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Seção Entrevista
07/12/2017 - 15:26:25
Bate-papo com Luiz Alberto Hanns, psicólogo da mentalidade brasileira sobre corrupção, burocracia e má gestão
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação / Casa do Saber Luiz Alberto Hanns, psicólogo da mentalidade brasileira sobre corrupção, burocracia e má gestão.

Empreendedor do conhecimento, Luiz Alberto Hanns é um incansável estudioso do universo social. Ao dar aulas de alemão, ainda na faculdade de Administração da FGV (Fundação Getulio Vargas), debruçou-se em criar uma escola de idiomas – que prosperou, chegando a ter 600 alunos –, mas gostava mesmo era de entender e explicar o contexto das relações sociais para os seus alunos estrangeiros. Daí nasceu a vontade de cursar Psicologia e tudo mudou.

Formado pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado e doutorado pela PUC (Pontifícia Universidade Católica), dedicou-se à tradução de Freud, ao estudo das metodologias da psicoterapia e atendeu muitos pacientes até que a cena econômico-social voltou ao foco e, hoje, Hanns está desenvolvendo um amplo estudo sobre a Interface entre Mentalidade e Desenvolvimento Socioeconômico.

O que isso releva? Significa compreender o Brasil e suas pessoas nas diversas faces da corrupção, no sistema burocrático lento e oneroso, e explorar por que o país conta com uma gestão tão ineficaz do Estado.  

Nesta entrevista exclusiva ao portal do Sincodiv-SP, conheça melhor Luiz Hanns, suas hipóteses e ideias sobre o brasileiro nas relações pessoais e profissionais nas esferas pública e privada.

Sincodiv-SP Online: Você começa administrador e posteriormente consolida carreira na área de Psicologia. Como transcorreu essa trajetória?

Luiz Alberto Hanns: Já na faculdade, defini que queria ter uma empresa ligada à área de ensino e treinamento em idiomas. Inicialmente, eu dava aulas de alemão para executivos brasileiros e ensinava também português para profissionais estrangeiros, então enveredei para o desenvolvimento de apostilas e metodologias de aprendizagem, assim como para o lado comercial.

A ideia floresceu e a empresa chegou a ter 600 alunos em duas unidades. Na época, havia realmente uma oportunidade grande nessa área pelo fato de que as empresas da Alemanha eram grandes investidoras no país.

Ao mesmo tempo em que o negócio caminhava, voltei à sala de aula para um mestrado em Economia. Estava com a dissertação pronta, qualificada, aos 28 anos. Já dava aulas em universidade, quando me dei conta de que o que eu queria mesmo era entender as mentalidades, a Psicologia Individual e Social.

Sincodiv-SP Online: O que influenciou você nesta mudança de área de atuação?

Luiz Alberto Hanns: Foi o fato de que eu me dedicava muito a explicar aos executivos estrangeiros aspectos culturais do Brasil e sua influência no contexto econômico. Então, o assunto ao qual eu realmente queria me dedicar era o psicológico.

Mudei o esquema de vida. Não quis mais ter a escola, nem estudar temas da área de Administração. Ingressei na faculdade de Psicologia (USP) e recomecei do zero: com graduação, mestrado e depois doutorado na nova área, pela PUC.

Nesta fase, dediquei-me à clínica e desenhei um longo percurso na área, com tradução de terminologias de Freud e como foram modificando-as ao longo do tempo, distorcendo o entendimento dos conceitos. A obra se tornou uma referência.

Sincodiv-SP Online: E você não parou por aí...

Luiz Alberto Hanns: Houve um novo passo. Mergulhei nas metodologias da Psicoterapia, fui consultor do Conselho Federal de Psicologia do Brasil para a regulamentação dos tratamentos. E, novamente, a evolução dos estudos me levou à Psicoterapia Integrada. A experiência dos atendimentos de casais e famílias propiciou o desenvolvimento de livros, uma outra vertente do meu trabalho.

Hoje, além da clínica, dou palestras e, claro, dedico-me a novos temas – e o principal deles é a Interface entre Mentalidade e Desenvolvimento Socioeconômico.

Sincodiv-SP Online: Nesses estudos, você define diferentes formas de corrupção e seu papel dentro do contexto cultural e da gestão pública no Brasil. Fale mais a respeito.

Luiz Alberto Hanns: Divido a corrupção em três camadas classificadas como: sistêmica, endêmica e sindrômica.

A primeira envolve, em boa parte, as instituições do país e suas pessoas, que se retroalimentam a partir do financiamento eleitoral, em parcerias com empresários gananciosos e depois com o loteamento das organizações do Estado para obtenção de benefícios pessoais e partidários.

A camada a endêmica diz respeito à ética relativa que as pessoas admitem no contexto da vida privada. Pequenas transgressões são aceitas e praticadas por muitos brasileiros, como beneficiar o filho com um emprego conseguido apenas por relacionamento com um amigo ou mesmo não corrigir uma conta de restaurante ao observar que um item deixou de ser cobrado. Essa é uma pequena corrupção da esfera pessoal que desliza para a sistêmica, quando o sujeito atua na vida pública.

Já o termo "sindrômica" pretende chamar atenção para o fato de que a corrupção no Brasil é multifatorial, envolve além da sistêmica e endêmica, também o burocratismo e má gestão. Para escapar de normas impossíveis de serem cumpridas – e que, se levadas à risca pela fiscalização, inviabilizam os negócios -, eventualmente o cidadão ou empresa sufocado pede por oxigênio, pagando propinas, algo que se vende caro.

Há também a morosidade dos órgãos públicos na análise de pedidos de licenças, por exemplo, levando as empresas e pessoas físicas a suplicarem aos representantes do Estado para que acelerem processos dando "algum jeitinho".

Sincodiv-SP Online: Para solucionar as diferentes formas de corrupção, quais ações/medidas devemos tomar, em sua opinião?

Luiz Alberto Hanns: O combate à corrupção sistêmica se dá com um controle mais forte pelo Poder Judiciário sobre o sistema (no método de amostragem) e aumentando-se do custo da corrupção, por meio das multas, penalidades, além do desenvolvimento de uma consciência cívica, tornando isso algo moralmente abominável. O que nos falta é uma mobilização social organizada. 

No caso da endêmica, a solução ocorre por meio da intensificação do debate social nos ambientes de convívio, canais de comunicação e conteúdos de entretenimento (novelas, teatros), abordando a importância da ética para o bem comum. Leva tempo, mas funciona!

Agora, ainda que conseguíssemos enfrentar as corrupções sistêmica e endêmica, temos a questão da forma como gerimos as instituições – que precisa mudar – porque, em certos casos, quase que obriga à corrupção e induz ao achaque (a ação com vício). Precisamos mobilizar a sociedade civil a por meio de campanhas de educação pública, nas empresas, nas novelas, documentários, reportagens, revistas, nas escolas e impregnar a sociedade com a noção de que um dos grandes inimigos do Brasil é o burocratismo. Ele impede que verbas públicas cheguem ao destino, lentifica processos, sobe o custo Brasil, tornando a vida cara e o cotidiano insuportável.

Finalmente, induz, mesmo o cidadão honesto a apelar à corrupção. Se tivermos líderes empenhados nestes temas, poderemos ir conscientizando o país. Se entidades empresariais e profissionais começarem hoje, em alguns anos estas noções se enraizarão nos corações e mentes.

Os brasileiros ainda não se deram conta do tamanho desse problema e isso é preocupante, assim como a deficiência que temos na área de gestão das instituições, especialmente as públicas.

Ou seja, para colocarmos o país no bom rumo, teremos que contar com movimentos que lancem, assim como ocorre no caso da corrupção sistêmica, as 10 medidas contra a burocracia, as 10 medidas contra a má-gestão e também as 10 medidas contra a falta de ética na vida privada!

Sincodiv-SP Online: Quais os aspectos psicológicos que afetam a gestão inadequada que acontece no país?

Luiz Alberto Hanns: Não são exatamente aspectos psicológicos, mas um conjunto de crenças, valores e hábitos que compõem a mentalidade e atitudes dos brasileiros diante da gestão pública e privada.

Dou três exemplos. Nós não levamos a sério planejamento. Na Alemanha e no Japão, o tempo de planejamento para um projeto é três a quatro vezes maior, e o planejamento é incrivelmente detalhado. Aqui, somos impacientes e superficiais ao planejar. Nós não praticamos um follow-up nos projetos, tendemos a ser negligentes no acompanhamento da execução dos planos. Também não temos a postura que em países que progridem é habitual de a cada problema buscar importar as melhores práticas já testadas em outras cidades, regiões ou países.

Perdemos muito tempo reinventando a roda, não aprendemos com a experiência alheia, tal como fazem por exemplo chineses, japoneses, americanos, etc.

Sincodiv-SP Online: Na sua avaliação, o brasileiro é conivente e leniente com ações e posturas eticamente discutíveis? Como isso afeta o país?

Luiz Alberto Hanns: Se você olhar sob uma ética tribal, bairrista, rural do século passado, não.

Muitas vezes, o brasileiro considera que está sendo ético por proteger a família dele, o amigo dele acima de tudo. Se ele deu um jeitinho para conseguir algo num ambiente que ele entende que não é meritocrático mesmo, então ele avalia que está sendo ético...

Agora, naquilo que nós atribuímos como ético no mundo contemporâneo, com valorização da meritocracia, da honestidade, dando a todos a mesma chance, neste aspecto o brasileiro muitas vezes é leniente e complacente. Temos uma dificuldade cultural em frustrar nossos filhos, funcionários, chefes, eleitores, e tendemos a procrastinar, enrolar, ou fingir que estamos atendendo ou que iremos atender a demandas às vezes impossíveis de satisfazer

Essa postura de complacência é algo tão arraigado na nossa cultura nacional que afeta as relações, pois não conseguimos dizer "não" e cobrar desempenho, expondo os que não cumprem os compromissos a sofrerem as consequências. Tendemos a estender o prazo e dar um jeito de acomodar as coisas.

Chegamos ao momento em que não temos mais como atender às demandas e necessidades de todos.  Teremos de fazer uma coisa chamada pacto distributivo realista, sem pensamento mágico, e entender que não há verba suficiente para tudo.

Ou cortamos na saúde, ou no transporte, ou na educação ou na logística, etc. Esta é a escolha que sociedades mais coesas e maduras fazem. Por exemplo, os alemães e japoneses devastados após a Segunda Guerra Mundial, decidiram primeiro investir em fábricas e logística e educação, para garantir empregos e renda e só depois em moradias, saúde, e qualidade de vida.

Os candidatos que não sejam populistas em algum momento terão de se arriscar a perder eleições, mas dizer a verdade. Macron venceu as eleições dizendo aos franceses que terão de fazer escolhas duras. É preciso que alguns partidos se arrisquem a uma campanha que não vicie o eleitor e pensamento mágico e infantil. Entre hoje e os próximos cinquenta anos o país amadurecerá, mas nós deveríamos começar a ajudar nesse processo hoje, por que não?

Sincodiv-SP Online:  O que impede de evoluirmos na solução da corrupção?

Luiz Alberto Hanns: Não adianta só combater a corrupção sistêmica, temos de lutar ao mesmo tempo contra seus três cúmplices: a falta de ética na vida privada (corrupção endêmica) e a péssima gestão e burocracia (corrupção sindrômica).

Quanto às duas últimas, precisamos também disseminar pelo país alguns princípios básicos para melhorar a administração pública. Eles precisariam se tornar parte da cultura nacional.

Por exemplo: planeje em detalhes, coordene as ações colocando um gerente para coordenar a comunicação entre os órgãos e antes de encaminhar soluções, sempre pesquise as melhores práticas já adotadas por outros. Esses princípios podem ser ensinados à toda população desde a escola, faculdade, nas empresas privadas, e através de ações de requalificação técnica no serviço público (que aliás já acontece em alguns municípios, com apoio do empresariado).

Uma ação ampla e apoiada por empresários, intelectuais, profissionais liberais, mobilizando o país já é viável hoje. Inclusive associações patronais poderiam se organizar nacionalmente e se envolver em campanhas cívicas, suprapartidárias. Isso ajudaria a criar uma onda em prol do amadurecimento do país, em vez de polarizá-lo partidariamente.

Na verdade, a sociedade está pronta e disposta a mudar. Em grande parte, se fez isto em países como Coréia do Sul, Estônia, Estados Unidos, Alemanha, e apesar dos mitos de que eram culturas mais evoluídas que a nossa, na verdade, algum dia foram sociedades desorganizadas, com populações que conviviam com corrupção e complacência e suas "viradas" aconteceram com amplo envolvimento de lideranças lúcidas da sociedade civil.

Para ler o conteúdo da segunda e última parte da entrevista com Luiz Alberto Hanns, psicólogo que estuda a mentalidade nacional para explicar corrupção, burocracia e má gestão no Brasil, acesse aqui.  

 Produção e edição;

 

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