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Seção Entrevista
03/05/2018 - 08:11:43
Bate-papo sobre Fake News com Sergio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comitê Gestor da Internet
Por Matheus Medeiros e Juliana de Moraes
Divulgação

Fake news é um dos termos mais comentados e debatidos no atual cenário político do Brasil. Afinal, cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no país, segundo levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo).

Em ano eleitoral e diante de uma realidade com ânimos políticos acirrados, o debate se torna ainda mais relevante e tem na internet um agente decisivo. Afinal, segundo o Instituto Reuters, em 2016, 72% dos brasileiros de grandes centros urbanos já usavam as redes sociais como fonte de notícia.

"O que prolifera com força nas redes é a política do escândalo. O que mais chama a atenção não é o debate e a procura por soluções dos problemas, que são extremamente complexas, é o espetáculo. Isso incita as fake news, que criam e amplificam escândalos o tempo todo", explica Sergio Amadeu, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) e personagem do Bate-papo do Sincodiv-SP Online.

Confira, a seguir, entrevista completa, em que o especialista e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil define o que é uma fake news e discute como uma notícia falsa surge e se propaga - tanto na internet, quanto nas mesas de bares e jantares de família:

Sincodiv-SP Online: Nos conte um pouco sobre a sua carreira.

Sergio Amadeu: Sou pesquisador e professor da UFABC e, desde os anos 90, pesquiso as implicações sociais das tecnologias, especialmente as digitais. Tenho pesquisado temas vinculados à sociedade e às redes digitais, passando por regulamentação da internet no Brasil, inclusão e exclusão digital, indo para temas da cibercultura e, atualmente, focando mais na pesquisa sobre privacidade e algoritmos.

Meu último trabalho foi o livro "Tudo sobre Tod@s: Redes digitais, privacidade e venda de dados pessoais", em que mostro que há um novo cenário em que dados pessoais são a nova base da economia, assim como o petróleo foi no Século XX. Além disso, sou um dos três representantes da comunidade acadêmica no Comitê Gestor da Internet no Brasil.

 

Sincodiv-SP Online: O que efetivamente caracteriza uma fake news? Qual é o papel da internet na propagação de uma notícia falsa?

Sergio Amadeu: A fake news adquiriu importância recente a partir das eleições nos Estados Unidos, a partir de informações e notícias espalhadas na internet - principalmente nas redes sociais - que teriam como objetivo não informar, nem tratar da verdade, mas simplesmente viralizar e levar as pessoas a adotar certas posições, assumindo determinadas posturas. Fake news são, no geral, informações falsas, deturpadas e exageradas.

Só que há uma questão importante nisso tudo: as notícias falsas não são novidades nos universos políticos, diplomáticos e econômicos. No próprio EUA, temos o caso da Guerra do Iraque, em que a ofensiva militar norte-americana foi motivada por "provas incontestáveis" de que o país possuía um arsenal de armas de destruição em massa – algo que nunca foi comprovado, mais de uma década após a invasão ao país.

 

Sincodiv-SP Online: Como uma notícia falsa surge e se propaga? Qual é o papel da internet nesse processo?

Sergio Amadeu: Uma fake news surge porque há o interesse - político, diplomático, econômico, social, etc. -  de alguém na sua elaboração e se propaga porque há o interesse dos leitores/divulgadores em que aquele fato seja uma verdade.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro O Poder da Comunicação (2009), mostra que o que prolifera com força nas redes é a política do escândalo. O que mais chama a atenção não é o debate e a procura por soluções dos problemas sociais, que são extremamente complexas, é o espetáculo e o escândalo. Isso incita as fake news, que criam e amplificam escândalos o tempo todo.

Uma notícia deturpada ou exagerada que "prova" - ainda que falsamente - que seu adversário político ou econômico é, por exemplo, corrupto e mentiroso é sedutora. Dentro do jogo político, ainda mais atualmente, com os ânimos tão acirrados, essa notícia é interessante para determinado público, e isso motiva seu compartilhamento a partir de um sentimento de "eu já sabia, eu estava certo o tempo inteiro" ou "as pessoas precisam saber disso urgentemente".

Mas é bastante complicado dizer que o jogo político baseado no exagero e na não-verdade se amplificou com a internet. No entanto, é inegável que a partir da internet e, principalmente, das redes sociais, foram criadas maneiras mais efetivas de se espalhar essas notícias falsas, cada vez mais rapidamente e para mais pessoas.  Ocorre que é também pela internet que é possível combater esse problema. É a própria internet que faz o contraponto às notícias falsas.

 

Sincodiv-SP Online: Em que medida as eleições de 2018 podem ser influenciadas por fake news?

Sergio Amadeu: Todas as eleições são influenciadas pelo o que hoje chamamos de fake news e a interferência acontece o tempo inteiro dentro do jogo político, então é certo falar que as eleições de 2018 já foram influenciadas por notícias falsas - o atual cenário político é esse por conta de, entre outros tantos motivos, o que está sendo disseminado e discutido nas redes sociais e sabemos que muito disso é distorcido e/ou falso.

Além disso, durante o período de campanha em si, vão haver, com certeza, tentativas de indução, modulação e manipulação de comportamento por meio de notícias falsas. É difícil avaliar até que ponto isso será decisivo nas eleições, mas é certo que isso fará - e já faz - parte do jogo político.

 

Leia também a segunda e última parte da entrevista sobre Fake News com Sergio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comitê Gestor da Internet.

 

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