não age como eu, deve ter a cabeça cortada. Nas relações entre as pessoas, elas não são muito diferentes... Deixam de falar umas com as outras porque não concordam entre si. Somos muito violentos de maneira geral.

Agora, será que conseguimos buscar compreender por que razão a pessoa enxerga a realidade sob um prisma diferente do nosso? Será que consigo trazê-la para mais perto para que enxergue sob meu ponto de vista?

Esse é um movimento que se parece, por exemplo, com a prática da arte marcial de Aikido, em que não há ataque. A defesa é usar a força do outro para desequilibrá-lo. Ou seja, você não usa a violência. Isso é uma arte que devemos aprender.

Sincodiv-SP Online: Em sua opinião, existe a violência legítima?

Monja Coen: Prefiro dizer o seguinte: nós podemos resolver muitas questões por meio da não violência ativa. Posso ter ações assertivas, mas não violentas. É muito mais fácil mudar por meio da participação social, trazendo meus valores para o maior número de pessoas possível do que pela violência.

Infelizmente não é a maioria que pensa desta forma...

Para ler a segunda parte do Bate-papo com a Monja Coen, referência no debate para a Cultura de Não Violência, clique aqui.

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