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Seção Entrevista
16/02/2017 - 15:47:14
Bate-papo com Murilo Lobo, carnavalesco da Unidos do Peruche
Por Renan De Simone e Matheus Medeiros
Divulgação / Escola de Samba Unidos do Peruche Murilo Lobo, carnavalesco da escola de samba Unidos do Peruche.

Os barulhos de solda e de serra, misturados aos cheiros de cola e tinta, aliam-se ao visual dos tecidos de cores vibrantes, ajudando a compor o quadro de uma verdadeira oficina viva e pulsante. O barracão é enorme, com cobertura alta e diversos artistas trabalhando. E a pergunta é: como uma muralha verde, um dragão, canhões de guerra, estátuas de negros, músicos e mulheres conseguem se condensar em um tema que homenageia a cidade de Salvador?

Ferragens, estruturas, armações, estátuas gigantescas feitas com isopor e fibradas, e uma série de outros artefatos fazem parte da entrevista exclusiva que a reportagem do Sincodiv-SP Online realizou com Murilo Lobo, carnavalesco principal da escola de samba Unidos do Peruche, da Zona Norte de São Paulo.

Como não poderia ser diferente, para sentir todo o clima vivo do Carnaval, o bate-papo deste mês é a respeito da "festa do Momo" e traz curiosidades, informações e um aprofundamento nessa que é a maior celebração popular brasileira.

Lobo, que já passou pela escola Rosas de Ouro e está há três anos na Unidos do Peruche, conta como é gerenciar tantas pessoas, trata das inovações tecnológicas e do processo criativo de composições, fala da agenda de trabalho, de como a Peruche se reinventou e voltou ao grupo especial com sua contribuição, em 2015, e até mesmo como um Ford 29 faz parte da história do Carnaval baiano.

Acompanhe a entrevista na íntegra a seguir:

Sincodiv-SP Online: Como surgiu o seu envolvimento com o Carnaval? É algo de família?

Murilo Lobo: Minha família sempre gostou da festa de Carnaval, mas apenas como foliões, nunca participamos de uma escola. Aos 15 anos, lembro de uma festa a qual assisti em Tiradentes (MG) e fiquei encantado. Entretanto, me envolvi realmente com o Carnaval há apenas 10 anos.

Sou formado em Arquitetura – ainda atuo no ramo – e estava fazendo um projeto junto ao terceiro setor, um diretor da entidade envolvida me perguntou se eu gostava de Carnaval. Eu respondi que sim e ele me deu uma fantasia para desfilar numa ala da Rosas de Ouro. Foi incrível!

Tenho uma personalidade proativa e ajudei pessoas a amarrarem fantasias, se organizarem e etc., o que fez com que recebesse o convite de, no ano seguinte, ser um dos chefes de ala da escola. Aceitei e passei a me envolver mais, participar de reuniões técnicas e até mesmo a mandar comentários para o concurso de samba-enredo. Ao contrário do que se pensa, cada escola não compõe apenas um samba-enredo, mas sim realizam grandes festivais dos quais, entre diversos, o vitorioso acaba cantado na avenida.

O diretor musical da Rosas de Ouro gostou de meus comentários e então me convidou para participar da comissão julgadora dos sambas. Ali tive mais abertura para falar a respeito das obras e o carnavalesco de lá na época, Jorge Freitas (com passagens nas escolas Rosas de Ouro, Gaviões da Fiel e Império da Casa Verde), me convidou para escrever enredos com ele. Fiquei como assistente dele por cerca de oito anos, aprendendo muito.

Sincodiv-SP Online: Quando entrou na Peruche?

Murilo Lobo: Há três anos, a Unidos do Peruche me convidou para fazer o Carnaval com eles, quando ainda estavam no grupo de acesso. No ano anterior, ela tinha tido uma colocação bem ruim no próprio grupo. Em 2015, durante uma pesquisa sobre uma lenda africana a respeito da transformação de um garoto em guerreiro, decidi que era hora de mostrar para a escola que era possível virar o jogo e crescer, assim como o garoto da lenda. E ganhamos o Carnaval naquele ano, conseguindo subir para o grupo especial.

Sincodiv-SP Online: Muita coisa mudou de lá para cá?

Murilo Lobo: Sim, a comunidade cresceu e foi como um renascimento da Peruche que, no ano passado, conseguiu se manter no grupo especial. Só para se ter ideia, quando cheguei aqui, as festas no barracão tinham a participação de cerca de 300 pessoas. Hoje são mais de 2.000.

Sincodiv-SP Online: Quantas pessoas desfilarão pela escola nesse ano, incluindo a equipe técnica? E qual é a expectativa na avenida, alguma sugestão de campeã?

Murilo Lobo: Na Peruche, serão cerca de 2.600 pessoas, incluindo adultos, crianças, membros e atores. Dessas, 300 são da área técnica.

Como sou também compositor do enredo, a expectativa é grande. Todos entram para ganhar e, se as outras vacilarem, levaremos! No entanto, sou uma pessoa realista e meu ideal nesse ano é uma evolução gradual. Pretendemos consolidar a escola entre as grandes competidoras, animar a festa e contribuir ainda mais para a cultura do nosso país.

Quanto à sugestão de campeã, é difícil. Costumo apostar em bons sambas-enredo, setor que a Peruche tem tradição, pois já trouxe Joãozinho 30, Jamelão e Eliana de Lima, por exemplo. Neste ano, as que parecem vir bem forte nesse quesito são Vai-Vai, Unidos de Vila Maria, Império de Casa Verde, Dragões da Real... Enfim, eu costumo dizer que toda escola entra na avenida campeã e vai perdendo conforme os erros ocorrem ou as outras as superam. Todas têm seu valor!

Sincodiv-SP Online: Como funcionam as posições dentro de uma escola de samba?

Murilo Lobo: A posição máxima da escola é a presidência, aqui na Peruche ocupada pelo Ney (Sidney de Moraes); no projeto como um todo, abaixo dele, está o carnavalesco. E temos os diretores: geral, de harmonia, de música, de ateliê de fantasias e etc. A seguir vêm os demais componentes da escola. Sem contar os agregados da parte administrativa, comunicação, etc.

Sincodiv-SP Online: Como é o trabalho ao longo do ano?

Murilo Lobo: O trabalho é quase ininterrupto. Logo após o fim do Carnaval, temos cerca de 30 dias para definir o tema e enredo para o próximo. Por volta de maio, já com o tema do enredo definido, organizamos os festivais de samba-enredo, quando os compositores criam diversas obras.

Em média, participam de 18 a 25 times de compositores (com diversos integrantes, incluindo os escritores e parceiros comerciais), que, com seus respectivos sambas participarão de uma seleção até que o ganhador apareça. Nesse meio tempo, como o enredo já está definido, tem início a confecção das peças e fantasias piloto.

Em agosto, os artistas e artesãos chegam para o trabalho pesado e entre setembro e outubro começam os ensaios na quadra.

Sincodiv-SP Online: Os artistas e artesãos chegam de onde? A maior parte do trabalho em uma escola de samba não é voluntária?

Murilo Lobo: Há muitos anos o Carnaval tem se modificado e, para o trabalho pesado mesmo, o voluntariado é quase inexistente. Isso, ao contrário do que parece, é muito bom, pois profissionaliza a festa, gera empregos e renda para o país.

Há uma prática comum nas escolas de samba de São Paulo, do Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, de "importar" artesãos da cidade de Parintins (AM). É claro que existem profissionais da própria cidade de São Paulo e de cada escola trabalhando, mas a grande maioria da mão de obra é de Parintins.

Eles possuem uma escola de artes lá que "abastece" os carnavais de outros locais. Em agosto, já está acordado que as escolas contratarão esses profissionais. Então eu tenho trabalhando conosco ferreiros, escultores, pintores, etc., vindos de lá.

Sincodiv-SP Online: E de onde vem a verba de uma escola de samba para pagar todos os profissionais?

Murilo Lobo: Uma escola de samba tem diversas maneiras de gerar verba. Há uma verba fixa que recebemos da prefeitura da cidade de São Paulo para incentivo à cultura; temos também uma verba de direito de imagem sobre as transmissões realizadas pelas emissoras de TV. Quando no grupo especial, esse valor vem da Rede Globo. E conseguimos renda também com a realização de festas nos nossos barracões, vendendo bebida e comida aos participantes.

Além disso, muitas vezes contamos com patrocinadores, parceiros e apoiadores da escola. Desde pessoas físicas até empresas. Às vezes contribuem com materiais, em outras patrocinam um carro alegórico todo e etc. Esse ano, por exemplo, a Peruche conta com a parceria da Avatim, empresa de cosméticos que está trabalhando junto à prefeitura da cidade de Salvador para criar uma identidade olfativa para o local. Apelidada de "Xêro para Salvador", a ideia é espalhar a fragrância em locais estratégicos do município – como pontos turísticos, aeroporto, etc.

Como falaremos da cidade de Salvador, a Avatim está nos apoiando e teremos essa fragrância, esse "Xêro", também no nosso abre-alas.

Sincodiv-SP Online: Você precisa lidar com diversas pessoas na condução dos trabalhos. Não apenas conhecidos, mas, como disse, até profissionais de outros locais, como é gerenciar as equipes?

Murilo Lobo: É preciso delegar funções e confiar nas pessoas que estão com você. O trabalho acontece em três grandes frentes: barracões, quadra e nos ateliês de fantasia. Ao todo, são mais de 70 profissionais trabalhando ininterruptamente de agosto até o dia do Carnaval.

Para coordenar todas essas pessoas, conto com assistentes e, neste ano, temos o reforço de um carnavalesco parceiro, o Sérgio Gall. Mas nada é possível sem planejamento, então é preciso planejar muito, fazer agendas semanais, planos diários e cronogramas do que devemos terminar e quando para as etapas serem concluídas a tempo e com qualidade. Tudo tem de ser em sintonia, pois uma parte do trabalho depende da outra e precisam estar alinhadas.

Para as coisas urgentes ou inesperadas, estou próximo o tempo todo para decidir rapidamente sobre o que for necessário, em especial mudanças repentinas. Nesse quesito, devo também agradecer ao Ney, presidente da Unidos do Peruche, que confia no meu trabalho e sempre me deu liberdade para executar o que for preciso.

Sincodiv-SP Online: Ter liberdade para trabalhar é fundamental?

Murilo Lobo: Sim, e o Sidney cria esse ambiente aberto, criativo, não barra ideias. Às vezes ocorre o oposto, ele quer fazer tanta coisa que eu preciso cortar algumas delas (risos). Ele é uma pessoa muito empolgada e quer que tudo aconteça. É a alma da escola!

Sincodiv-SP Online: O Carnaval costuma marcar novidades musicais, tecnológicas e etc. Como se dá a busca por essas inovações?

Murilo Lobo: Ela vem de várias fontes. Como carnavalesco, devo estar aberto a tudo e tentar absorver o máximo de coisas, mesmo que não estejam intimamente relacionadas à escola. Teatros, shows, cinema, exposições, notícias. Qualquer coisa pode ser interessante, útil ou despertar uma novidade em sua aplicação. Muitas vezes guardo uma ideia por anos antes de descobrir onde encaixá-la. Esse ano, por exemplo, traremos um painel de LED sobre um de nossos carros alegóricos, além de efeitos especiais.

Na parte tecnológica, desde o ano passado, disponibilizamos um aplicativo (Peruche no Carnaval) que traz todo o histórico e significado de nosso samba-enredo, fantasias, pesquisa e tudo o mais para dar ao folião uma noção de toda a história que estamos contando e que, muitas vezes, durante a apresentação, não é possível absorver no local ou pela cobertura televisiva.

Além disso, recebemos contribuições de fora. Muita gente nos procura com novas ideias ou oferecendo serviços e coisas novas. Sabendo filtrar, tudo pode ter uma bela aplicação.

O mais importante é entender que o Carnaval é mais que apenas uma festa musical, ele tem todo um trabalho de educação, estudo, história e iconografia por trás. As possibilidades e o repertório são praticamente infinitos.

Para ler a segunda parte do Bate-papo com Murilo Lobo, carnavalesco da Unidos do Peruche, clique aqui.

 

Produção e edição