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Seção Entrevista
03/05/2018 - 08:09:46
Bate-papo sobre Fake News com Sergio Amadeu, professor da UFABC e membro do Comitê Gestor da Internet - PARTE II
Por Matheus Medeiros e Juliana de Moraes
Divulgação

Sincodiv-SP Online: Como combater a proliferação das notícias falsas?

Sergio Amadeu: É muito difícil ter um quadro efetivo do combate à fake news, porque é complicado identificar o que é a distorção de uma notícia. Enquanto estamos falando sobre fatos que ocorreram ou não, é mais simples identificar se tal notícia é verdadeira ou falsa, mas geralmente as disputas acontecem em outro campo: discutindo porque tal fato ocorreu, quais são as consequências e qual a intensidade do que ocorreu. São nesses itens que ocorrem, na maior parte do tempo, os exageros, manipulações e distorções.

É muito difícil você ter, a priori, um algoritmo, por exemplo, que possa definir o que é uma fake news, agindo previamente. Quando você faz isso, se pratica censura. Essa é minha maior crítica ao que se discute hoje em termos de combate.

A identificação de uma fake news é muito difícil porque ela está ligada com a definição de "verdade" e essa é uma questão complicada historicamente, tanto na política, quanto na ciência social.

A mentira não é e nunca foi uma boa construtora do poder, mas a censura destrói a democracia. Não há como construir um debate democrático baseado na censura, mesmo dizendo que isso acontece com o objetivo de evitar mentiras.

É uma linha tênue, que exige que o trabalho de combate seja feito reativamente. Você percebe uma notícia falsa sendo difundida nas redes e denuncia, a partir disso é feita uma análise se aquilo realmente é uma mentira.

Uma das melhores ferramentas de combate às fake news - e que está disponível a todos - é o debate. Você vê alguém disseminando uma notícia falsa e vai debater com essa pessoa, mostrando o "fato real" e como tal notícia está distorcendo a realidade.

Por existir uma conectividade muito grande nas redes sociais - 77% dos brasileiros que tem acesso à internet tem conta no Facebook, por exemplo -, essas passam a ser uma plataforma de disseminação das notícias falsas, mas também das verdadeiras. A internet, sem dúvida nenhuma, auxilia articulações negativas, mas também positivas.

Um exemplo disso está no registro. Antigamente, era impossível medir como se dava a propagação de uma fake news, porque isso acontecia nas mesas de bares, corredores de escola, jantares de famílias, fábricas, faculdades, pontos de ônibus, etc.

Com a internet, tudo fica registrado, então é possível medir essa disseminação, o que é algo positivo por ser efetivo, já que as pessoas que têm um grau de compromisso com a verdade e com a civilidade no debate - seja ele profissional e/ou pessoal - não quer estar vinculado com uma mentira.

Além disso, a possível solução - ou amenização - do problema envolve a sociedade civil organizada e a própria imprensa, no papel de checadores de fatos e divulgação de notícias verdadeiras, excluindo o sensacionalismo.

 

Sincodiv-SP Online: Levantamento da USP mostra que cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no Brasil. Como uma pessoa pode perceber que tal notícia é falsa? Quais medidas o leitor deve tomar para "filtrar" o conteúdo que absorve?

Sergio Amadeu: A principal dica é: toda vez que você ler uma notícia que parece "boa" demais para ser verdade, principalmente quando ela trata de política, existe uma grande chance dela realmente não ser uma verdade. Então, antes de compartilhar - virtualmente ou presencialmente - pare um minuto para checar a procedência do próprio fato e do veículo que divulgou tal notícia.

Se você compartilhar notícias sem, por exemplo, ler o conteúdo na íntegra, sem checar a origem do fato, sem conhecer a credibilidade do veículo, você passa a ser um mero replicador, um robô do produtor da notícia falsa, que sempre tem seus próprios interesses.

Mas devemos sempre lembrar que não é porque tal veículo ou jornalista é desconhecido, que ele está divulgando uma mentira. E é por isso que é tão difícil combater as fake news a partir de ofensiva ampla, porque não pode haver seletividade prévia - a tarefa precisa ser caso a caso.

As pessoas costumam alegar que nem todo mundo tem tempo de fazer essa checagem. Assim sendo, haja em segurança. Se não tiver tempo de fazer esse trabalho, não replique. É melhor não compartilhar nada, do que divulgar uma mentira.

Toda pessoa conectada é um nó da rede, que pode dar um volume grande ao replicar qualquer notícia, o que faz uma diferença incrível no alcance dessa mentira. Todas as plataformas de redes sociais são operadas por algoritmos e a velocidade e o volume de replicações de algo é um fator de impulsionamento dentro desse sistema.

As pessoas precisam ter consciência do seu papel nesse processo todo. Alguém pode achar que é apenas mais uma e que, individualmente, não faz diferença alguma na coletividade, mas aquele compartilhamento sem a devida checagem de uma notícia falsa faz toda diferença nas redes sociais, o que influencia o atual jogo político-democrático, já que a opinião pública é vital numa democracia.

 

Sincodiv-SP Online: Diversas empresas também vêm sofrendo com a propagação de notícias falsas. Como elas podem se preparar para este cenário?

Sergio Amadeu: As empresas precisam se preparar para o cenário de redes. Dependendo do tamanho da companhia, ela precisa ter uma área - própria ou terceirizada - de análise de redes que trabalhe em cenário diário, monitorando o que estão dizendo nas redes e respondendo por ela, esclarecendo dúvidas e não deixando que inverdades sejam proliferadas.

O trabalho não pode se limitar a simplesmente dizer "não acreditem no que dizem de mim", é preciso criar uma atmosfera e sentimento de credibilidade no processo. Trata-se de uma tarefa relativamente complexa, mas importante, uma vez que serve para preservar e proteger a reputação da organização.

 

Produção e edição

 

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