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Seção Entrevista
29/06/2017 - 14:47:51
Bate-papo com Nelson Nolé, especialista brasileiro em próteses ortopédicas, fundador da Conforpés - PARTE II
Por Renan De Simone e Juliana de Moraes

Sincodiv-SP Online: Em nossas pesquisas para a entrevista, encontramos reportagens sobre próteses que desenvolveu para animais. Como é isso?

Nelson Nolé: Essa, obviamente, nunca foi minha especialidade, mas começou há cerca de 25 anos, quando desenvolvi um carrinho para uma cadela chamada Branquinha. Ela havia perdido as patas traseiras e produzi uma roupinha que prendia seu corpo a uma estrutura com duas rodas que substituíam suas patinhas traseiras. Hoje, este tipo de objeto é bem comum, mas não era há duas décadas e meia.

Sincodiv-SP Online: Foi uma solução caseira que virou profissão, então, pois você já ajudou até zoológicos estrangeiros?

Nelson Nolé: Não virou profissão porque não cobro por nenhuma prótese de animal que faço! Para mim, é desafio. As pessoas, às vezes, aparecem com casos inusitados e eu digo, "bem, nunca fiz, mas vamos tentar"!

A ideia é proporcionar bem-estar e qualidade de vida para os animais e, consequentemente, seus donos.

Sincodiv-SP Online: Quais os casos mais curiosos que já atendeu? É algo desafiador?

Nelson Nolé: Já atendi de tudo um pouco! Comecei com cachorro, depois vieram os gatos. A seguir, a coisa se expandiu. Já atendi uma tartaruga que andava em um chão de cimento e, ao longo dos anos, suas patas dianteiras se desgastaram e ela não alcançava mais o piso. Fiz próteses para que ela voltasse a andar.

Já criei próteses para patas de avestruz, pato, vaca, touro. O melhor é saber que os animais viveram bem com as próteses. O touro, por exemplo, até procriou! Reconquistou uma vida normal para sua espécie.

É um trabalho desafiador, sim, porque minha especialidade são os humanos e a anatomia dos animais é muito variada, então preciso conversar com veterinários e aprender sobre os bichos. E, ainda assim, surgem imprevistos, como foi o caso do flamingo chileno.

Essa ave estava num zoológico e após ser atacada por outro animal, perdeu uma pata. Estudei a anatomia, fizemos medições e criei uma prótese de fibra de carbono para ela. O resultado foi que os outros flamingos do zoológico passaram a atacá-la! Ficamos bem confusos com a situação...

Aparentemente, o flamingo tinha se adaptado bem à prótese, mas descobrimos que o problema era a cor escura da perna de carbono. Quando refizemos a prótese numa cor aproximada à do animal, seus pares voltaram a reconhecê-lo e cessaram os ataques. Foi bastante curioso. Um aprendizado.

Sincodiv-SP Online: No ano passado, a Conforpés lançou para venda um calendário com modelos mulheres que usam próteses. De onde veio a ideia? Aliás, a maioria das próteses ali são estilizadas, com desenhos e cores, essa também é uma prática inovadora?

Nelson Nolé: As próteses personalizadas foram uma demanda dos próprios clientes. Já passamos daquele tempo em que as pessoas queriam esconder suas próteses. Muitos jovens que sofreram amputações queriam produtos personalizados, então nós o fazemos a pedido. Podemos imprimir qualquer estampa, basicamente, desde que caiba no formato.

Quanto ao calendário, a ideia inicial foi do meu filho mais velho, o Nelsinho. Ele convidou diversas clientes que tinham feito as próteses aqui, inclusive por doações, para serem fotografadas para o calendário. O material foi impresso e vendido e o dinheiro foi para um fundo para ampliar as doações que fazemos!

O resultado foi muito positivo. São mulheres lindas, vencedoras e que ficaram muito confortáveis em frente à câmera, pareciam modelos profissionais. É o tipo de ação que ajuda a devolver a autoestima e encoraja outras pessoas a verem sua beleza, mesmo após um momento trágico.

O único problema da iniciativa foi o fato de que levei bronca de outras clientes que não foram convidadas! Não caberia todo mundo, precisamos até sortear algumas (risos).

Sincodiv-SP Online: Existem vários tipos de próteses, como a biônica, a eletrônica/mecânica e a estética. Quais as principais diferenças entre elas e como saber qual é a mais adequada para cada caso?

Nelson Nolé: Depende do preço e da necessidade do cliente. As próteses são como carros, elas servem a diversos propósitos. Você pode levar o popular ou uma Ferrari. As estéticas, por exemplo, são para compensar o peso de membros amputados e dar mais equilíbrio ao corpo, além de sua função para aparência.

As eletrônicas permitem movimentos, pois possuem eletrodos que captam estímulos musculares e cerebrais. As biônicas também o fazem, porém com desempenho muito superior. Essas últimas são bem mais caras e funcionam com baterias de alto desempenho (autonomia para 18 horas de uso), , podendo ser recarregada enquanto a pessoa dorme.

Tenho um cliente, o Celso, que recebeu duas mãos biônicas (entre 20 e 30 mil reais cada), por exemplo. Ele faz desenhos e pinturas, é um artista plástico!

Sincodiv-SP Online: As próteses biônicas têm um bom desempenho, mas um custo elevado também...

Nelson Nolé: Sim, mas o que pouca gente sabe é que o Banco do Brasil possui uma linha de financiamento especial para próteses. São liberados recursos para produtos de até 30 mil reais, com juros abaixo dos 5%. Isso é ótimo porque, com parcelas de menos de R$ 200,00 por mês, você consegue um produto de ótima qualidade e de acordo com sua necessidade.

Sincodiv-SP Online: Muitas pessoas amputadas sofrem das chamadas dores fantasma e as próteses ajudam na eliminação de tais dores. Como isso acontece?

Nelson Nolé: Sim, as próteses ajudam a eliminar dores fantasmas e também colaboram na adaptação das pessoas que perderam membros. Há também remédios que contribuem para o sumiço da dor fantasma.

A dor fantasma é um problema do desenho do corpo gravado no cérebro da pessoa. Assim como alguns pacientes que tiveram uma perna amputada, por exemplo, se levantam repentinamente no meio da noite para ir ao banheiro e caem por não se darem conta a tempo de que não conseguem mais se apoiar, muitas vezes a dor fantasma vem pelo registro de uma contração muscular ou nervo que a pessoa já não possui.

Olhar e tocar a prótese no lugar do braço, por exemplo, ajuda na adaptação. A questão envolve a reinvenção da imagem que se tem do próprio corpo.

Sincodiv-SP Online: Você também já esteve em outros países, não apenas fazendo cursos, mas também ensinando. Conte um pouco dessa experiência.

Nelson Nolé: Estudei bastante na Alemanha, mas participei de convenções e palestras também na Albânia, Paraguai, França, enfim, em especial na América do Sul e na Europa.

Caso curioso foi quando visitei um centro de reabilitação em Valiton, próximo a Paris, na França. Fui lá para conhecer o trabalho deles e, assim que lá cheguei, chamaram todos os alunos do local, colocaram uma mesa cheia de materiais e próteses em minha frente e pediram "nos mostre como você trabalha".

De alguma forma, o trabalho da Conforpés, aqui em Sorocaba, no Brasil, virou referência para eles. Foi uma troca bem interessante! E, fico contente que meu trabalho contribua para melhorar vidas, além da qualidade dos produtos e serviços de próteses ortopédicas na América Latina e no mundo.

Produção e edição