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Seção Entrevista
17/08/2017 - 12:15:39
Bate-papo com Lucas Fonseca, diretor da Garatéa, primeira missão lunar brasileira
Por Matheus Medeiros e Renan De Simone
Divulgação

Acredite se quiser, mas existe uma missão lunar sendo desenvolvida no Brasil nesse exato momento! Lucas Fonseca, diretor do projeto, fazia carreira na Europa – estudou Engenharia Espacial na França e trabalhou na Alemanha como parte da Missão Rosetta, que construiu a primeira sonda a orbitar e pousar em um cometa – quando decidiu voltar para desenvolver uma ideia que pudesse contribuir efetivamente para o incremento científico do Brasil.

Com o objetivo de provar que é possível fazer ciência no país, mudando a maneira como essa e as próximas gerações enxergam o assunto no Brasil, surgiu a Missão Garatéa, fruto dos sonhos e dedicação de Fonseca e outros pesquisadores, que pretendem levar, em 2021, uma pesquisa brasileira sobre a origem da vida à órbita lunar.

"Diversas vezes pensei em largar tudo por aqui e voltar para a Europa ou ir para os Estados Unidos. Mas sempre durmo e acordo tendo a certeza de que vale a pena tentar mais. E sinto que agora os esforços estão sendo recompensados, com o reconhecimento do projeto e o impacto positivo nas pessoas, dos pesquisadores aos jovens estudantes que se encantam com a ciência", destaca o engenheiro.

Para saber mais sobre a história de Fonseca e os objetivos e projetos da Missão, acompanhe a entrevista a seguir:

Sincodiv-SP Online: De onde surgiu a vontade de trabalhar com engenharia espacial? Era um sonho de infância? Como foi sua trajetória profissional?

Lucas Fonseca: Na minha geração, pessoas que cresceram na década de 80, é difícil achar alguém que nunca tenha sonhado em ser astronauta. Até porque vários dos filmes da época tinham temática espacial. O que aconteceu de diferente comigo é que essa paixão pelo espaço nunca passou.

E isso me levou a cursar Engenharia Mecatrônica na USP (Universidade de São Paulo). Já nessa época, mandava meu currículo pra Nasa (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, na tradução do inglês) a cada três meses, na expectativa de ser chamado para uma conversa, já que trabalhar lá sempre foi meu grande sonho.

Quando me formei, fui efetivado na multinacional em que estagiava. Mas nunca gostei realmente do trabalho e achava que me arrependeria eternamente se não tentasse seguir meu sonho. Com isso, peguei o dinheiro que tinha guardado e fui estudar Engenharia Espacial na França e foi lá que todas as portas se abriram.

Ao término dessa segunda faculdade, decidi fazer mestrado na área e apliquei em vários programas ao redor do mundo: Japão, na própria França, Alemanha e Estados Unidos, onde, se aprovado, faria a pesquisa dentro de uma universidade, trabalhando na Nasa.

E eu tive a aplicação aprovada em mais de um lugar, com convite tanto para entrar na Nasa quanto para trabalhar na Agência Espacial Europeia, trabalhando e estudando no estafe alemão da Missão Rosetta, que construiu a primeira sonda a orbitar e pousar em um cometa.

Acabei optando pela Rosetta, que era um projeto mais legal. No total, fiquei lá por três anos, entre 2009 e 2012. Nesse período, escrevi minha dissertação dentro da Missão e, na sequência, fui contratado como engenheiro.

Sincodiv-SP Online: Depois de trabalhar com a Agência Espacial Europeia, como foi voltar ao Brasil? Quais foram suas principais motivações?

Lucas Fonseca: Era muito cômodo eu passar o resto da minha vida na Alemanha, até por ser, na época, funcionário público no país, mas o desafio de fazer ciência no Brasil me pareceu ser algo muito maior e mais inspirador do que ficar lá.

Na Missão Rosetta, eu era um em 6.000 pessoas que trabalhavam no projeto. Aqui tenho a possibilidade de contribuir efetivamente para o desenvolvimento científico do país. E dizer isso não é massagear o ego, é que eu realmente acredito que meu trabalho aqui pode mudar alguma coisa!

Diversas vezes pensei em largar tudo e voltar para a Europa ou ir para os EUA. Mas sempre durmo e acordo no dia seguinte tendo a certeza de que vale a pena tentar mais. E sinto que agora os esforços estão sendo recompensados, com o reconhecimento do projeto e o impacto positivo nas pessoas, dos pesquisadores aos jovens estudantes que se encantam com a ciência.

Nossa equipe tem aproximadamente 20 pessoas, de diferentes estados e especialidades. E todos nós, separadamente, já realizamos projetos bacanas em parceria com outros países. Nossa ideia é mostrar que é possível nos unirmos, dentro do Brasil, para fazer um grande projeto – temos gente capacitada, tudo que falta é o apoio financeiro.

Sincodiv-SP Online: Como surgiu a ideia da Missão Garatéa? Quais foram os primeiros passos do projeto?

Lucas Fonseca: Toda a história da Garatéa surgiu quando voltei ao Brasil. Ao chegar, abri minha empresa de engenharia – chamada Airvantis – e comecei a dar aula na USP de São Carlos. Lá, montamos um grupo de pesquisa que foi crescendo e se tornou a missão Garatéa.

O interessante é que a ideia nasceu das discussões que tínhamos nesse grupo. Tudo foi crescendo organicamente, aos poucos, e quando percebi o projeto já estava maior do que o imaginado, com muitas pessoas e instituições envolvidas e com a chance real de impactar a ciência brasileira.

Nosso objetivo, dentro da Garatéa, é realizar projetos fantásticos com iniciativas descentralizadas e com o menor custo possível. Com isso, pretendemos mostrar para as próximas gerações que é possível fazer ciência no Brasil, mudando a maneira como enxergamos o assunto no país.

Dentro desse contexto, temos três diferentes pilares: Ciência de Excelência; Desenvolvimento da Indústria Nacional; e Inspiração Educacional. No primeiro pilar, temos o projeto de levar um satélite brasileiro à órbita lunar. Essa é a Garatéa-L, que começou como um sonho em 2014 e virou uma possibilidade em 2016, quando fomos selecionados como um dos cinco projetos fora da Europa a participar de um voo para a lua em 2021.

Isso tudo foi possível porque vamos receber uma "carona" numa nave europeia que vai até a lua – essa nave, compartilhada, vai carregar 20kg de projetos ingleses, 20kg de projetos da Comunidade Europeia e 20 kg de projetos de outros países do mundo, inclusive o nosso.

Para realizarmos isso, precisamos, até 2019, captar 10 milhões de dólares. Esse dinheiro será destinado em 70% para o combustível da nave (são US$ 1 milhão para cada kg e nós vamos levar sete) e 30% para o desenvolvimento do projeto.

E, se você analisar, é realmente pouco dinheiro. São dez milhões de dólares para a gente levar uma pesquisa brasileira para a lua! É um feito muito grande! E, justamente por isso e pelo apoio que estamos recebendo, estou otimista.

Sincodiv-SP Online: Como vocês pretendem arrecadar esse dinheiro?

Lucas Fonseca: Nossa ideia é provar para o brasileiro que é possível realizar seus planos sem depender do governo. Por isso, queremos descentralizar a ciência. Gostaríamos, com certeza, de contar com o apoio governamental em nosso projeto, mas não queremos ser dependentes dele de maneira nenhuma.

Por isso, estamos buscando o dinheiro privado de diversas maneiras: parcerias com empresas que desejam desenvolver tecnologias por meio da Missão e que possam ser úteis para suas rotinas, ações midiáticas, apoios filantrópicos, entre outras.

Para saber mais sobre o desenvolvimento da missão lunar da Garatéa e as iniciativas da missão no âmbito escolar, leia a segunda parte do Bate-papo com Lucas Fonseca.

Produção e edição

 

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