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Seção Entrevista
07/12/2017 - 10:05:46
Bate-papo com Luiz Alberto Hanns, psicólogo da mentalidade brasileira sobre corrupção, burocracia e má gestão - PARTE II
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação / Casa do Saber

Sincodiv-SP Online: Em artigo para a Folha de São Paulo, você afirma que a corrupção não é nosso maior mal. Comente um pouco sobre essa reflexão.

Luiz Alberto Hanns: De tudo o que afeta negativamente o país, a corrupção é o que nos causa a maior indignação, sem dúvidas. Ela deteriora a moral do Brasil e degrada as relações sociais, deixando pessoas pouco motivadas a respeitar mesmo regras básicas como a faixa de pedestres. Agora, ela de fato não é nosso defeito mais custoso, mais danoso.

O burocratismo absurdo é um maior problema, por exemplo. É mais grave do que a corrupção porque destrói a economia, sobe custos e torna o cotidiano de cidadãos e empresas insuportável. Além disso, induz os honestos a se comportarem de modo desonesto, pagando propinas para sobreviver ao achaque e alimenta (com oportunidades) a rede de pessoas de má-fé para que tirem proveito do sistema ineficaz e lento de gestão e fiscalização.

Ainda mais crítico é, como citei, nossa falta de habilidade na gestão, a dificuldade de em trabalhar com planejamento.

Sincodiv-SP Online: Empresas, embora existam para finalidades específicas, são uma fatia da sociedade e todos os seus problemas. O enfrentamento da corrupção nessas organizações pode ser considerado melhor ou pior do que aquele oferecido na esfera pública e pessoal?

Luiz Alberto Hanns: A camada de corrupção na esfera da empresa privada envolve muitas vezes os setores de compras, pequenas concorrências e licitações internas, o privilégio de certos grupos. Esse conjunto de problemas é muito mais fácil de combater.

Há as regras de compliance, mas estabelecê-las não basta. É preciso discutir as situações plausíveis para que haja a educação e conscientização das pessoas quanto ao respeito às regras e à ética nas relações.

A ideia é que todos possam participar desse debate, com destaque ao fato de que é justamente o mau exemplo aquele que deseduca!

Sincodiv-SP Online: Como as empresas devem enfrentar as dificuldades criadas pelas legislações que acabam por levá-las a "soluções alternativas" para viabilizar as atividades?

Luiz Alberto Hanns: Há situações em que a empresa terá que ceder para não falir. Mas, isso não impede que empresas unidas em setores se organizem em associações, demandando mudanças das instâncias governamentais para que processos ocorram de maneira mais transparente.

Quando isso não funciona, devem se juntar a movimentos maiores da sociedade, num projeto para a solução do problema no longo prazo. Trata-se de um longo caminho.   

Sincodiv-SP Online: Em relação aos gestores, como eles devem abordar essa questão internamente?

Luiz Alberto Hanns: Quando a empresa tem valores sólidos e se dedica a mostrar para seus profissionais que age corretamente, seus funcionários, em geral, saberão diferenciar o que acontece na relação com a burocracia tóxica.

As pessoas percebem a natureza da gestão quando a organização se empenha em comunicar seus esforços em prol de uma atuação ética.

Sincodiv-SP Online: A corrupção é intensa no Brasil, mas equivale a um problema mundial. Para enfrentar isso, o que tem mais força: a atitude dos indivíduos ou do poder público?

Luiz Alberto Hanns: As várias combinações são necessárias. O poder público precisa impor por tempo suficiente sistemas anticorrupção para que haja um aprendizado social. Até certo ponto, funciona, mas não sem que individualmente as pessoas introjetem novos valores. Por isso é preciso que entidades civis, líderes de entidades empresariais, ONGs, profissionais, escolas, e a mídia, todos se mobilizem, não adianta esperar que alguns funcionários e políticos isolados tentem lutar heroicamente contra um sistema corrompido.

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