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Seção Entrevista
16/02/2017 - 15:45:13
Bate-papo com Murilo Lobo, carnavalesco da Unidos do Peruche PARTE II
Por Renan De Simone e Matheus Medeiros
Divulgação / Escola de Samba Unidos do Peruche Algumas das fantasias que serão apresentadas pela escola de samba neste ano.

Sincodiv-SP Online: Qual é a diferença do Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo?

Murilo Lobo: Existem algumas, mas não é uma questão de serem boas ou ruins, são aspectos diferentes. Não podemos negar que o Rio de Janeiro é o berço do samba e que, portanto, tem muito mais tradição nessa arte, aliada ao Carnaval, mas São Paulo vem crescendo num ritmo muito intenso. É necessário notar também que, lá no Rio, a verba destinada ao Carnaval não é municipal e sim estadual, portanto maior.

Em questões técnicas, em São Paulo temos uma quantidade menor de alegorias. Entretanto, nossos carros alegóricos tendem a ser maiores por uma questão da estrutura da cidade, pois nossos pontilhões são mais altos, bem como temos mais espaço na concentração em nosso sambódromo. Enquanto a média de altura dos carros no Rio é de oito a nove metros, aqui alcançamos 15m, nesse ano, um de nossos carros tem 16m.

São duas festas distintas, mas ambas belas.

Sincodiv-SP Online: Este é seu terceiro ano na Unidos do Peruche, sendo que o samba-enredo é, novamente, de sua autoria. Qual é o tema e qual foi a inspiração para a criação?

Murilo Lobo: Faz muito tempo que quero cantar uma homenagem a Salvador. Muito já se falou do Carnaval baiano, mas não especificamente sobre Salvador. E nesse ano viremos com o enredo "A Peruche no maior axé exalta Salvador, cidade da Bahia, caldeirão de raças, cultura, fé e alegria".

Para isso, começamos com uma história/lenda (contada por Jorge Amado) de um português que naufraga na Praia Vermelha, em Salvador, e se encontra com índios tupinambás, que eram canibais. Para não morrer, ele, com seu mosquetão, faz um disparo e mata um pássaro, fazendo com que os índios o saúdem como Caramuru, o deus do trovão.

Eles concedem uma índia (Paraguaçu) da tribo para servi-lo e ele se casa com ela, leva-a para a corte francesa, onde se converte ao cristianismo e é batizada como Catarina do Brasil. Casado com ela, já de volta ao Brasil, eles têm 18 filhos e começam a gerar as famílias brasileiras.

A história conta ainda que Moema, irmã de Paraguaçu, amava muito o "cunhado" e que, quando vê os dois partirem para a corte francesa, vai a nado atrás do navio. Quando a embarcação some no horizonte, ela se entrega ao mar, se misturando às conchas, às águas e ao reflexo das estrelas. É por isso que o mar da Bahia fica para sempre iluminado de ouro e prata, em homenagem a esse amor.

Abrimos nosso desfile assim, com nosso abre-alas de cerca de 48m de comprimento e 16m de altura, a "muralha verde" de Salvador onde, atualmente, está localizado o elevador Lacerda.

A seguir, falamos da formação do povo, com uma mistura de portugueses, índios, corsários de diversos países e, posteriormente os negros, que foram essenciais na cultura baiana, pois, ao se recusarem a esquecer seus costumes africanos, enriqueceram os daqui e é muito por isso que Salvador tem essa mistura incrível de raças e religiões convivendo pacificamente.

Sincodiv-SP Online: Nem sempre pacífica a cidade foi, porém...

Murilo Lobo: Não! E contamos isso falando da terra de fortes, nosso carro que traz a luta daquele povo. No Sudeste tendemos a comemorar a independência do Brasil em 07 de setembro como se os portugueses tivessem se retirado do país, mas, na verdade, eles se aquartelaram em Salvador, no Nordeste, porque queriam repartir o Brasil. Mas é o povo caboclo, já misturado, que vai pegar em armas e expulsar esses portugueses. Para eles, a independência da Bahia e do Brasil é marcada, assim, em 02 de julho.

Interessante destacar três grandes ícones essenciais para a vitória brasileira, Maria Filipa de Oliveira, que se travestiu de homem para lutar; Maria Quitéria, primeira soldada oficial brasileira; e Joana Angélica, religiosa que morreu defendendo o convento da Lapa, em Salvador, contra os soldados portugueses. Essas três figuras demonstram a importância e participação das mulheres na história.

Nesse carro, trago o caboclo, símbolo máximo da festa cívica de Salvador que, em 02 de julho, comemora essa história, mostrando a figura do próprio caboclo apunhalando um dragão, que representa a arrogância portuguesa. Por isso, nossa escola trará os caboclos, as mulheres, a muralha verde e até mesmo o dragão. Além de um carro com 84 crianças representando a comunhão religiosa que há em Salvador.

Sincodiv-SP Online: E quanto àquelas outras figuras que parecem músicos, e aquela construção com casas (estruturas altíssimas sobre um dos carros)?

Murilo Lobo: Faremos homenagem ao caldeirão de raças, religiões e chegaremos ao Pelourinho, local no qual, a partir de tanto sangue derramado, hoje brota cultura. Essa construção com casas que você vê é o próprio Pelourinho, carro que contará com cerca de 120 atores sobre ele. Encerrando o caldeirão de culturas, teremos, a seguir, o de alegria, que conta a história do Carnaval baiano.

Sincodiv-SP Online: E como nasceu esse Carnaval de rua tão diferente e gigante?

Murilo Lobo: Esses músicos caricaturizados fazem parte deste trecho. Antigamente, a festa popular incluía brincadeiras como jogar farinha nas pessoas, mas a elite da época proibiu o festejo e o Carnaval de rua se resumiu, por um tempo, à população mais simples nas calçadas tendo de assistir a um desfile pomposo da elite pelas ruas, porém sem alegria ou música contagiante. Eles usavam aquelas fantasias carregadas, bem europeias, sem conexão com a Bahia.

Dodô (Adolfo Antônio Nascimento) e Osmar (Osmar Álvares Macedo) eram estudantes de música buscando formas de amplificação de som e, na década de 1940, conseguiram eliminar a caixa acústica de um violão, captando o som diretamente das cordas, dando origem à guitarra baiana, chamado de algo como "pau elétrico". Em 1950, eles prepararam um carro (um Ford 29) com uma espécie de alto-falantes, mais parecidos com megafones, e foram para um dos corsos comemorar o Carnaval.

Chegando lá, ninguém queria deixá-los entrar, pois não era o padrão da festa. Mas tanto insistiram que um dos guardas permitiu sua passagem e eles, então, com seus "paus elétricos" plugados às caixas de som, iniciaram uma alegre música. O povo ficou enlouquecido e invadiu a rua, acompanhando, pulando e dançando ao lado do Ford 29. Esse formato, que hoje é conhecido como trio elétrico, passou a ser assim chamado no ano seguinte, em 1951, quando Temístocles Aragão se uniu à dupla. O "trio" se referia aos músicos e não ao veículo, como hoje se faz.

Fato curioso diz que, naquele primeiro dia, após cerca de três horas de música e folia, Dodô disse ao motorista do carro: "vamos parar, estamos exaustos". Ao que ele respondeu: "já acabou a embreagem, o freio, o motor. Quem está nos levando agora é o povo e não o carro!" (risos).

Sincodiv-SP Online: Então o caldeirão de alegria se encerra trazendo o início do Carnaval baiano?

Murilo Lobo: Sim, junto a uma homenagem a blocos incríveis que fundamentam não só um trabalho cultural de música, mas também fazem um resgate de negritude, de educação e atuação social. São eles: Filhos de Gandhy, Ilê Aiê, Olodum e Timbalada.

O trabalho desses blocos é muito importante para desenvolver a autoestima de muitas crianças em comunidades carentes. Eles, até hoje, têm de atuar contra o estigma de que o negro é "feio, tem o cabelo ruim e é fedido". Tais blocos tentam reviver a grandiosidade dos negros e, para isso, fazem trabalhos belíssimos, educativos e históricos – como, por exemplo, o Olodum que canta à dinastia dos faraós negros. É um trabalho que vai além do Carnaval, mudando a vida das pessoas.

Para completar esse quadro, nossa bateria vai homenagear Carlinhos Brown que, além de um grande músico, é um ser humano incrível que atua pela comunidade e tem um trabalho social empoderador que faz desde projetos para rebocar casas até resolvendo questões de saneamento básico.

Sincodiv-SP Online: E qual é a mensagem que o Murilo Lobo quer passar para as pessoas sobre a festa?

Murilo Lobo: O meu desejo é que as pessoas possam conhecer um pouco mais sobre o Carnaval, sobre as escolas de samba, notando que a festa traz envolvimento e comunhão, relembra nossas histórias, lendas, "nos resgata", por assim dizer.

E gostaria de convidá-las para virem participar, sentir a pulsação desse espetáculo, porque ainda percebo que as pessoas conhecem pouco a respeito. Vejo que apenas muito recentemente as pessoas em São Paulo decidiram participar do Carnaval em vez de viajarem para longe.

Espero que o povo paulista abrace a nossa cultura para construirmos, cada vez mais, um Carnaval grandioso.

 

Produção e edição