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Seção Entrevista
14/06/2018 - 18:07:17
Bate-papo com Leyla Nascimento, primeira presidente da Federação Mundial de Recursos Humanos
Por Juliana de Moraes e Renan De Simone
Divulgação

Atual presidente do Conselho Deliberativo da ABRH-Brasil (Associação Brasileira de Recursos Humanos), Leyla Nascimento é a primeira mulher e brasileira a assumir a Presidência da WFPMA (World Federation of People Management Associations - a Federação Mundial de Recursos Humanos), entidade internacional que representa mais de 600.000 profissionais de gestão de pessoas em mais de 90 associações nacionais de recursos humanos pelo mundo.  

A posse, neste mês de junho, acontecerá em Chicago, Estados Unidos, durante o Congresso Mundial de RH promovido pela Federação, entre os dias 17 e 20/06. Nesta entrevista exclusiva para o Sincodiv-SP Online, Leyla, uma liderança e empreendedora inconteste, fala sobre a evolução do papel da mulher no mercado de trabalho, os rumos para a área de Recursos Humanos no Brasil, o impacto da inteligência artificial para as relações laborais e é otimista quanto ao futuro.

Para ela, as áreas de Recursos Humanos poderão avançar em sinergia e conhecimento por meio do intercâmbio de experiências, sua principal plataforma de atuação na gestão da organização internacional na qual será líder máxima a partir deste mês.

Confira a íntegra desta conversa de RH e liderança a seguir:

 

Sincodiv-SP Online: Leyla, fale um pouco sobre você e sua carreira.

Leyla Nascimento: Sou carioca e meu escritório, a empresa Capacitare Institute, fica no Rio de Janeiro (RJ). Sempre trabalhei no estado. Fiz Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e já estudei na faculdade com o olhar para atuar nas empresas. Nunca tive interesse pelo universo escolar - e o foco era bastante na área de Educação -, com isso, fiz pós-graduação em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro já para obter mais do conteúdo de RH.

Então, do ponto de vista acadêmico, segui nesta mesma linha ao fazer o mestrado em Gestão Executiva pela Fundação Getulio Vargas do Rio, que foi o que me deu a formação na área de Gestão.

Essa trajetória acadêmica aconteceu concomitantemente à minha carreira profissional. Comecei na área de Recursos Humanos, em Treinamento, Desenvolvimento e, posteriormente, assumi cargos mais executivos, permanecendo como empregada em empresas. Aos 27 anos, assumi minha primeira Gerência, cresci na carreira e desde então comecei a notar a necessidade de adaptações para o universo feminino nas organizações.

 

Sincodiv-SP Online: O que observou quanto à necessidade de mudança nas organizações para a atuação e evolução de mulheres nas suas profissões?

Leyla Nascimento: Nesses cargos executivos, eu era sempre a única mulher e, portanto, conheci de perto a dificuldade que um profissional do sexo feminino passava - e ainda enfrenta - para trabalhar.

Ela, a executiva, tem que ser sempre mais - do que os homens, verdade seja dita. Mais assertiva, tomar mais cuidado com o que fala, como fala, sentimentos nunca podem ser colados na mesa. Tanto é que mulheres de cargo executivo ficavam - e até hoje permanecem - usando terno, mais formais, para parecerem mais próximas do universo masculino, como se dessa forma fosse possível conquistar o respeito de seus pares do sexo masculino. Isso fez com que mulheres executivas ficassem até mais sérias do que deveriam.

Lembro que uma vez ouvi um par meu dizer: você é certinha demais, não precisa tanto! Então, foi ao longo da carreira que pude aprender muito sobre as relações profissionais, o papel da diversidade, os desafios para mulheres, homens, e relacionadas a questões de raça e gênero.

 

Sincodiv-SP Online: Há alguma vivência que ilustra bem esse momento?

Leyla Nascimento: Tive algumas experiências bem interessantes. Lembro que o Rotary abriu a participação para mulheres em 1989 e fui a primeira mulher a fazer parte de meu clube. Foi curioso. Havia o grupo dos rotarianos, todos homens; e as suas esposas. No meu caso, perguntavam: de qual grupo você vai fazer parte? Eu ri e disse que faria parte de ambos porque para mim não fazia muito sentido essa separação.

Depois, numa convenção de governador do Rotary, fiz parte de uma comissão e meu marido me acompanhou. Ele e apenas mais um marido de rotariana estavam no evento - os demais cônjuges eram mulheres. Ele, na ocasião, me perguntou: e o que eu vou fazer aqui? Comentei que haveria uma palestra para os esposos. E quando acabou o evento, nos encontramos e perguntei: foi boa a palestra? Ele riu, falando, "foi ótima! O palestrante era um médico ginecologista..." (risos).

Isso mostra o quanto o mundo, de certa forma, não estava preparado para o avanço profissional das mulheres, e sua participação nas organizações como agente ativo.

Voltando à questão da carreira, em 2006, abri minha empresa, a Capacitare Institute, em que atuo desde então.

 

Sincodiv-SP Online: Em relação à sua vida associativa, como foi a trajetória – que agora culmina com você como a primeira mulher a assumir a Federação Mundial de Recursos Humanos?

Leyla Nascimento: A vida associativa para mim sempre foi importante. Comecei a transitar pelas organizações do segmento em 1982. Em 2000, fui convidada a fazer parte da diretoria da ABRH RJ (Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio de Janeiro). Em 2004, fui eleita presidente, permanecendo na posição por dois mandatos. Então, em 2010, passei à liderança da ABRH Brasil.

Na Presidência, fui convidada a fazer parte do board da entidade interamericana, a FIDAGH (Federación Interamericana de Asociaciones de Gestión Humana). Já em 2015, assumi a Federação Interamericana como presidente, com assento no board da Federação Mundial de Recursos Humanos.

Sempre tive a impressão de que lá havia a necessidade da criação de um grupo para a troca de experiências internacionais, daí criou-se o G-20 no âmbito da instituição, uma contribuição brasileira para a atuação da organização que teve grande receptividade. Fui convidada para a Secretaria Geral da Federação Mundial e nesses dois anos fui, então, indicada e eleita para comandar a organização.

 

Sincodiv-SP Online: Por que entende como importante a vida associativa?

Leyla Nascimento: Entre minhas metas de carreira, a participação anual em um congresso mundial foi uma prioridade que estabeleci. Portanto, eu já acompanhava a Federação Mundial como participante dos eventos. Sempre entendi que era necessário acompanhar exposições sobre cenários e tendências da minha área.  Fazia contato com a Federação, com seus representantes.

Por mais que se queira, como profissional, não dá para ser uma ilha. Precisamos participar de grupos, de uma vida associativa. Essa atuação tem grande valor e ter vínculo de troca é importante pelo fato de que estudar permanentemente é uma necessidade saudável. E ela precisa ser despertada nos profissionais brasileiros que pouco investem nisso em comparação com os dos EUA, Europa...

 

Sincodiv-SP Online: Na sua avaliação, por que os profissionais brasileiros investem pouco na atuação associativa?

Leyla Nascimento: Os executivos falham por viverem exclusivamente para dentro da empresa. As organizações demandam justamente os agentes que têm condições de lerem cenários, uma visão sistêmica, o que só é possível se houver esse engajamento. Demanda um esforço de agenda, de networking, mas fundamental.

Eu costumo dizer que networking é considerar quantas vezes sou lembrada pelo outro, por meio da participação de grupos de discussão. Não se trata apenas de troca de cartão de visita.

 

Para conferir a segunda parte da entrevista com Leyla Nascimento, primeira presidente da Federação Mundial de Recursos Humanos, clique aqui.

 

Produção e edição