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Seção Entrevista
16/03/2017 - 14:52:05
Bate-papo com José Edson Galvão de França, presidente da Abinpet
Por Renan De Simone e Matheus Medeiros
Izilda França

A indústria brasileira de produtos e serviços voltados para os animais de estimação (pets – incluindo cães, gatos e aves canoras) teve um crescimento exponencial nos últimos anos. Para se ter uma ideia, em 2006 o faturamento do setor era de R$ 3,3 bi, passando a movimentar R$ 18 bilhões em 2015.

O crescimento rápido (de quase seis vezes) em menos de uma década se deve a vários fatores como aumento da população pet – hoje o Brasil tem uma taxa de quase um animal para cada duas pessoas – e conscientização no tratamento dos bichinhos, com alimentos mais saudáveis e cuidados veterinários.

O movimento não ocorreu apenas no Brasil e algumas empresas, incluindo marcas automotivas, estão atentas a isso. A exemplo da Nissan que lançou, na Europa, a X-Trail 4Dogs, veículo com acomodações especiais para os pets, com bebedouro, rampa de acesso para os animais e até mesmo secador (confira aqui). Isso pode até mesmo ser uma oportunidade para o concessionário que quiser atender a um nicho específico de mercado.

Para falar um pouco desse mercado, que continuou crescendo mesmo em tempos de crise, e comemorar a semana do Dia Nacional dos Animais (14/03), o Sincodiv-SP Online conversou com José Edson Galvão de França, presidente executivo da Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação).

Engenheiro agrônomo formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e com MBA em Marketing pela FGV-SP (Fundação Getulio Vargas de São Paulo), ele atua no setor Pet desde 1983. Foi diretor da Carteira de Créditos Agrícolas do Banco Nacional e diretor do Departamento de Proteção dos Recursos Naturais da Secretaria de Agricultura de São Paulo (atual Secretaria do Meio Ambiente), além de diretor das Rações Anhanguera.

Nesta entrevista exclusiva ao Sincodiv-SP Online, ele fala um pouco do trabalho da Associação, do desenvolvimento do mercado, da relação entre humanos e animais e de como o setor ainda sofre com alta tributação, que ultrapassa 50%. Acompanhe o Bate-papo na íntegra a seguir:

Sincodiv-SP Online: Quais são os principais objetivos da Associação? Há quanto tempo atua e qual é a importância que tem para o setor?

José E. G. de França: A Abinpet tem como missão representar, promover e fortalecer o setor no Brasil, contribuindo para o desenvolvimento de seus associados, sendo referência para o mercado de animais de estimação. Atuamos em quatro grandes vertentes, sendo elas: Pet Food (alimento completo), Pet Care (equipamentos, acessórios, e produtos para higiene e beleza), Pet Vet (medicamentos veterinários) e Ingredientes.

A entidade, que hoje conta com 62 associados, atua desde 1980, quando ainda era a Anfar (Associação Nacional dos Fabricantes de Ração), e trabalha pelo setor por meio de ações que contribuem para o desenvolvimento das empresas associadas, visando também aumentar a percepção de que os benefícios da relação entre seres humanos e animais de estimação se estendem para toda a sociedade.

Além disso, realizamos diversos trabalhos nas áreas de Comunicação, Promoção de Exportações, Inteligência de Mercado, Técnica Regulatória, Jurídica e de Governança.

Sincodiv-SP Online: Com o grande crescimento visto nos últimos anos, quais são as perspectivas para o setor?

José E. G. de França: Não temos informações consolidadas sobre 2016 ainda, mas a perspectiva, segundo previsões da Abinpet, é de que o mercado tenha um crescimento de 5,7% sobre 2015. Isso significa que o setor no Brasil deve ter tido um faturamento de R$ 19 bilhões em 2016, dados ainda em análise.

Apesar de aparentemente positivo, é importante ressaltar que o número representa uma desaceleração do crescimento desse mercado, uma vez que, em 2015, essa taxa foi de 7,6% sobre 2014. Assim, essa deverá ser a menor taxa de crescimento registrada nos últimos seis anos.

Sincodiv-SP Online: Como o Brasil está colocado nesse mercado em relação a outros países?

José E. G. de França: O Brasil tem a segunda maior população mundial de cães, gatos, aves canoras e ornamentais em todo o mundo e é o quarto maior país em população total de animais de estimação. Em 2015, no total de faturamento dessa indústria no mundo, ele ficou em terceiro lugar, com 5,3% desse mercado, não muito longe do segundo colocado, o Reino Unido (6,7%), mas distante dos EUA, o primeiro colocado com 42% dos 102,2 bilhões de dólares desse faturamento no mundo.

Sincodiv-SP Online: Visto que Brasil está mais próximo aos EUA em tamanho de território e número de animais, a que se deve a discrepância nesses números?

José E. G. de França: A Abinpet não possui um comparativo de dados do setor entre Brasil e Estados Unidos. No caso brasileiro, apesar do aparente crescimento do faturamento geral nacional, é preciso levar em conta a inflação do período e a alta carga tributária do setor, que corresponde a 51,20% do preço final do produto, deturpando a percepção de faturamento. Nos EUA e na Europa, por exemplo, em 2015, a alíquota média de impostas foi de 7% e 18,5%, respectivamente.

Mais da metade do valor do produto pet, quando chega ao consumidor final, é composta de impostos, o que não corresponde à importância dessa cadeia de valor na economia brasileira e nas compras cotidianas das famílias. Já que o alimento industrializado, por exemplo, é o único completo para o animal, que garante sua saúde e bem-estar, mas continua sendo tributado como se fosse supérfluo.

Sincodiv-SP Online: Por que o crescimento previsto não é considerado bom? Como ele se distribui em cada uma das quatro grandes áreas dessa indústria?

José E. G. de França: Digo que a taxa de crescimento prevista para 2016 não é positiva, pois mostra uma queda com relação à taxa de crescimento de 2015. A conta considera os segmentos de Alimentos, que conta com 67,6% desse faturamento; Serviços, como banho e tosa e outras atividades, responsável por 16,4%; Cuidados, incluindo equipamentos, acessórios, produtos de higiene e beleza animal, com fatia de 8,2%; e Medicamentos veterinários, responsável por 7,8%.

Como visto, a alimentação é o ponto mais relevante na conta e, para produzi-la, são utilizados ingredientes como carnes e vegetais, que sofreram efeito inflacionário forte nos últimos tempos, elevando os preços, mas nem sempre o lucro.

Dados da nossa Associação também revelam exportações realizadas da ordem de  US$ FOB* 236,3 milhões em 2016. Esse dado comprova uma forte tendência negativa, que vem desde 2015. Pet food lidera em valores, somando US$ 180,7 milhões. Em seguida está Pet Care com US$ 53 milhões desse total. Os dados mostram ainda que, em 2016, outros produtos – entre eles a comercialização de animais vivos – somam US$ 2,1 milhões e Pet Vet US$ 354 mil.

Mesmo assim, a queda das exportações também é relevante: representa 33% a menos do que o obtido em 2015, quando o montante chegou a US$ 351,4 milhões. Esse valor, por sua vez, é 14% menor em relação a 2014, quando foram exportados US$ FOB 497,4 milhões. Ou seja, há retração.

(*FOB é um tipo de frete no qual o comprador assume todos os riscos e custos com o transporte da mercadoria, assim que ela é colocada a bordo do navio).

Sincodiv-SP Online: Em comparação com outros setores, que estavam em franca retração em 2014, a indústria de produtos para animais de estimação faturou R$ 16,7 bilhões, cerca de 10% a mais do que em 2013, quando o valor foi de R$ 15,2 bilhões. Por que acredita que esse mercado não retraiu como outros?

José E. G. de França: As estatísticas e os dados econômicos não são sempre números frios, mas apontam tendências de comportamento, escolhas e necessidades da sociedade. No Brasil, o mercado de pets teve um crescimento muito relevante em menos de uma década – em 2006 movimentou cerca de R$ 3 bilhões e passou a movimentar R$ 15,2 bilhões em 2013 – muito pelo aumento dessa população e do cuidado com os bichinhos.

No entanto, como disse anteriormente, o mercado tem sofrido os efeitos da crise no último ano. O orçamento das famílias foi comprometido com a recessão econômica.

Nesse contexto, é essencial saber que o segmento de Pet Food puxa o faturamento do setor, como já dito. Isso significa que o alimento não perde importância no orçamento familiar. Em tempos de crise, o consumidor pode migrar de um produto premium para um standard, mas não corta o investimento. Ou seja, uma vez alcançado determinado patamar, é difícil retrair demais.

Para ler a segunda parte da entrevista com José Edson Galvão de França, presidente da Abinpet, clique aqui.

 

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