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Seção Entrevista
17/08/2017 - 12:12:18
Bate-papo com Lucas Fonseca, diretor da Garatéa, primeira missão lunar brasileira – PARTE II
Por Matheus Medeiros e Renan De Simone
Divulgação

Sincodiv-SP Online: Quais são os principais objetivos da missão Garatéa-L? O que ela pretende investigar na órbita lunar?

Lucas Fonseca: A nossa missão lunar acontece dentro da área da astrobiologia, que é a tentativa de entender como a vida se originou, como ela consegue se manter, quais são as condições para ela evoluir no planeta e como ela consegue se distribuir no espaço.

Pretendemos levar até a lua, por dois anos, um grupo de micro-organismos – bactérias chamadas de extremófilas, que vivem em lugares extremos – para entendermos a interação da vida com o campo eletromagnético terrestre, já que a lua, dependendo da fase, entra e sai desse campo que protege a Terra. Nossa equipe vem coletando essas bactérias no mundo inteiro. Já passamos pela base brasileira no polo Sul, deserto do Atacama, diversas montanhas, entre outros locais.

A ideia é, com isso, poder desenvolver uma série de estudos que possam melhorar a vida humana. Entendendo como as bactérias sobrevivem à radiação fora do campo eletromagnético, podemos, a partir de um sequenciamento genético, identificar o gene que as protegem de tal situação.

A partir disso, é possível, por exemplo, modificar geneticamente uma semente para que ela possa ser levada ao espaço ou ser plantada no deserto do Saara. Esse mesmo tipo de conhecimento também pode ser aplicado ao ramo farmacêutico, por exemplo. Temos a intenção de começar com um experimento de astrobiologia e trazer benefícios mundanos.

E o objetivo é fazer a mesma coisa para a parte tecnológica do processo – o que envolve o nosso segundo pilar. Toda nossa pesquisa em tecnologia visa, além de contribuir para o sucesso da Missão, ajudar a desenvolver a indústria nacional.

Por exemplo, temos que criar um "escudo" especial para proteger os componentes eletrônicos de nosso projeto da radiação espacial. Pretendemos fazer isso a partir de grafeno – um material relativamente novo e muito leve. Se isso funcionar, podemos utilizar esse material também em jalecos de médicos que trabalham com radiação. E isso é apenas um dos exemplos!

Sincodiv-SP Online: Conte-nos mais sobre o elo educacional da Garatéa.

Lucas Fonseca: Nosso principal objetivo é mudar a maneira enxergamos a ciência, provando que é possível fazer ciência inovadora e de qualidade no país. Dentro disso, atuar a partir da educação se torna essencial. Esse é, muito provavelmente, o maior legado que podemos deixar para o Brasil.

A ciência é uma corrente e cada geração é um elo. Se acontece o rompimento de um elo, com uma geração desinteressada pelo assunto, perde-se todo o seu desenvolvimento. A ciência sempre tem que ser trabalhada de maneira contínua, buscando a evolução contínua, não em "soluços".

Sincodiv-SP Online: E como funciona o desenvolvimento dessa área.

Lucas Fonseca: Isso se dá a partir de dois pontos: a Garatéa-E e a Garatéa-SS, que estão conectadas. A primeira pretende levar experimentos científicos para escolas e universidade de todo o Brasil, por meio de balões atmosféricos. Dessa forma, estimulamos jovens em escolas a colocarem em prática aquilo que viram na teoria, nas aulas de ciência. Além de contribuirmos para diversas pesquisas universitárias, que realizam pesquisas sobre o comportamento na atmosfera.

O projeto – desenvolvido em parceria com o Grupo Zenith, de alunos da USP São Carlos – levou, em junho, pesquisas de estudantes de 17 colégios privados e públicos de vários estados para o espaço em um balão atmosférico, construído a baixíssimo custo. E é incrível perceber o quanto isso mexe com a criatividade de um jovem, poder ter algo construído por você no espaço!

Também organizamos uma série de palestras e atividades de demonstração de tecnologia aeroespacial com o objetivo de inspirar e envolver esses jovens com a ciência.

Já a Garatéa-SS acontece porque fomos selecionados para participar, em 2018, de um programa desenvolvido pelo governo norte-americano, em parceria com a Nasa, que leva experimentos científicos educacionais para a Estação Espacial Internacional. Foi, inclusive, a primeira vez que um projeto fora da América do Norte foi selecionado.

Para selecionar o projeto que irá à Estação Espacial, vamos realizar um concurso com 450 crianças do sétimo ano, de escolas públicas e privadas. O colégio Dante Alighieri, da cidade de São Paulo, entrou como nosso parceiro, oferecendo sua estrutura e professores para o planejamento da ação.

A ideia é termos 60 grupos de alunos, cada um desenvolvendo uma ideia. Uma banca de notáveis selecionará um, que estará a bordo da Estação, sendo executado por um astronauta dos Estados Unidos por cerca de seis semanas, sendo, posteriormente, trazido à Terra para análise.

Caso a Garatéa-SS seja bem sucedida e sejamos selecionados novamente para o programa no ano que vem, pretendemos aumentar o escopo do projeto, atingindo ainda mais jovens por meio de aulas a distância.

E, assim como a Garatéa-L, pretendemos não depender de financiamento público para esse projeto, então estamos em busca de apoio da iniciativa privada para sua realização.

Sincodiv-SP Online: Quais são os próximos passos da Missão Garatéa, em geral?

Lucas Fonseca: Atualmente, nossa ideia é que o projeto vire um ICT (Instituto de Ciência e Tecnologia) e que, por meio dele, a gente consiga desenvolver tanto a nossa pesquisa quanto contribuir para as pesquisas de outros cientistas do país.

No entanto, para isso, precisamos contar com o apoio financeiro – público e privado – para realizar não só as nossas iniciativas atuais, mas também as próximas. Afinal, a Garatéa-L acontece até 2023 e, se nosso objetivo é mudar a forma como o brasileiro enxerga a ciência, não podemos parar por aí.

Independentemente do cenário econômico do país, não se deve questionar a necessidade de se fazer ciência. Os investimentos em ciência não devem ser retirados, pois não é esse dinheiro que vai resolver os problemas da Saúde e da Educação. Além disso, o mais provável é que os investimentos em ciência contribuam, num futuro próximo, para que esses outros problemas se resolvam.

Produção e edição

 

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