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Seção Entrevista
12/04/2017 - 12:01:59
Bate-Papo com Ingrid Silva, bailarina solista do Dance Theatre of Harlem, de Nova York
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Underground NYC Carioca, do bairro de Benfica, Ingrid inspira milhares de pessoas a acreditarem em suas capacidades de realização

A leveza de Ingrid Silva, uma das principais solistas do Dance Theatre of Harlem, companhia de dança localizada em Nova York (EUA), não se restringe aos passos e movimentos do ballet conduzidos com perfeição. Está presente na forma de receber, olhar, falar, lidar com as adversidades e viver a vida. 

Há quase 10 anos, ela aceitou o convite e o desafio de viajar aos Estados Unidos para uma audição (teste de ingresso) para a escola de dança considerada uma das mais importantes do mundo e, desde então, a menina talentosa, então com 18 anos, mais do que conquistou sucesso profissional, vem cativando milhares de pessoas. 

Atento ao que é tendência, o mercado publicitário já a descobriu como personificação do que é autêntico, determinado e, por isso, especial. Embaixadora Global para a marca Activia, da Danone, Ingrid Silva, a bailarina, é uma personagem das redes sociais, das novas gerações e inspiradora por sua história – que começou no bairro de Benfica, periferia carioca.

É uma conversa com esta brasileira notável que o Sincodiv-SP Online traz este mês. Confira, a seguir, a entrevista:

 

Sincodiv-SP Online: Conte um pouco sobre sua família. São todos do Rio de Janeiro? Você tem irmãos?

Ingrid Silva: Tenho um irmão, o Bruno, que começou a dançar na mesma época que eu. Ele tinha seis anos de idade. Hoje está na companhia de dança da Deborah Colker, além de participar de um grupo de comissão de frente no Carnaval. É também um profissional da dança!

Minha mãe é a Maureny, nascida no interior do Espírito Santo, de uma família de 12 irmãos. Tem gente que nem conheço! Meu pai é o Cláudio, carioca, tem quatro irmãos. Meus pais se conheceram no Rio e nós (meu irmão e eu) nascemos no Botafogo e depois nos mudamos para o bairro Benfica, onde crescemos. 

 

Sincodiv-SP Online: Como surgiu a oportunidade de ingressar no projeto "Dançando para Não Dançar", onde sua história profissional começou? Foram quantos anos lá?

Ingrid Silva: Comecei a dançar aos oito anos no Projeto Dançando para Não Dançar para preencher o tempo. Era, no início, apenas uma atividade de criança mesmo. Não havia o sonho de ser bailarina. Minha mãe, primeiro, nos inscreveu na natação e um vizinho nosso é que nos deu a ideia de ir atrás do Projeto, na Vila Olímpica da Mangueira.

Fiz um teste e passei, vindo a integrar o grupo. Já meu irmão, de tanto acompanhar minha mãe até o local para me levar, um dia pediu para entrar. Fez o teste e também passou!

A rotina era toda tão intensa que minha mãe acabou parando de trabalhar só para fazer o leva e traz da gente porque, por meio do Projeto, conseguimos bolsas para a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e o Centro de Movimento Deborah Colker.

A gente praticava dança à tarde toda, até nove horas da noite, todos os dias da semana, além de em muitos sábados, quando ocorriam ensaios. Daí, quando, em 2008 (10 anos depois), eu me mudei para os Estados Unidos, o Bruno largou a dança e seguiu a vida. Entrou para o Exército e fez outras coisas.

Há uns dois anos, durante férias no Brasil, ele me levou para fazer uma aula na Deborah Colker e, depois de assistir, perguntou para mim se deveria pedir uma bolsa para voltar a dançar. Ao final, conversou com a coreógrafa, que concedeu a bolsa para ele, que lá está até hoje!

Hoje, somos uma família de bailarinos e meu pai, que inicialmente estranhou a ideia do filho no ballet, hoje é um grande entusiasta. Sempre se emociona e é um grande fã!

 

Sincodiv-SP Online: Existe alguém que foi / é fonte de inspiração para você?

Ingrid Silva: Minha professora de ballet, Edy Diegues, na Escola de Dança Maria Olenewa, provavelmente foi minha primeira grande incentivadora. Na época, eu não enxergava desta forma, mas era ela que sempre me dispunha nas primeiras posições do grupo e insistia para que eu conseguisse realizar os passos. "Acredite, você é talentosa!", ela dizia.

A peça fundamental, no entanto, foi minha mãe, que mesmo vindo da roça, teve uma visão muito aberta. Atribuo a ela toda a força para reunir a coragem necessária para vir para os Estados Unidos e buscar uma oportunidade no Teatro de Dança do Harlem.

O convite surgiu no Projeto Dançando para Não Dançar, mas foi ela quem me deu o apoio para aceitar a proposta de participar de uma audição que, ao final, possibilitaria meu ingresso no corpo de bailarinos da tradicional companhia de dança em Nova York. Eu, sinceramente, não sei se teria a mesma coragem se fosse com a minha filha!

Quero mencionar também a Ana Maria Botafogo, que é madrinha do Projeto Dançando para Não Dançar. Eu a conheci quando tinha uns oito anos e foi muito especial por sua disciplina e simplicidade, que são referências para mim.

 

Sincodiv-SP Online: Você já sabia que o Dance Theatre of Harlem se tratava de uma companhia fundada por Arthur Mitchell, grande bailarino norte-americano que fez história no ballet por ser solista do New York City Ballet por 15 anos?

Ingrid Silva: Não, não fazia a mínima ideia (e só anos depois me dei conta de que sempre houve um pôster da companhia de dança do Harlem num corredor de acesso para a sala de aula do Projeto Dançando para Não Dançar).

Foi a Bethania Gomes, então primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem, que, em uma visita ao Projeto, no Brasil, assistiu-me durante uma aula e sugeriu à diretora da escola, Theresa Aguilar, que enviasse um vídeo meu para a companhia de dança nos Estados Unidos.

Fui selecionada para participar de uma audição e viajei ao país com o patrocínio do Projeto. Só chegando lá, em 2008, é que me dei conta de onde estava e quem era Arthur Mitchell.

A surpresa foi também saber que o grupo reunia especialmente bailarinos negros! E, claro, também uma alegria porque aqui (no Brasil) eu sempre fui a diferente, portanto a experiência foi toda ela nova.

 

Sincodiv-SP Online: Uma brasileira no Harlem, dançando ballet. Uma estrangeira, num ambiente altamente competitivo. Como foi a adaptação?

Ingrid Silva: Durante os primeiros meses, passei por um processo que não está entre os melhores momentos da minha vida (risos), tenho de admitir.

Havia o inglês, que eu não falava. O frio do inverno é tão rigoroso. Sempre fui comunicativa e de repente estava presa, sem conseguir me fazer entender, aos 18 anos. Além disso, eu, uma estrangeira, era uma competidora a mais para as pessoas da companhia.

Foi a Flavia Garcia, uma bailarina brasileira do Dance Theatre of Harlem, que ajudou muito nos primeiros seis meses! Ela era mais experiente e foi incrível contar com ela para entender melhor as coisas.

Ainda assim, aqui não há conforto. O mercado de dança é bem duro! Se você não está se esforçando, as portas se fecham. Todos os dias, tenho que trabalhar para provar que sou merecedora da posição que conquistei. Não existe "consideração". Existe é dedicação mesmo! 

No primeiro ano, tão logo foi possível, procurei um trabalho temporário para complementar o valor da bolsa que recebia.  Eu ia para a aula de ballet das 7h às 18h e das 19h às 22h era garçonete num restaurante para fazer um dinheiro a mais. Viver em Nova York é muito caro e corri atrás para dar conta de seguir por aqui!

 

Sincodiv-SP Online: Você teve aulas com Arthur Mitchell antes de ser contratada pela companhia de dança?

Ingrid Silva: Arthur Mitchell é uma pessoa legendária! Se você o conhece e trabalha com ele, sua vida muda!

Eu nem falava inglês e já tinha aulas com ele, que fazia música batucando a bengala no chão, sentado numa cadeira. A gente tinha aula assim... E ele era muito rígido como professor, mas extremamente cuidadoso na forma de ensinar, uma pessoa gentil.

Foi justamente ele que me deu a primeira oportunidade para trabalhar na companhia de jovens do Teatro. Então, sou muito grata por ter visto algo em mim e oferecido a chance para eu efetivamente atuar profissionalmente no grupo.    

A história do Dance Theatre of Harlem é belíssima, especialmente pelo fato de que representa superação para pessoas de diferentes origens e classes sociais.

 

Sincodiv-SP Online: Vocês são apenas 16 bailarinos que atuam em produções nacionais e estrangeiras. Como é o ritmo de trabalho na companhia? Em quantas temporadas atuam anualmente?

Ingrid Silva: São sete horas por dia de dedicação aos treinos e ensaios para um portfólio bastante eclético de danças. Contamos com um catálogo de 30 coreografias de ballets, que são enviadas aos agentes de locais interessados em receber a companhia de dança. São eles que escolhem o que vamos dançar.

Anualmente, temos a temporada de Nova York e outras turnês, que envolvem viagens a dezenas de cidades. Somam, ao todo, 36 semanas de trabalho.

Para se ter uma ideia, em 2016, viajamos para cerca de 50 locais diferentes, incluindo destinos internacionais – é muito dinâmico. E eu adoro, apesar da saudade de casa, do meu marido e da minha cadela, a Frida.

De qualquer forma, o trabalho não é só movido a novidade. A gente tem os exercícios de barra para aquecimento todos os dias, que são repetitivos (apesar de necessários) e podem ser tediosos, exigindo da gente uma criatividade para enxergar o diferente diariamente. O lado bom é o espetáculo, quando entramos para valer no palco e sentimos a energia das pessoas.

Para a segunda e última parte da entrevista, acesse: Bate-Papo com Ingrid Silva, bailarina solista do Dance Theatre of Harlem, de Nova York – PARTE II

 

Produção e edição